CRÔNICA: Expurgos Inflacionários
Tempos atrás noticiei que um dos meus objetivos era estudar a língua grega. Dedicar-se a ela gera um efeito rebote. Trata-se daquele momento em que alguém quer dizer que não entende o que lhe foi explicado e fala que, para ele, aquilo parece grego. Mas não amigo, não parece e não o é. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é a língua grega. E aí você, que ousa flertar com a língua de Afrodite, fica até um pouco pedante, diferenciando-se nas silabadas e soltando tiradas, digamos assim, espartanas.
Tudo ia bem no estudo da língua grega, com moussakas e souvlakis a alimentar tanto o corpo físico quanto o espírito filosófico. Tudo ia bem, até que eu fui parar numa aula de Direito Empresarial.
Não achem que falo sem ter um lugar de fala para tal, e antes que os herdeiros acadêmicos de Visconde de Cairú me joguem cheques prescritos na cabeça, recordo-lhes que iniciei a vida acadêmica duplamente pelo Direito Empresarial. Primeiramente, na faculdade de Direito, onde tomei a primeira bomba numa prova, adivinha só, em Direito Empresarial. Depois, na vida profissional, eis que a cadeira inaugural que lecionei quando me vi professor era, sim, dele mesmo, Direito Empresarial.
Não posso negar, assim, que transitei por tal campo semântico. Só que o tempo e a distância cobram os seus preços e, não raro, são eles o esquecimento e a ignorância. Comigo não foi diferente, porque cinco minutos naquela aula bastaram para que, entalado entre títulos de crédito, soltasse ao amigo ao lado um clássico e sonoro “misericórdia, isso já parece grego”. Pois é, a águia de Zeus bicara o meu fígado.
De fato, receber de golpe palavras e conceitos como Letra de Câmbio, Duplicata, Triplicata, Sacado, Sacador, Endosso, Aval, Verso, Anverso, Warrant e, calma, tem mais, Vorticidade Societária, Cisão Incabível ou Incompatível (que parecem termos médicos, diga-se), Cláusula de Hardship, Affectio Societatis, além daquelas que parecem retiradas da Família Addams, Dead Hand Provision (Disposição da Mão Morta) e Grave Dancing (Dança do Túmulo), acabam com qualquer um.
A lista de nomes e expressões peculiares do Direito Empresarial é infindável, mas, naquele mesmo dia, o mais interessante estava ainda por vir. Do nada, entre tantos e tantos termos que pareciam grego para quem não era íntimo da matéria, sigamos no argumento, o renomado professor soltou que era importante entender a inclusão de expurgos inflacionários na correção monetária de depósitos bancários. Foi aí, exatamente aí, que joguei a toalha.
Expurgo inflacionário é conceito demais para uma vida simples e rés do chão. Não se pode viver assim e, diga-se, como fazer, daqui por diante, para operar um mísero depósito bancário, um malgrado Pix na padaria? Como saber se eventual correção monetária de qualquer coisa terá ou não que sofrer de expurgo inflacionário? Antevejo a conversa na barbearia, Fulano morreu? Morreu. De quê? De expurgo inflacionário. Aff, era tão novo. Era sim, mas o expurgo inflacionário não perdoa ninguém. Que Zeus o tenha.
Pois é… se outrora as ortografias e gramáticas helênicas permitiam tocar um pouco nos sintagmas próprios das quermesses olímpicas, o Direito Empresarial mostrou o Tártaro da minha prosa. Talvez seja o jeito moderno que os deuses gregos encontraram para remeter o mortal de plantão ao seu lugar de origem, na mesma sina de Prometeu, Níobe, Sísifo… afinal, para isso já não há mais necessidade de Erínias e de Moiras, basta apenas a Disposição da Mão Morta, a Dança do Túmulo e, sem dúvida, um expurgo inflacionário qualquer.
@fernandodavidperazzoli



