“Em Gaza não há uma guerra entre dois países. Há uma guerra de extermínio”

Em União da Vitória para a realização da conferência intitulada Genocídio na Palestina, ataque ao Irã e as consequências ao Brasil, na Universidade Estadual do Paraná (Unespar), o presiderente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, aproveitou a oprotunidade para conversar com a reportagem de O Comércio sobre o tema.

Filho de Palestinos, Ualid nasceu em Toledo, no Paraná. Iniciou a trajetória na militância no movimento estudantil secundarista em Toledo e posteriormente no movimento universitário em Maringá. Foi eleito presidente da Fepal no 10º Congresso da entidade, realizado em 2019, em Porto Alegre, e reeleito em 2024 durante o 11º Congresso em São Paulo.

“Em Gaza não há uma guerra entre dois países. Há uma guerra de extermínio”

Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/Redes Sociais

Confira:

Jornal O Comércio (JOC): Ualid, para quem acompanha o tema apenas pelos noticiários ou de forma superficial, como o senhor explica a origem histórica do conflito entre Israel e Palestina?
Ualid: Muitas pessoas dizem, na verdade poucas, mas elas fazem com que muitas estejam convencidas disso, de que na Palestina há uma luta milenar. De 2.000 anos. Desde Cristo. A grande questão é, quando a gente pergunta, cite uma guerra nos últimos 2.000 anos na Palestina, que não seja exatamente apenas essa que é de extermínio do povo palestino. As pessoas não citam. Existe uma guerra na Palestina? Hoje é uma guerra de extermínio? Sim. Qual a outra guerra que existiu? A das Cruzadas. E foram os palestinos invadindo a Europa ou foi a Europa invadindo a Palestina? E desde que os ingleses e franceses derrotaram o Império Otomano com os aliados árabes no esforço árabe contra o Império Otomano, porque o Império Otomano era dominante. A Palestina, ao povo palestino, não é dado o direito à autodeterminação prometido em 1915 pelos ingleses e franceses em troca da participação, inclusive dos palestinos como aliados dos franceses e ingleses contra o Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. O que que fazem os ingleses? Pelo contrário, prometem a Palestina em 1917, na chamada Declaração Balfour, aos euro-judeus, europeus de fé judaica, que sofriam perseguição cristã europeia na Europa e não na Palestina.

Quer dizer, ao invés de parar de discriminar os cidadãos euro-judeus na Europa, prometem a eles um lar nacional na Palestina, por meio da Declaração Balfour, que é outrora, né, naquele momento, 1917, Ministro de Relações Exteriores do Império Britânico. Dali em diante, terminada já a Primeira Guerra Mundial, os otomanos já derrotados e expulsos da região do chamado Oriente Médio e da Palestina também, os ingleses iniciam um projeto com aquilo que nós passamos a conhecer como movimento sionista, inaugurado em 1896, através de uma obra chamada Estado Judeu de Theodor Herzl, e depois em 1897, num congresso, o primeiro congresso chamado sionista na cidade suíça de Basileia, escolhem a Palestina como o endereço desse projeto e que pretendia que a Palestina, que desde 12.000 anos é habitada pelos antigos Cananeus, e que formam o povo palestino em no mínimo 90% até os dias de hoje, deveria se tornar sem palestino e ter apenas judeus. Quais judeus? Os europeus, sequer os palestinos de fé judaica que estavam incorporados nesse projeto.

De 1923, quando os britânicos iniciam o seu projeto colonial para judaizar a Palestina, até 1947-48, término do mandato britânico outorgado pela antiga Liga das Nações, deveria haver maioria judaica. E com o término do mandato, esta maioria judaica poder dizer-se em auto movimento de autodeterminação para a libertação nacional e ter um estado de maioria judaica na Palestina.

O que que aconteceu? Em 1947, já com a Segunda Guerra terminada há dois anos, havia apenas 30% de pessoas de fé ou cultura judaica na Palestina. A esmagadora maioria, chegados fazia poucos anos, da Europa. A ONU resolve discutir a partilha da Palestina. A pedido dos ingleses que não tinham mais condições de dar toda a Palestina para o grupo minoritário judaico. E eles aprovam uma resolução, a 181, partilhando a Palestina para ser de dois estados. Um judaico, 56.55% do território para 30% da população que só tinha 5.87% do território e, apenas 42.9% para os palestinos que eram originários 70% da população e que tinha o 94.3% do território. E 06% a área internacionalizada ser administrado pela ONU em nome da comunidade internacional, basicamente em Jerusalém.

O que aconteceu no dia 17 de dezembro de 47? Esses grupos judaicos já armados na Palestina iniciam um processo de limpeza étnica atacando povoados palestinos. Em 1948, já em 14 de maio, se autoproclama o Estado contra o direito internacional, e ao invés de ficarem com 56% do território, 56.5%, já era muito, ficaram com 78%. Desses 78%, invade 774 localidades, destrói 531, promove 70 massacres, 15.000 mortos, e expulsam ou matam 88% da população palestina do território tomado. Isso chama-se Nakba, uma palavra árabe que significa catástrofe. E de lá para cá nós temos esse problema. 67 toma a Cisjordânia com Jerusalém Oriental e Gaza. E nós temos hoje 7 milhões e meio, provavelmente, esse não é um número ainda preciso, porque a ONU não não o atualizou, mas no mínimo 7 milhões de palestinos expulsos de suas terras como refugiados com os seus descendentes. Dentre eles, muitos morando no Brasil, como refugiados ou imigrados antes de 67, como é o caso da minha família.
E este problema é um problema para os palestinos, que deveriam ter pelo menos um estado, mesmo que minoritário, e Israel e os Estados Unidos não permite que nós tenhamos o nosso estado. Não tenhamos o direito de retorno à nossa terra, não tenhamos o direito à paz e à segurança. Este é o problema que existe na Palestina. Não é outro. Não é uma guerra milenar, não é muçulmanos contra judeus, é uma guerra de libertação nacional, tal qual foi travada do Vietnã, tal qual foi travada da Argélia, tal qual foi travada a do Brasil contra os portugueses ou a dos estadunidenses contra os ingleses ou a dos mexicanos contra os espanhóis ou a de Angola e Moçambique contra Portugal. Não é diferente disso.

JOC: Como você reage quando as pessoas argumentam que Israel age dessa forma em legítima defesa por conta dos ataques do Hamas?
Ualid: Primeiro que o Hamas existe desde 88. E a Palestina está sob extermínio, sob ocupação e sob genocídio e sob apartheid desde pelo menos 1947, 1948. Qual era o Hamas que existia antes? Qual era o Hamas que existia em 1897 quando os sionistas escolhem a Palestina como destino do seu projeto colonial e de uma Palestina sem palestinos? Em 1917, quando os ingleses colocam suas botas entrando por Gaza, após o término da Primeira Guerra Mundial e se instalam em Jerusalém. Qual era o Hamas existente? Em 36 a 39, quando os ingleses esmagam o movimento de libertação da Palestina, movimento anti-colonial, na maior guerra colonial proporcionalmente da história, qual era o Hamas que existia? Em 47 a 51, quando realizam a maior limpeza étnica da história, 88% da população palestina é eliminada, 78% tomada, qual era o Hamas que existia? Em 67, qual era o Hamas que existia? Em 73, qual era o Hamas que existia?

O extermínio dos palestinos dos campos refugiados do Líbano, especialmente Sabra e Chatila, que foi um dos maiores choques ocidentais de cobertura jornalística fotográfica da história, onde é que estava o Hamas nesse período? Quando a ULP foi atacada de 75 a 82 no Líbano e noutros lugares e o Arafat reclamou disso, o Yasser Arafat, presidente da Organização para a Libertação da Palestina. Onde estava o Hamas? Qual era o Hamas? Então, essa é uma falácia. Vamos supor que não houvesse a ocupação da Palestina. Vamos supor que ainda que injusta a recomendação de partilha da resolução 181 da ONU de 29 de novembro de 47, haveria o Hamas? Haveria ULP? Haveria o Arafat? Haveria sequer o Al-Fatah? Claro que não.

A culpa de existir os Vietnamitas no Vietnã foi a ocupação francesa depois o brutal genocídio estadunidense de 2 milhões de vietnamitas. E não o contrário. Na Argélia com 1 milhão e 800 mil mortos pelo colonialismo do império colonial francês, a culpa era da França, não dos argelinos. Quando Quando a África do Sul se rebela contra o Apartheid, a culpa não é dos sul-africanos negros sob Apartheid, é dos brancos que impõem o genocídio e impõem o Apartheid. No Congo, a culpa dos 11 milhões de mortos em 10 anos, é do Império Colonial Belga, não dos congoleses.

Então eu acho muito estranho que para descrever o nazismo, a culpa não seja do gueto de Varsóvia, embora os alemães tenham dito que fosse. Para os palestinos, a culpa é do gueto de Gaza. Isso é impossível de conceber. Vamos admitir que nós pudéssemos acreditar que os nazistas tivessem razão quando acusaram de terrorismo os habitantes do gueto de Varsóvia. E se nós concordássemos com os nazistas, poderíamos concordar com Israel e com os Estados Unidos para Gaza. Vamos supor. Isso justifica 90.000 mortos em Gaza, considerando os 11.200 desaparecidos sob escombros, o equivalente a 9 milhões no Brasil, o equivalente a 30 milhões na Europa da Segunda Guerra Mundial hoje e a 100 milhões de europeus em eventual repetição dos seis anos da Segunda Guerra Mundial a esta escala genocidária de Gaza aplicada a Europa hoje, três vezes quase os 38 milhões de mortos durante o período genocidário hitleriano. Justifica 11.000 crianças palestinas exterminadas por milhão de habitantes em Gaza em dois anos contra 2.813 durante todo o período hitleriano por milhão de habitantes na Europa daquele momento? Justifica? 14.000 mulheres exterminadas, 14.000 ventres, 14.000 mães, a taxa de natalidade de 3.97, 60.000 palestinos jamais nascerão por isso, equivalente a 6 milhões de brasileiros que jamais nascerão. É justo isso? A natalidade em Gaza eram de 29.000 por semestre, caíram para 17.000. 12.000 a menos, 41% de redução. Isso explica? Isso justifica? É disso que Israel está reagindo com este tipo de ferramenta? A longevidade média dos palestinos em Gaza em 2022 era de 75 anos. Agora caíram das mulheres neste intervalo genocidário para 44, a dos homens para 36. Durante o período faraônico das pirâmides no Egito antigo, a idade média do homem se aproximava de 30. É esta a reação de Israel? É essa a civilização dos Estados Unidos, do Biden e do Trump?

Vou dar mais um dado, que talvez as pessoas não acreditem: Gaza inteira tem 365 km quadrados, é perto de 100 km quadrados menor do que Curitiba, a capital do nosso estado do Paraná. Gaza recebeu carga explosiva durante esses dois anos de extermínio, equivalente a seis a oito vezes a capacidade destrutiva da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Nós estamos em União da Vitória. Cabe na nossa cabeça que União da Vitória recebesse esta carga explosiva? União da Vitória é maior que Gaza territorialmente.
A destruição em Gaza é de entre 80% a 90%. Das residências 92%. Nenhuma cidade europeia teve mais que 70% de destruição, salvo o melhor juízo a mais destruída foi Hamburgo. Comparada com carga explosiva convencional, a carga explosiva lançada sobre Gaza é superior a todo bombardeio durante toda a Segunda Guerra Mundial sobre Hamburgo, Dresden e Londres somadas. Durante a guerra Rússia e Ucrânia agora, foram mortas 2.5 crianças por milhão de habitantes dos dois países. Isso dá 4.200 vezes menos do que as 11.000 em Gaza por milhão de habitantes. Essa é a diferença entre uma guerra entre dois países e uma guerra de extermínio. Em Gaza, na Palestina, não há uma guerra entre dois países, entre duas potências, entre dois exércitos. Há uma guerra de extermínio. Esta é a verdade. Isso que é justo considerar.

JOC: O senhor já teve parentes que perderam a vida por conta dessa guerra?
Ualid: Perderam a vida, que foram presos, que foram torturados. Eu tenho um tio que foi preso de 7 a 10 vezes, torturado e sofre problemas de saúde até hoje por causa disso. Um sujeito que nunca pegou em armas inclusive. Dois tios nessa condição. Na verdade mais, mas dois que foram presos incontáveis vezes. Meu pai, que faleceu com 76 anos em 97, durante o período britânico, a grande guerra anti-colonial dos palestinos e a grande guerra colonial dos britânicos com outros palestinos de 36 a 39, quando tinha aproximadamente 15 anos, ele e os irmãos dele foram detidos pelos ingleses porque escondiam armas para a guerrilha palestina. E na verdade encontraram com eles algumas munições apenas e que foram atribuídas ao meu pai como menor que não sabia do que se tratava. Então não é de hoje também. Não é exatamente de hoje. Eu tenho uma série de parentes que foram humilhados nos postos de controle militar. Humilhados não significa apenas ser xingado ou cusparado, o que é absolutamente ultra comum. Agredidos fisicamente. Há um relatório da ONU, agora desse período genocidário, na verdade ele foi replicado agora muito mais gravemente pela própria ONU, que Israel utiliza a política do estupro como uma política de estado e uma política de ocupação. Mas um relatório anterior informou que Israel utilizava nas áreas ocupadas a política da agressão sexual como um instrumento de limpeza étnica. Ou seja, nos postos de controle militar, que são hoje perto de 900 na Cisjordânia, haver insinuações sexistas contra as mulheres palestinas de qualquer idade, apalpá-las, revistá-las invasivamente, visa provocar um constrangimento tal que as faça ter medo de continuar vivendo lá. Nesse relatório da ONU, numa das entrevistas, uma família disse o seguinte: nós estamos casando nossas filhas cada vez mais cedo para elas irem embora daqui, exatamente por medo disso. O segundo medo agora com esse aprisionamento massivo de palestinos e a aplicação massiva dos estupros nas prisões visa também a mesma razão. Isso chega aqui, não é exatamente a tua pergunta, você perguntou dos meus parentes lá.

Nós temos uma tradição de querer que nossos filhos e netos vão à Palestina para tomar contato com os familiares e com a cultura e com a língua e viver lá um tempo. E se quiser casar lá e viver lá, que fique. Agora nós estamos com medo de mantê-los lá e, portanto, os repatriando e com medo de mandá-los para lá. Isso significa que Israel está tentando fazer com que as diásporas tenham medo de contato com a Palestina e que seja um instrumento de vida da Palestina, fora e dentro. Ou seja, é um instrumento de limpeza étnica. Isso é assustador como modelo. Aonde mais será aplicado esse modelo?