Próximo de entrar em vigor, Tarifaço dos EUA já é sentido no Vale do Iguaçu

No início de julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que, a partir de 1º de agosto deste ano, todos os produtos importados do Brasil serão tarifados em 50%. A nova alíquota foi informada por Trump ao governo brasileiro por meio de carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No documento, o presidente americano fez menção ao ex-presidente Jair Bolsonaro, alegando que “a forma como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Este julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve acabar imediatamente!”. O trecho faz referência a inquéritos enfrentados por Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Devido em parte aos ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos (conforme recentemente ilustrado pela Suprema Corte brasileira, que emitiu centenas de ordens de censura secretas e ilegais às plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com milhões de dólares em multas e despejo do mercado de mídia social brasileiro), a partir de 1º de agosto de 2025, cobraremos do Brasil uma tarifa de 50% sobre todo e qualquer Produtos brasileiros enviados para os Estados Unidos, desvinculados de todas as Tarifas Setoriais. As mercadorias transbordadas para fugir desta Tarifa de 50% estarão sujeitas a essa Tarifa mais elevada”, continuou.

Trump também alegou que a relação comercial entre os dois países seria deficitária para os EUA, apesar de a balança comercial mostrar um superávit para os norte-americanos há, pelo menos, cinco anos. “Além disso, tivemos anos para discutir nossa relação comercial com o Brasil e concluímos que devemos nos afastar da relação comercial de longa data e muito injusta gerada pelas políticas tarifárias e não-tarifárias e pelas barreiras comerciais do Brasil. Nosso relacionamento tem estado, infelizmente, longe de ser recíproco”, escreveu.

O presidente dos EUA disse, ainda, que caso o governo brasileiro opte por aumentar as tarifas para os produtos norte-americanos, o valor aplicado pelo Brasil será acrescido aos 50% impostos pelos Estados Unidos. Além disso, Trump determinou a abertura de uma investigação da Seção 301, instrumento utilizado pelos norte-americanos para analisar se outros países estão utilizando de artefatos que prejudicam a economia dos EUA.

Entre os itens que serão investigados pela Seção 301 estão o uso do PIX, proteção à propriedade intelectual, tarifas sobre o Etanol e o desmatamento ilegal. Caso as investigações realizadas pelo governo dos EUA apontem algo que, no entendimento norte-americano, seja uma prática desleal por parte do Brasil, novas medidas poderão ser tomadas, somando-se aos 50% de tarifa.

“Se você deseja abrir seus mercados comerciais até então fechados para os Estados Unidos e eliminar suas políticas e barreiras comerciais tarifárias e não-tarifárias, talvez consideraremos um ajuste nesta carta. Estas Tarifas podem ser modificadas, para cima ou para baixo, dependendo da nossa relação com o seu País. Você nunca ficará desapontado com os Estados Unidos da América”, finalizou Trump.


Efeitos

O governo brasileiro, por parte do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Ministério das Relações Exteriores, enviou carta ao governo norte-americano na intenção de negociar. Entretanto, o documento foi ignorado até este momento. Concomitantemente, o governo trabalha em um plano de contingência caso o chamado tarifaço realmente seja aplicado dia 1º.

Entre as propostas, segundo a CNN, está um programa de apoio aos empresários afetados, e medidas de retaliação, como a suspensão de direito de propriedade intelectual.

Porém, mesmo com a tarifa ainda em discussão, seus efeitos já são sentidos pelos empresários brasileiros, inclusive no Vale do Iguaçu. Uma empresa que registrou contratempos foi a Breyer Produtos das Abelhas, que viu um container voltar para o Brasil devido a suspensão de contrato por parte do cliente.

Atualmente, segundo o diretor administrativo da empresa, Daniel Breyer, cerca de 80% de sua produção é exportada. Desse montante, em torno de 60% vai para os EUA. Por esse motivo, o empresário vê o tarifaço com preocupação, visto que, para ele, não há como substituir facilmente o potencial de consumo do norte-americano. “Você não consegue pegar toda uma produção que você tem bem alocada no mercado e tentar redistribuir em outros lugares no mundo. O mundo não tem condição de absorver o que o público americano consome hoje”.

A cadeia produtiva da Breyer, além de empregar mais de 500 apicultores trabalhando nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, envolve uma logística com custos em todas as etapas para garantir uma produção dentro das regras de segurança alimentar e normas de produção orgânica. Isso faz com que, caso a taxação de 50% seja aplicada, os produtos exportados para os EUA pela Breyer, apesar da alta qualidade, se tornem menos competitivos frente a produtos de menor preço. “Causa uma insegurança para o setor todo. Até venho comentando com amigos e empresários que eu vou deixar para me estressar realmente quando chegar o dia primeiro de agosto, porque é tanta coisa que ainda pode acontecer nesse meio tempo. Mas, obviamente, já vai dando repercussões”, comenta Daniel.

Para o empresário, os efeitos do tarifaço serão prejudiciais para o Brasil, mas também trarão efeitos para os consumidores norte-americanos. “Se isso se efetivar vai ser bem grave. Vai ser problemático tanto para o Brasil, por conta de toda a cadeia produtiva. Os que mais vão sentir, obviamente, são os produtores. Mas o público americano também vai sentir, porque o consumidor que está habituado com os produtos, não vai consumir com um repasse de 50% nos seus preços, então, logicamente, vai ter uma uma repercussão pesada”.


Empresários de SC se manifestam

Na segunda-feira, 21, um grupo formado por 181 entidades empresariais de Santa Catarina emitiu nota criticando o cenário econômico atual do país. Entre os signatários então as Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs) de Bela Vista do Toldo, Canoinhas, Itaiópolis, Mafra e Rio Negro, Monte Castelo e Papanduva. Confira a carta:

“Em vista dos recentes acontecimentos que vêm tornando a vida dos cidadãos brasileiros um verdadeiro inferno, as entidades que subscrevem esta nota, representantes dos setores produtivos que lutam diariamente para promover o desenvolvimento social e econômico dos Municípios em que estão sediadas, não podem se furtar de deixar clara a consternação com as decisões tomadas por aqueles eleitos para conduzir os rumos da Nação.

Está ficando cada vez mais evidente que o Brasil caminha a passos largos rumo à venezuelização da população. A sociedade civil, acuada, não consegue dar conta dos desafios impostos por aqueles que nos governam, ao passo que parte substancial de nossos “representantes do povo” age ativamente para a preservação de seus próprios interesses.
Enquanto isso, a máquina pública incha ao ponto do insustentável. Para fazer frente à despesa que não para de subir, nossos mandatários recorrem à eterna solução fácil de elevar a carga tributária que já é, para surpresa de zero pessoas, a maior do mundo.

Desconectados do mundo real, esses iluminados mal conseguem andar com a cabeça erguida nas ruas, sob pena de sofrer a imediata reprovação daqueles que os sustentam.

O fato é um e um só: não aguentamos mais!

É absolutamente inaceitável que em um cenário econômico já tão adverso o Poder Público opte por onerar ainda mais os cidadãos e as empresas, sem se dar ao trabalho de realizar a tarefa elementar de promover uma urgente reforma estrutural que elimine desperdícios, combata a ineficiência e a corrupção, priorize a gestão responsável dos recursos públicos e recoloque o País no rumo da “Ordem e Progresso” estampada na nossa bandeira.

Estamos calados demais e sofrendo demais. O Brasil está na contramão de avanços civilizatórios duramente conquistados e essa conta – sempre amarga – é suportada por todos nós. Dizer “basta” não adianta. Precisamos reagir e logo, se ainda quisermos ter um País para chamar de nosso”.

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