“Recebi o chamado de Deus aos 9 anos”, diz padre Antônio Carlos Rodrigues
O Colégio de Consultores da Diocese de União da Vitória elegeu na quinta-feira, 22, o padre Antônio Carlos Rodrigues como administrador diocesano. Ele ocupará o cargo em função do início do período de vacância episcopal após a nomeação de Dom Walter Jorge como Bispo da Diocese da Campanha (MG).
Pároco na paróquia Nossa Senhora do Rosário, na região de Mallet, padre Antônio tem 53 anos, e 25 de ministério sacerdotal. Nesta semana, ele conversou com a reportagem de O Comércio sobre o sacerdócio e as funções que irá exercer como administrador diocesano.
Confira um trecho da entrevista:
Jornal O Comércio (JOC): Padre, nos conte um resumo de sua história de vida e como o senhor entrou no sacerdócio.
Padre Antônio Carlos Rodrigues (PACR): Eu nasci no interior de São João do Triunfo, em Faxinal dos Fabricios. É uma comunidade que hoje faz divisa com Fernandes Pinheiro. Mas na época, era com Teixeira Soares. Eu inclusive fui batizado em Teixeira Soares. E a minha catequese, a minha vivência cristã na infância, foi numa comunidade chamada Avencal, pertencente naquele momento à Paróquia Imaculada Conceição de Teixeira Soares. Naquela comunidade eu cresci, participando com os meus pais e meus irmãos. Por volta dos 9 anos me tornei coroinha, e logo comecei a sentir esse chamado de Deus para o sacerdócio. E o interessante é que eu não falei nada para ninguém, nem sequer para os meus pais.
Eu ajudava a fazer as novenas de Natal, fazer as leituras. A minha tia coordenava esse grupo de novenas, então eu estava sempre ajudando, assim como na igreja também. Dos 12 anos em diante esse chamado foi ficando cada vez mais forte. Eu lembro que eu rezava, só não tinha coragem de contar isso para alguém.
Até que um dia eu estava em casa com a minha mãe, porque meu pai estava em Irati com o meu irmão que estava internado. E nós trabalhando na roça. A gente plantava feijão. E era o que eu estava fazendo quando o padre Pedrinho e o padre Abrão chegaram lá em casa. Lá do carro mesmo o padre diz assim: é aqui que mora um coroinha que quer ser padre?
A história é misteriosa porque eu não tinha falado para ninguém. Então, às 02h da tarde, dia 17 de dezembro de 1985, veio aquela pergunta do padre. Minha mãe ainda atendeu o padre e disse: “Olha, aqui mora um coroinha, mas eu não sei se ele quer ser padre”. Então, eu saí, conversei com o padre e depois eu fiquei pensando “quem que contou para ele”. Mais tarde descobri que foi um senhor que era o coordenador dos grupos de novena.
(…) O padre me disse que as aulas iam começar em 17 de fevereiro, lá no seminário e que da parte deles eu poderia entrar. Ali já fui acertando tudo. (…) Em Irati eu fiz da quinta à oitava série. Depois eu fiz dois anos em Ponta Grossa, no internato São José. No terceiro ano eu voltei para Irati, no colégio São Vicente de Paula. Depois voltei para Ponta Grossa para fazer três anos de filosofia e teologia. E fui ordenado padre no dia 17 de fevereiro de 2001.
JOC: Qual o tamanho do desafio dessa missão de administrar a diocese? Foi uma surpresa ou o senhor já esperava por isso?
PACR: Olha, recebi [a missão] com muito medo. Eu sou muito medroso. Por incrível que pareça eu vivo vencendo os meus medos. (…) Não foi diferente agora. Eu era um dos votantes. Eu já fazia parte do colégio dos consultores, e sabia que um de nós seria o eleito. Agora, jamais esperava que esse eleito seria eu. Eu esperava que fosse um outro padre. E, de repente, os votos vieram para o meu lado. O padre que presidiu a eleição foi o padre Antônio Kolodzinski, então caberia a ele perguntar para aquele que foi o mais votado se aceitaria ou não. E foi a pergunta que ele me fez. Eu disse sim. (…) Eu acredito que eu vou dar conta, porque eu acredito na força de Deus, na graça de Deus. Acredito no apoio e na ajuda também das pessoas, é só assim que a gente vai conseguir. Mas claro, é uma coisa completamente nova.
JOC: O senhor conversou com o Dom Walter Jorge após a sua nomeação? Que legado o senhor acha que ele deixou aqui para a nossa região?
PACR: Logo após a ordenação, o administrador se apresenta à Nunciatura Apostólica. Antes de falar com a Nunciatura, eu falei com Dom Walter e disse a ele que eu fui eleito. Dom Walter foi um grande bispo para nós, como também os outros que passaram por aqui. Cada um vai fazendo o seu melhor. E Dom Valter fez muito pela diocese. Um homem inteligente. Ele transmite paz. Ele sabe conduzir a diocese, os desafios que certamente ele também encontrou. Ele deixa, de fato, um grande legado.
JOC: Quais serão as suas atribuições, o seu trabalho no dia-a-dia da diocese?
PACR: O administrador não é alguém que fica em lugar do bispo, porque o bispo tem o seu lugar que não é substituído por outro. Eu vou descobrindo ainda. Na verdade, eu não saberia dizer para você quais são e todas as atribuições que eu tenho. Mas o administrador ele responde perante a igreja, e perante a sociedade civil também. Então, eu tenho essa missão. E, claro, a gente vai descobrindo dia após dia. O administrador tem algumas atribuições que são próprias do bispo,e outras não. Tem alguns limites. Por exemplo, eu não poderei transferir os padres, a menos que passe de um ano. Após um ano a gente pode transferir padres de paróquias, evidentemente conversando com cada um deles e de acordo com as necessidades da diocese e das paróquias, Então, veja que não são todas as atribuições do bispo que passam para o administrador. Na prática, eu vou conduzir a reunião dos padres, do clero. Preciso estar assim bastante presente nas pastorais. Tem bastante trabalho nesse sentido. Tem encontros na casa de formação. É o pastoreio, na verdade, é isto.



