“Perdi um braço, mas não a vida”: acidente de trabalho em Bituruna alerta

Maurício Ribas. (Foto: reprodução).

Os acidentes de trabalho seguem sendo uma realidade preocupante na região da 6ª Regional de Saúde de União da Vitória, que já vinha registrando crescimento expressivo nos últimos anos e mantém números elevados também em 2025, mesmo antes da divulgação oficial do balanço anual.

Dados históricos mostram que 2023 foi o ano com maior número de notificações, somando 1.480 acidentes de trabalho, o maior volume desde o início da série, em 2006.

A tendência de alta se consolidou a partir de 2019 e se manteve nos anos seguintes, impulsionada pela retomada da atividade econômica e pelo aumento da exposição a riscos ocupacionais.

União da Vitória e Bituruna concentram a maioria dos acidentes

Na análise por município, União da Vitória lidera o ranking histórico, com 2.189 acidentes de trabalho registrados entre 2006 e 2024, seguida de perto por Bituruna, com 2.172 notificações.
Juntas, as duas cidades concentram mais de 53% de todos os acidentes da Regional, evidenciando a relação direta entre volume de empregos, atividade industrial e riscos no ambiente de trabalho.

2025

Mesmo sem o fechamento oficial de 2025, os dados preliminares já acendem um alerta.
União da Vitória contabilizou 512 acidentes de trabalho notificados. Bituruna até o fechamento dessa edição, não havia enviado os número à reportagem.

Os números reforçam que o problema segue atual e exige atenção constante de empresas, trabalhadores e órgãos fiscalizadores.

“Perdi um braço, mas não a vida”

É justamente em Bituruna, um dos municípios com maior número de registros, que um relato real ajuda a dimensionar o impacto humano por trás das estatísticas.

Maurício Ribas, de 25 anos, perdeu o braço em um grave acidente de trabalho ocorrido no dia 16 de janeiro deste ano, em uma madeireira do município. Em depoimento, ele contou com detalhes o que viveu naquele dia.

Segundo Maurício, o acidente aconteceu por volta das 10h20, após uma mudança repentina de função no setor onde trabalhava. A máquina em que ele atuava inicialmente apresentou problemas e, enquanto aguardavam o conserto, os trabalhadores foram direcionados para outra atividade, no descascador de toras.

Poucos minutos depois, ao tentar ajustar uma tora que havia atravessado sobre o rolo da máquina, o jovem foi atingido por um forte impacto.

A luva que usava acabou agravando a situação, puxando seu braço para dentro do equipamento. Em questão de segundos, o braço inteiro foi sugado pela máquina.

Mesmo com o acionamento do botão de emergência por um colega, a máquina demorou alguns segundos para parar. Maurício ficou cerca de 15 a 20 minutos preso, perdendo muito sangue, até que fosse possível desmontar parte do equipamento para retirá-lo.

Ele foi socorrido inicialmente em Bituruna e depois transferido para União da Vitória, enfrentando um trajeto difícil, com múltiplas paradas para conter o sangramento.

No hospital, passou por cirurgia de emergência, precisou receber transfusões e ficou internado na UTI.

Após a alta, complicações o fizeram retornar ao hospital, onde passou por nova cirurgia. Ainda em recuperação, Maurício resume o sentimento após sobreviver ao acidente:

“Perdi um braço, mas não perdi a vida. Como os médicos disseram, eu sou um milagre, nasci de novo. É isso que está me dando força todos os dias.”

Especialista alerta: segurança vai além da entrega de EPIs

A técnica em segurança do trabalho Mirchilene Ferreira Schwartz explica que a legislação brasileira é clara: toda empresa com CNPJ e funcionário registrado é obrigada a ter assessoria em segurança do trabalho, ainda que não possua um profissional fixo internamente.

Ela destaca que a prevenção não se resume à entrega de equipamentos de proteção individual (EPIs), mas passa obrigatoriamente por treinamento, orientação e acompanhamento constante.

“Entregar o EPI é fácil. Difícil é garantir que o trabalhador saiba usar, entenda para que serve e tenha consciência do que está sendo evitado, inclusive doenças que aparecem só no longo prazo”, explica.

Mirchilene também chama atenção para a saúde psicológica, frequentemente negligenciada no ambiente de trabalho. Segundo ela, um trabalhador emocionalmente fragilizado tende a se expor mais a riscos e cometer falhas que podem resultar em acidentes graves.

A especialista reforça ainda que as consequências muitas vezes são permanentes: perda de dedos, braços, pernas e até vidas. “Infelizmente, o óbito também faz parte da realidade da nossa região”, alerta.

Estatísticas que representam vidas

Embora os números ajudem a dimensionar o problema, casos como o de Maurício mostram que cada notificação representa uma história, uma família e uma mudança radical de vida.

Com centenas de acidentes já registrados em 2025 apenas nos dois municípios da região, especialistas reforçam que a prevenção precisa ser tratada como prioridade diária — por empresas, trabalhadores e pelo poder público.

Acidentes acontecem, mas muitos deles podem ser evitados. Seguir normas, usar corretamente os equipamentos, respeitar treinamentos e pensar em quem espera a volta para casa pode ser a diferença entre mais um número na estatística ou a chance de continuar vivo.

Acidentes de trânsito na região (2006–2024)

Levantamento consolidado entre 2006 e 2024 aponta o número total de acidentes registrados em municípios da região. União da Vitória e Bituruna concentram os maiores volumes de ocorrências no período analisado.

  • União da Vitória: 2.189 registros

  • Bituruna: 2.172 registros

  • São Mateus do Sul: 1.189 registros

  • General Carneiro: 772 registros

  • Cruz Machado: 751 registros

  • Antônio Olinto: 335 registros

  • Paulo Frontin: 314 registros

  • Paula Freitas: 265 registros

  • Porto Vitória: 216 registros

Fonte: dados consolidados de registros de acidentes (2006–2024).

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