“O Juiz já pensou: pai de quantas crianças que estão por aí o senhor é?”

“O que o senhor faz não é para qualquer umSempre garante que todas as crianças merecem respeito e tem o direito de brincar…”

O questionamento do título da crônica me foi feito certa vez pelo Pastor David Chaxim, da Igreja Adventista, nosso parceiro de projetos de cidadania. Não consegui responder de imediato, tantas foram as reflexões que a pergunta me causou.

"O Juiz já pensou: pai de quantas crianças que estão por aí o senhor é?"

Na semana do Dia das Crianças buscamos sempre programar alguma atividade diferente para os abrigos atendidos por nosso trabalho. A criança abrigada, retirada de um lar violento ou negligente, em regra não consegue saber se acontecerá o retorno para a família de origem, ou se aguardará a vinda da família que irá lhe receber por meio da adoção. Por melhor que seja a equipe técnica que a acompanha e o trabalho da Justiça, muitas vezes nem mesmo quem está conduzindo o caso consegue definir com clareza como serão os próximos passos. Nesse meio tempo é preciso lhe dar a mínima dignidade para proteção de seus direitos, inclusive o de brincar.

Alguns anos atrás, o inverno rigoroso que passou por União da Vitória trouxe baixas temperaturas como há muito não se via. Era mês de agosto, e a escola estadual me chamou para fazer uma abordagem com alunos sobre violências em uma das oficinas em jornada promovida pelo curso de formação de docentes (professores).

4º graus pela manhã e a sala da oficina em que faria minha fala estava lotada. Reparei na aluna adolescente que estava na fileira do canto, exatamente no meio da classe. Por vezes olhar fixo para mim, com total atenção em cada palavra que eu pronunciava. Em outros momentos, baixava a cabeça e se mostrava distraída, como se o pensamento seguisse bem longe daquela sala de aula.

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Falei por quase uma hora, e respondi perguntas ao final. Quando terminei, alguns alunos me procuraram para fazer algum questionamento mais individual. No final da fila, a aluna adolescente, que eu havia reparado mais cedo. Ao chegar em minha mesa perguntou: “O senhor não lembra de mim?”. Não a reconheci, não sabia quem era, e antes que pudesse responder emendou: “não precisa dizer. Eu escrevi um bilhete. Não abre agora. Se puder ler depois, eu agradeço”, avisou deixando um papel de caderno dobrado, e saindo apressadamente logo a seguir.

“Dr Carlos” estava escrito no lado de fora do papel, e ao abrir o bilhete a mensagem: “O senhor é o juiz da minha adoção. É quem conseguiu encontrar uma família para mim e para meus dois irmãos. Muito obrigado”. Assinado “Mariel”, que escreveu logo abaixo seu número de whatsapp.

Quando terminei de ler, tomado pela emoção, corri até a porta da sala, corredor lotado de alunos, mas Mariel já não mais ali estava.

Ao chegar no fórum mandei mensagem agradecendo-a por ter me procurado, falei de meu sentimento de surpresa e gratidão. Ela prontamente respondeu: “Eu sou a Mariel, da família Ruaro, de Rio Vermelho (comunidade rural de União da Vitória), lembra de mim agora né?”

A adoção de Mariel e dos irmãos foi a primeira de um grupo de irmãos que promovi pelo fórum, muito mais difícil de acontecer, até porque, especialmente, os meninos já estavam grandes, e não são muitas as famílias que procuram e aceitam receber crianças maiores. Foi uma das adoções mais tocantes que fizemos. O casal morador da zona rural, brancos, adotaram 3 crianças negras, e nem precisaria dizer que para além dos preconceitos que ainda existem para a adoção de crianças maiores, grupos de irmãos, ainda lutaram bravamente ao longo de seu crescimento, protegendo-os de toda forma de racismo que nossa sociedade tristemente até o tempo presente vivencia.

Naquela mesma noite, voltava eu no colégio estadual para a palestra de encerramento da jornada. Na plateia, por convite meu, os pais de Mariel compareceram de surpresa para ela, completando ali meu reencontro, tantos anos depois da união da família que promovemos pelo fórum.

A segunda parte de minha história com Mariel continuou com um convite que a fiz, para passar um tempo junto de nossa equipe, conhecendo um pouco do trabalho da promoção de direitos das crianças que passam por situações de vulnerabilidade. Mariel, que prontamente aceitou, esteve conosco por longos meses, trabalhando com os processos judiciais de crianças com histórias de vida muito similares a sua. Dedicada, curiosa, questionadora, agora a estagiária Mariel fazia parte oficialmente de nossa equipe, trazendo ainda mais orgulho ao magistrado que vos escreve.

Certa vez me procurou para dizer que escrevia poesias: “São relatos que me vem à mente, algumas histórias são tristes, que preciso colocar no papel. Eu gosto de escrever, me faz bem” confidenciou. E me disse também que estava escrevendo uma para mim, e que logo iria me entregar: “Essa é uma poesia alegre”.

Passados alguns meses chamei Mariel em minha sala, era dia de seu aniversário. Havia comprado um presente para lhe entregar, e ao entrar na sala Mariel logo disse: “trouxe a poesia que escrevi para o Doutor”. Ela a aniversariante, eu ganhei o maior presente.

Abaixo a “carta de apresentação”, e a poesia de Mariel.

“Doutor Carlos Venho por meio deste lhe informar que a minha vida inteira colecionei pessoas em que eu pudesse me espelhar, pessoas que eu admirava e que admiro, e acabei por achar o senhor, que sempre fez parte de minha história e sempre vai fazer.

O senhor já fez muito por mim e eu nunca vou me cansar de agradecer, pelo que o senhor fez e ainda faz, OBRIGADA…

Agradeço em meu nome e em nome de todas as crianças que o senhor ajudou e provou que o mundo pode ser tão colorido quanto nossos brinquedos, e que existem pessoas que sempre estarão lá por nós”.


“Coração de Criança”

Doutor me

deixa eu ter um

pouco do senhor

 

O que o senhor

fez não é para

qualquer um

e eu só sou

mais uma que

o admira

 

Considero-te

como um pai

por fazer o que

o senhor faz e

muito mais

 

Sapato social,

terno jeito formal

e sorriso no rosto

 

Mesmo com asas

escondidas, crianças

se sentem protegidas

 

Não deixa ninguém

desamparado pois

sempre está ali do lado

 

O dia todo com

a cabeça cheia…

mas tudo se recompensa,

com o sorriso das crianças

 

Não descansa para

proteger

jovens e crianças

 

Sempre garante

que todas as

crianças merecem

respeito e tem o

direito de brincar

 

Crianças nos ensinam

brincando, nos encantando

com seu jeito doce de ver

o mundo”

Mariel C. Ruaro

Carlos Mattioli é juiz da criança, adolescente, família e cidadania em União da Vitória (PR)

 

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