Crônica: Saudosa Banoffee

Há quinze anos alguém me convenceu de que juntar banana, doce de leite, nata batida e biscoito moído, sem requinte algum, era a receita de uma famosa torta inglesa chamada Banoffee. No decorrer daquele longo ano de 2010 eu veria essa incrível receita ganhar espaço não só no meu café da tarde, mas também nos bistrôs, padarias, lanchonetes, casas de chá e, incrivelmente, festas e almoços em família nos domingos. Mas… passado tanto tempo desde sua popularização, cabe uma pergunta: por onde anda a Banoffee?

Ninguém nega a força da tradição nos hábitos culinários, sejam eles quais forem. Toda gente sabe: domingo é dia de maionese, carne assada e macarronada. E ponto. Sopa só nas segundas, mas, se for ela a de capeletti, pode ser na quinta à noite. Cachorro-quente ou pizza, sábado, no jantar, com amigos. Onze da manhã é hora de fazer o chimarrão. Às cinco da tarde é obrigatório o pão com manteiga e café. Nesse mundo de idiossincrasias gastronômicas, tudo tem seu lugar, dia e horário para ser servido, consumido. Claro, cabe alguma adaptação, pois a diversidade cultural comporta suas customizações familiares, caso contrário o pirogue e o quibe não entrariam nunca na contabilidade. E se você não compreende, considere ao menos o panetone no Natal, as romãs e o arroz com lentilhas no jantar de réveillon. Entendeu?

Esse foi o problema enfrentado pela Banoffee, intrusa vinda do além-mar para tentar colonizar as já tão fartas vicissitudes alimentares de cada um. Ou alguém um dia pensou que depois dela o sagu estava com os dias contados? Que o chico balanceado não iria mais alegrar os almoços em família? Que na festa da vovó iriam trocar o bolo de abacaxi e o manjar de ameixas com coco por meia dúzia de bananas atoladas num lamaçal de doce de leite? Jamais!
Não podemos dizer que ela não teve sua chance. Até a teve. Mas a verdade é que nunca houve um real espaço para Banoffee em nossos convescotes. Digo até que sabíamos isso de antemão, pois o mesmo destino já fora experienciado por outros tantos aventureiros, como o brigadeiro de banana, o bolo de kit kat, o dadinho de tapioca, a paleta mexicana, o wrap de pão folha, o tal do chocolate belga (que ninguém sabe de onde efetivamente vem, já que quase nunca é da Bélgica), o temaki, o chá verde, a coitada da pitaya, … a lista é interminável. Veja bem: qualquer um desses citados perde fácil para a paçoquinha e para o biscoito de água e sal no nosso dia a dia.

Digo mais: num mundo em que os caros cupcakes perderam seu lugar para os populares bolos de pote e esses, infelizes, acabaram relegados a segundo plano num freezer qualquer de padaria, a Banoffee lutou uma luta ingrata, concorrendo apenas com a sua montagem contra as tradicionais facilidades da gelatina, do potão de sorvete napolitano, da cuca de uva com farofa doce e do bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Impossível era sua vitória.

Aliás, por falar em bolo de cenoura, recentemente passei por mais uma experiência como a da Banoffe, eis que fui apresentado ao Carrot Cake inglês, o maravilhoso bolo de cenoura, especiarias e nozes, com cobertura de cream cheese. Delicioso a cada garfada, enquanto o comia apaixonei-me. Imaginei-me fazendo-o, servindo-o, provando-o inúmeras vezes em eterno retorno. Na quimera, as pessoas fariam fila para o chá da tarde na minha casa, dispostas a provar essa novidade. Seríamos entrevistados pela Ana Maria Braga, certamente. Aos poucos, porém, comecei a pensar naquilo que eu teria que deixar para trás se decidisse adotá-lo nos cafés da tarde e festas caseiras. Percebi então que na minha vida não há possibilidade de coexistência permanente de dois bolos de cenoura. Uma vez que ele passasse a ser parte da tradição, o que eu faria com o acervo de memórias sobre a cobertura de chocolate?

Abandonaria tudo em nome de uma fina camada de cream cheese? E a cenoura batida no liquidificador, perderia seus significados históricos para meras lascas retiradas do ralador? Nunca! A decisão estava tomada e, sinto muito Carrot Cake inglês, o mundo em que vivo é mesmo o do bolo de cenoura mineiro, com cobertura de chocolate derretido. Ao menos, pensei, salvei-o do destino que lhe aguardava dentro de pouco tempo.

Terminada a crônica e, com fome, antes de escrevê-la, fui até a cozinha beliscar alguma coisa. Peguei um biscoito, comi. Peguei uma banana, comi. Para que a vida tivesse então alguma graça, às onze da noite, resolvi pegar um pouco de doce de leite. Que ironia, pensei. Se tivesse juntado tudo isso com um pouco de nata, teria feito uma, uma, uma… aliás, por onde anda a Banoffee?

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e consultor para o FNDE. Contato: perazzoli@gmail.com/@‌fernandodavidperazzoli.

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