“Informação Contestada” resgata histórias da Guerra do Contestado
Quem contou a nossa história? Quantas versões foram repetidas até se tornarem verdade? Essas perguntas conduzem “Informação Contestada”, documentário produzido pelo Jornal O Comércio em parceria com a Moca Audiovisual, que estreou na noite de sexta-feira, 28 de agosto, em uma sessão especial para convidados no Cine Gracher, em Porto União.
A produção revisita a Guerra do Contestado e estabelece uma relação entre os acontecimentos do início do século XX e os desafios enfrentados atualmente diante da circulação de informações, da construção de narrativas e da disseminação de conteúdos falsos.
Mais do que apresentar uma reconstrução histórica do conflito, o documentário propõe uma reflexão sobre a forma como os fatos são registrados e transmitidos ao longo do tempo. A partir de diferentes perspectivas, a obra recupera aspectos da realidade vivida pela população sertaneja e relaciona esse contexto à maneira como a informação influencia a percepção da sociedade.
O historiador Joaquim Osório Ribas, da Academia de Letras do Vale do Iguaçu (ALVI), acompanhou a exibição e destacou a abordagem de aspectos ainda pouco conhecidos sobre o conflito e sobre a população que vivia na região. “Gostei do documentário sobre a história do Contestado, abordando alguns aspectos interessantes e pouco divulgados. Esse episódio doloroso foi vivido pela gente humilde que habitava terras ricas em recursos naturais, principalmente floresta de araucária e erva-mate, além de pastagens de campos nativos onde se desenvolvia a criação de gado.”
A observação de Ribas ajuda a dimensionar a realidade social apresentada no documentário. A população sertaneja vivia em uma região com pouca presença de serviços de saúde, segurança, educação e transporte, mantendo relações de parentesco, compadrio e vizinhança. A terra representava não apenas patrimônio, mas a principal condição para a sobrevivência das famílias.
A Guerra do Contestado ocorreu entre 1912 e 1916 e envolveu disputas territoriais, interesses econômicos e conflitos entre a população sertaneja e forças ligadas aos governos estadual e federal. A região posteriormente foi dividida entre Paraná e Santa Catarina, deixando marcas profundas na história dos dois Estados.
É esse passado que “Informação Contestada” recupera para construir a ponte com o presente. O documentário mostra como diferentes versões podem ser construídas a partir de um mesmo acontecimento e propõe ao espectador uma reflexão sobre o impacto da informação na formação da memória coletiva.
História e informação
A escolha do Contestado como ponto de partida também permite discutir um fenômeno contemporâneo: a velocidade com que informações circulam e a dificuldade cada vez maior de distinguir fatos, versões e conteúdos falsos.
A produção estabelece um paralelo entre as informações que circulavam durante o conflito e o cenário atual das fake news. A comparação procura provocar uma reflexão sobre o poder que a informação exerce na sociedade e sobre a responsabilidade de quem produz, transmite e recebe conteúdos.
Para o secretário de Cultura de União da Vitória, Israel Checozzi, que representou o prefeito Ary Carneiro Júnior durante a sessão, a produção deixa uma contribuição importante para a memória regional. “É um legado inestimável para a cultura do município de União da Vitória. O comparativo feito entre a Guerra do Contestado e a difusão de notícias na atualidade nos faz refletir muito.”
A participação de pesquisadores e profissionais de diferentes áreas contribui para a construção da narrativa do filme, que combina pesquisa histórica, entrevistas e recursos audiovisuais para apresentar o tema ao público.
O historiador e professor do Instituto Federal do Paraná (IFPR), Vitor Marcos Gregório, participou da produção e ressaltou a importância de utilizar a história regional como ponto de partida para discussões que alcançam também o cenário nacional.
Após a exibição, Gregório avaliou o resultado e apontou que a estreia representa o início de um projeto mais amplo. “Saio daqui com sentimento de missão cumprida. Este é o primeiro passo de um projeto muito maior.”
Uma produção para provocar reflexão
“Informação Contestada” foi concebido para aproximar história e comunicação. Ao recuperar acontecimentos relacionados à Guerra do Contestado e confrontar diferentes formas de construção das narrativas, o documentário procura estimular o público a questionar aquilo que recebe como informação.
A sessão no Cine Gracher marcou a estreia da produção diante de convidados e representa uma nova iniciativa do Jornal O Comércio na produção de conteúdo voltado à valorização da história e da identidade regional.
Nesta sexta-feira, 04, o documentário estará disponível no canal do Jornal O Comércio no YouTube (www.youtube.com/@jornalocomercio). Com isso, a produção poderá alcançar um público mais amplo e ampliar a discussão proposta pelo filme. Imperdível!




