CRÔNICA: TODOS OS NOMES
A falta de criatividade para nomes próprios é, sem dúvida, um dos maiores fatores para se acreditar que a humanidade tenha errado em algo lá na largada, talvez. Falo do lado ocidental da cultura, claro, até porque não tenho gabarito para saber se nomes indianos, japoneses e chineses são representativos de um bom uso da linguagem ou, como cá acontece, da falta de criatividade mesmo.
De acordo com o Google, 117 bilhões de pessoas, contando as atualmente vivas, já puseram seus pés na Terra (mais meia dúzia na Lua). Que daí se retirem uns 17 bilhões de anônimos (o que já seria muito), teríamos 100 bilhões de pessoas para as quais algum nome foi dado. No entanto, mais dia e menos dia de nossa história, nasce uma criança e nela se coloca exatamente o mesmo nome que outras milhares já usaram. O Brasil tem aproximadamente 200 milhões de pessoas para, pasmem, apenas 140 mil nomes, ou seja, a cada 1.400 pessoas você poderá encontrar, estatisticamente falando, alguém com o seu nome. Absoluta falta de criatividade, não há justificativa.
Percebam que não é chatice minha, ou só um pouco, vá lá. É que a coisa já ficou tão lugar comum que até mesmo uma falta de pudor se percebe nas repetições: em primeiro são as cópias de nomes bíblicos aos bilhões, depois são os nomes de gente famosa que se repetem a tordo e a direito para, enfim, chegar-se ao cúmulo das pessoas famosas que copiaram e colarem nomes de gente da Bíblia para os usarem como seus. Daí que você encontra o fulano influencer de TikTok que outrora vendia camelos na Galileia… melhor não comentar mas, já comentando, acho estranho mesmo o Estado do Vaticano, que estaria para os nomes bíblicos como o cartório está para os nomes civis. Neste pequeno estado cravado no meio de Roma, com seus 882 habitantes, seria tranquilo atribuir um nome diferente para cada pessoa mas, sejamos francos, como propor isso a um país soberano no qual o próprio chefe do Estado está usando um nome que já foi utilizado anteriormente por treze vezes!?!
Já parou para pensar quantas Anas, Fernandos, Marias e Josés passaram por aqui? Pois é… Exaustivamente já usados milhões de vezes, voltam a ser utilizados tão logo a criança comece a ser pensada. E ela, a criança, vai por aí, saltimbanca, sem se dar conta de que outras milhões já saltimbancaram antes com o nome que ela tem. Uma angústia só, que usamos o nome de outras pessoas. No passado, relembro, a cada início de ano letivo eu corria afoito e temerário até a mesa do professor para ver se havia outro Fernando na chamada. Nunca ocorreu e por 13 anos fui salvo de me sentir um menino duplicado na sala de aula. Ufa.
Não se pense aqui, contudo, que comungo com as bizarrices e adaptações, tampouco as penso como sinais de criatividade. Falo porque me deparei com o nome X Æ A-Xii, que batiza o último filho do megamagnata Elon Musk. Na explicação, envolve-se desde a variável a ser descoberta nos problemas matemáticos até o número de uma aeronave da força aérea americana, passando por simbologias élficas e significantes dinamarqueses. Até hoje, diz-se na internet, ninguém sabe falar o nome dele, nem ele mesmo. Para mim, simples cronista, a invenção do nome do filho de Musk parece tão bem feita quanto o foi aquela reconstituição do quadro Ecce Hommo, a cargo de uma velhota espanhola maluca – só que não!
Daí que nos meus sonhos eu adoraria viver num mundo em que o nome seria exclusivo de uma só pessoa, para toda a eternidade e com proibição de repetição, como ocorre com as estrelas. Não sendo possível, contudo, pelo menos cabe tentar manter os nossos bem guardados e protegidos e, quem sabe, antes de virarmos estrela talvez terminemos por aqui sendo únicos, senão ao mundo inteiro, ao menos para alguém.

Fernando Perazzoli é professor e Advogado, tendo atuado por mais de dez anos no ensino superior em União da Vitória e Porto União. Além disso, lecionou na Universidade Federal de Santa Catarina, na Universidade de Coimbra (PT) e na Universidade de Mumbai (Índia). Foi consultor da Fundação Oswaldo Cruz (RJ e DF). Exerceu os o cargo de Diretor Municipal no Poder Executivo de União da Vitória, de Coordenador Jurídico na Secretaria de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, em Brasília e de de Assistente para Probidade Adminsitrativa e Curatela do Patrimônio Público junto Ministério Público do Estado de Goiás. Atualmente é Professor de Direito Constitucional da UNIEURO (Brasília) e Consultor da UNESCO/Brasil. Contato: perazzoli@gmail.com/@fernandodavidperazzoli.


