Idélcio: o herói silencioso que salvou o menino Eliezer após afogamento

Idélcio e a mãe Eva (Foto: Jornal O Comércio)

No fim da tarde daquela segunda-feira, 17 de novembro, o bairro Ouro Verde parecia viver mais um dia comum. Mas bastaram alguns segundos para que tudo mudasse — e para que um homem simples, voltando para casa depois do trabalho, se transformasse no protagonista de um resgate. (Assista a entrevista no final da reportagem).

Era por volta de 18h10 quando Idélcio Baiak, pai, avô e morador do distrito de São Cristóvão, pedalava rumo ao lar. O atraso de poucos minutos na saída do serviço — que ele mesmo chama de “obra de Deus” — o colocou exatamente no local e na hora em que o destino exigiria coragem.

De repente, uma mulher falou com ele, com os olhos arregalados pelo desespero.

— Você sabe nadar? Tem uma criança se afogando!

O mundo ao redor pareceu parar. Idélcio não perguntou nomes, não quis detalhes, não esperou ninguém. Tirou a camisa, respirou fundo e mergulhou.


A corrida contra o tempo

O tanque era profundo, escuro, traiçoeiro. A água cobria até mesmo alguém com a altura de Idélcio — e ele sabia que cada segundo era uma batalha entre a vida e a morte.

Na primeira descida, nada.

Na segunda, a mão tocou algo.

Era Eliezer, 12 anos, já sem reação.

Com uma força que nem ele sabe explicar, puxou o menino, ergueu-o sobre o ombro e, apoiado no cipó e no mato da beira do tanque, conseguiu voltar à superfície.

Quando chegou ao barranco, o silêncio era ensurdecedor. O garoto não respirava.


Entre a vida e a morte: a luta continua na margem

Já fora da água, Idélcio iniciou o que sabia: massagem cardíaca, respiração boca a boca, técnicas que aprendera anos atrás, quando se formou professor de taekwondo.

Foram segundos eternos. Foram minutos que pareciam dias.

Até que, de repente, o improvável aconteceu.

O peito de Eliezer se moveu. A água saiu pela boca. O coração, antes silencioso, voltou a bater.

Quando ele abriu os olhos, mesmo inconsciente, foi a maior alegria da minha vida”, contou Idélcio.

Portal Vvale

Enquanto lutava pelo menino, Idélcio reviveu um fantasma do passado: o dia em que seu próprio filho, ainda adolescente, quase morreu afogado em Porto Vitória durante uma tarde de lazer em família. Ele viu a mesma cena — a mesma mão submergindo, o mesmo desespero — e mergulhou sem pensar.

Hoje, seu filho tem 26 anos. Está vivo. Forte. Saudável.
E talvez tenha sido essa memória que guiou cada gesto do resgate desta segunda-feira.


O retorno para casa que ninguém esquece

Quando os bombeiros chegaram, Idélcio ajudou a colocar o menino na maca, segurou a estrutura enquanto o equipamento era fixado e acompanhou até a ambulância.

Depois disso, montou na bicicleta e foi embora.

Chegando em casa, ainda molhado, emocionado, disse à mãe:

— Salvei uma criança hoje, mãe.

Ela achou que fosse brincadeira. Mas o olhar do filho dizia tudo.


No momento certo, no lugar certo

Idélcio costuma passar pelo local 20 minutos antes. Naquele dia, atrasou-se no trabalho.

Tem a mão de Deus nisso. Era para eu estar ali.

Desde então, o pensamento dele não sai do menino.

Só peço a Deus que ele se recupere. Uma criança tem toda uma vida pela frente.

E finaliza dizendo que “Sempre que eu puder ser útil, eu serei. Sem pensar duas vezes.

Na terça-feira, 18, o Jornal O Comércio conversou com a Cisse, ela foi a primeira a chegar no local e também relatou emocioando o que aconteceu.

“Eu vi eles se afundando… e corri”

A moradora Cice, que reside próximo do local foi a primeira a perceber que algo estava errado.

“Eles estavam dando gargalhada. De repente, ficou um silêncio… quando olhei de novo, os dois estavam afundando”, relatou emocionada.

Sem saber nadar, mas movida por instinto, ela correu até a margem, quebrou um galho de árvore e avançou na água tentando alcançar os meninos.

“Quando ele gritava ‘tia’, já afundava de novo. O maior puxava o outro para baixo. Eu não sei de onde tirei força naquele momento.”

Com enorme esforço, Cice conseguiu retirar o que aparentava ser o menor, ele estava desorientado. Mas o segundo menino já havia desaparecido na profundidade do tanque.

Um ciclista surge no momento exato

Desesperada, ela correu até um homem que passava de bicicleta e implorou ajuda.

“Perguntei: ‘Pelo amor de Deus, você sabe nadar?’ Ele tirou a roupa e pulou.”

Ela viu o afogamento e correu: moradora é a primeira a salvar crianças

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