A influência da previsão de El Niño no mercado imobiliário do Vale do Iguaçu

A sombra de um novo evento climático extremo volta a pairar sobre o Vale do Iguaçu e, antes mesmo de as primeiras gotas caírem, as águas já agitam a economia local. Com as previsões de intensificação do fenômeno El Niño para os próximos meses, o mercado imobiliário das cidades irmãs de União da Vitória (PR) e Porto União (SC) sente reflexos diretos. O receio de novas cheias do Rio Iguaçu, ainda recente na memória da população após a enchente de 2023, tem movimentado precocemente a busca por imóveis em áreas livres de alagamento, alterando a dinâmica de preços e a disponibilidade de opções para compra e locação.

Neste cenário de incertezas, corretores e especialistas do setor observam uma mudança no comportamento das famílias. A ansiedade por segurança tem gerado uma movimentação que, se não administrada tecnicamente, pode levar a decisões financeiras precipitadas, endividamentos severos e a um superaquecimento artificial e irreal dos valores cobrados por propriedades em áreas fora da zona de risco.

Para compreender a atual conjuntura e projetar o futuro habitacional na região, o Jornal O Comércio ouviu os corretores de imóveis Arion Marcelo dos Santos e Paulo Perdun, ambos representantes dos Conselhos Regionais de Corretores de Imóveis (CRECI) do Paraná e de Santa Catarina. Com vasta experiência na área, os profissionais detalham como a especulação imobiliária, a escassez de terrenos viáveis e a adoção obrigatória do conceito de “segurança climática” estão redefinindo as regras das negociações de imóveis.

A influência da previsão de El Niño no mercado imobiliário do Vale do Iguaçu

Imagem ilustrativa. Foto: Imagem de rawpixel.com no Magnific

Mercado segue aquecido na região

O Vale do Iguaçu possui características econômicas e topográficas atípicas, que o colocam como uma exceção à regra nacional. Enquanto a dinâmica imobiliária do Brasil, bem como de grande parte do Paraná e de Santa Catarina, é tradicionalmente balizada pela flutuação da Taxa Selic, ciclos de crédito e políticas nacionais de financiamento habitacional, a vitalidade imobiliária local pulsa no compasso do setor primário. Segundo Paulo Perdun, a saúde financeira da região depende intrinsecamente da agricultura e da indústria madeireira. “Quando as safras são produtivas e o mercado madeireiro consegue exportar, o dinheiro circula, gerando um aquecimento imediato na construção civil e na aquisição de terrenos. Entretanto, o crescimento urbano esbarra em limitações severas. A topografia local é marcada por morros, rochas e uma rígida demarcação de áreas de preservação ambiental, dificultando a aprovação e implantação de novos loteamentos que atendam à classe média e baixa”, destaca.

Arion Marcelo dos Santos ilustra essa dificuldade comparando a região com o interior de São Paulo, onde vastas planícies permitem uma rápida expansão urbana mecanizada. “Se você pegar o mapa, no mínimo 40% é área de risco ou área de proteção ambiental”, detalha Arion. Casas na faixa dos 250 mil reais são as mais procuradas pelo perfil de compradores locais, mas a oferta é estrangulada pelo alto custo de terrenos planos. Essa limitação de espaço restringe o avanço da fronteira urbana e faz com que, pela lei da oferta e procura, os imóveis já estabelecidos em áreas livres de risco possuam um preço extremamente valorizado, superando, por vezes, propriedades equivalentes na capital Curitiba.

O mercado lida ainda com uma característica cultural forte: o bairrismo. Moradores criados em bairros como o São Bernardo, muitas vezes, resistem a se mudar para o São Cristóvão, mesmo que lhes seja ofertado um imóvel superior, preferindo manter a proximidade de rotinas e serviços, o que torna a realocação preventiva um desafio ainda maior. No Vale do Iguaçu, a simples menção ao El Niño em noticiários muda o humor do mercado. “A gente sente que a população anda amedrontada. Não precisa dar enchente, chove no outro dia e a gente já nota um movimento atípico de pessoas procurando imóveis fora da área de risco”, relata Arion.

Esse pânico instaurado gera o que Perdun define como uma perigosa especulação momentânea. Durante a pandemia de Covid-19, e novamente após a enchente de 2023, proprietários inflacionaram repentinamente o valor de aluguéis e de vendas de 10% a 50%, tentando capitalizar sobre o desespero de quem buscava fugir das águas. Muitos desses valores acabaram regredindo após a crise, evidenciando que não se tratava de uma valorização real de mercado. “Muitos querem se aproveitar do momento e querer ganhar um valor acima do que o verdadeiro mercado real paga”, alerta o corretor.

O desespero empurra as famílias para armadilhas contratuais. Na urgência de garantir as chaves, inquilinos assumem dois aluguéis simultâneos ou assinam compromissos sem a leitura adequada, endividando-se rapidamente. A exigência legal de multas rescisórias ou de contratos mínimos de um ano choca-se com a necessidade provisória dos afetados, criando impasses que sobrecarregam o setor.

Risco climático entra na conta

Com o aprofundamento da crise ambiental, um novo e determinante critério entrou no vocabulário dos avaliadores imobiliários: a segurança climática. O CRECI de Santa Catarina tem orientado de forma enfática que a avaliação técnica considere não apenas se as águas do rio atingem a propriedade em questão, mas toda a infraestrutura adjacente. Um imóvel, mesmo seco, perde valor se a sua rua de acesso alaga deixando os moradores isolados, ou se a rede de drenagem e esgoto sofre refluxo durante as fortes chuvas regionais.

Neste aspecto, a precificação torna-se um campo minado. Corretores apontam para a distorção causada pela confusão entre “valor de oferta” e “valor real de mercado”. Movidos pelo “achismo” ou por avaliações superficiais feitas para agradar o cliente, proprietários estipulam quantias milionárias para suas propriedades, baseados apenas em rumores da vizinhança. “Duas coisas básicas para você avaliar um imóvel hoje é ter atenção à posição, se tem segurança climática, e se é um valor de oferta ou um valor que o mercado realmente está pagando”, resume Perdun, destacando que essa discrepância trava negócios que poderiam movimentar positivamente as cidades.

Embora faltem dados macroeconômicos e oficiais estaduais e nacionais sobre o contingente exato de financiamentos na região no atual trimestre fiscal, sabe-se que a compra de um imóvel representa o ápice financeiro de uma família de médio e baixo poder aquisitivo no Vale do Iguaçu. Dessa forma, um evento extremo como o El Niño não afeta apenas a habitação, mas toda a teia de investimentos das cidades.

Se um acúmulo prolongado de chuvas dificultar o plantio ou a colheita na agricultura regional, a injeção de capital na indústria da construção cessa, afetando vendedores, construtoras e novos lançamentos em cadeia. Por outro lado, o fator humano local ainda serve de amortecedor. Diferente dos impessoais centros urbanos, o Vale do Iguaçu apresenta uma rede de solidariedade. Proprietários costumam ser parceiros de inquilinos em apuros.

Em casos onde as águas danificam o interior das casas locadas — cujos reparos de limpeza caberiam teoricamente aos locatários —, é comum a negociação para dividir os custos de tintas, reparos elétricos ou até mesmo a suspensão momentânea de cobranças de juros para proteger a saúde financeira de ambas as partes.

Perspectivas para os próximos meses

O nível de impacto deste ciclo do El Niño ganhará maior clareza com a aproximação dos meses de primavera e verão. Até lá, a orientação principal é manter a calma e confiar na formalidade. Quem precisar se mudar para fugir de zonas de risco deve, invariavelmente, buscar amparo jurídico por meio de imobiliárias idôneas. Evitar negociações amadoras por aplicativos de mensagens e realizar vistorias detalhadas — tanto na entrada quanto na saída — previne o que os corretores apelidam de “divórcio litigioso”, momento onde antigas urgências se transformam em disputas judiciais pelo desgaste estrutural da propriedade.

Acima de tudo, os profissionais reforçam que preservar a saúde psicológica e evitar o pânico são atitudes essenciais. Ações conscientes garantem que o comércio, a indústria e a própria rotina do cidadão continuem operando, impedindo que previsões meteorológicas se transformem, por antecipação, em catástrofes econômicas incontornáveis.