Mudança no chat do Roblox gera protestos e alerta sobre dependência digital

(Foto: JOC com IA).

A recente alteração nas regras de comunicação do Roblox, implementada globalmente na última quarta-feira (7), provocou uma onda de protestos virtuais dentro da própria plataforma. A partir das novas diretrizes, o uso do chat passou a exigir verificação de idade, permitindo conversas apenas entre usuários de faixas etárias semelhantes. A medida, segundo a empresa, busca reforçar a segurança de crianças e adolescentes, mas acabou gerando forte reação entre os jogadores mais jovens.

Prints da chamada “Revolta do Roblox” rapidamente se espalharam pelas redes sociais. Dentro dos jogos, usuários organizaram manifestações simbólicas, levando cartazes virtuais para “ruas” simuladas, com frases irônicas, personagens históricos e até referências culturais, como a música Cálice, de Chico Buarque.

Protestos virtuais e ataques a influenciadores

A mobilização ganhou tamanha proporção que atingiu também criadores de conteúdo. O influenciador Felca, que viralizou em 2025 ao tratar de segurança infantil na internet, relatou ter recebido mensagens agressivas como “eu vou te matar” e “você não tem direito a proibir nada das crianças”. O nome dele também apareceu em cartazes exibidos durante as manifestações dentro do jogo.

(Foto: reprodução X).

Não é a primeira vez que o Roblox é usado como espaço de protesto. Em episódios anteriores, jogadores chegaram a reproduzir manifestações reais, como atos contra o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), nos Estados Unidos, dentro do ambiente virtual da plataforma.

Foto: Reprodução/X

O que mudou nas regras do Roblox

Com as novas diretrizes, os usuários precisam comprovar a idade por meio de um sistema de verificação facial para acessar o chat. Crianças menores de 9 anos só podem utilizar a ferramenta com autorização dos responsáveis. Já adolescentes acima de 13 anos conseguem conversar apenas com usuários de idade próxima.

Foto: Reprodução/Roblox

De acordo com a empresa, o objetivo é impedir que crianças menores de 16 anos se comuniquem com adultos. A Roblox afirma ainda que as imagens usadas na verificação são apagadas após a análise e que o usuário pode contestar o resultado caso haja erro na identificação.

A medida integra um conjunto de ações voltadas à segurança, que inclui filtros automáticos, regras mais rígidas e vigilância contínua. A plataforma enfrenta pressão internacional para reforçar a proteção de menores e chegou a ser processada no estado da Louisiana, nos Estados Unidos, sob acusação de permitir a atuação de predadores sexuais.

Jogos online e o vínculo emocional das crianças

Para a psicóloga Grasieli Lima, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental da Infância e Adolescência e que atua no Vale do Iguaçu, a reação intensa às mudanças revela o papel central que os jogos online passaram a ocupar na vida emocional de crianças e adolescentes.

“Os ambientes digitais se tornaram espaços de vínculo emocional, identidade e pertencimento. Os jogos não são apenas diversão; oferecem interação social, aceitação e previsibilidade. Para muitas crianças, o jogo é um dos principais lugares de expressão emocional”, explica.

Segundo a profissional, quando uma plataforma impõe limites, isso pode ser vivenciado como uma perda significativa.

“O protesto virtual não mostra apenas insatisfação com a regra, mas também dificuldade em lidar com frustrações e mudanças, habilidades que ainda estão em desenvolvimento nessa fase da vida”, destaca.

Dependência digital e sinais de alerta

A psicóloga chama atenção para o fato de que reações como raiva extrema, ironia constante ou sofrimento intenso diante de restrições podem indicar um uso emocionalmente dependente dos jogos.

“O problema não está apenas no tempo de uso, mas na dependência emocional. Quando o jogo vira a principal forma de lidar com solidão, tédio ou frustração, é um sinal de alerta”, afirma.

Entre os principais sinais observados estão irritabilidade quando o jogo é interrompido, alterações no sono, queda no rendimento escolar, isolamento social fora do ambiente virtual e dificuldade em aceitar regras.

A vivência de uma mãe diante das restrições

Em União da Vitória, a mudança também impactou a rotina de famílias. A mãe Hellen Siqueira relata que o filho de 7 anos, jogador do Roblox, reagiu com indignação à nova regra.

“Ele não gostou, ficou muito bravo por não poder mais conversar com os amigos. Como não entendeu o motivo da mudança, a frustração foi grande”, conta.

Mesmo continuando a jogar, a experiência, segundo ela, perdeu parte do encanto.

“Ele diz que ficou chato, porque não pode mais conversar com os amigos”, relata.

Apesar disso, Hellen considera a decisão da plataforma positiva.

“Acho válida a mudança. Se quiserem conversar com os amigos, que seja presencialmente. Senão, vão querer cada vez mais telas e interação online”, avalia.

O papel dos pais na mediação do uso de jogos

Para Grasieli Lima, o episódio do Roblox expõe a importância do papel dos pais como mediadores do uso da tecnologia.

“Muitas vezes, os adultos evitam conflitos e não impõem limites claros. Quando a regra vem de fora, a criança não está emocionalmente preparada para lidar com a frustração”, explica.

Ela ressalta que impor limites não significa punir.

“Limite é cuidado. Dizer ‘não’ quando necessário ajuda a criança a desenvolver autocontrole e tolerância à frustração”, afirma.

Uma reflexão além das telas

A psicóloga propõe uma reflexão mais ampla sobre o tema.

“O episódio nos faz pensar o quanto nossas crianças estão preparadas para lidar com frustrações fora das telas. Se o jogo é o principal espaço de prazer e pertencimento, qualquer limite será vivido como uma grande perda”, observa.

Segundo ela, ampliar experiências no mundo real — como esportes, atividades ao ar livre e convivência familiar — é fundamental para o desenvolvimento emocional e para um equilíbrio saudável entre o digital e o presencial.

Roblox

Criado em 2006, o Roblox é uma plataforma online de jogos que permite aos próprios usuários criarem experiências virtuais. Ao final de 2025, eram mais de 151 milhões de usuários ativos diários em todo o mundo.

Foto: Divulgação

Diante desse alcance, o debate sobre segurança, limites e presença dos adultos ganha ainda mais relevância no cotidiano das famílias.

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