Por que o Vale do Iguaçu sofre com as enchentes?

Há milhares de anos, um rio que serpenteia em formato de ferradura fez da região sua moradia. Sempre generoso, em momentos específicos o Iguaçu abria um vau em suas águas caudalosas para permitir a passagem de homens que estavam em busca de seu ganha pão.

Mas quando o vau se fechava, os homens permaneciam, esperando o momento certo para completar sua passagem. Enquanto aguardavam, a vida continuava. Em torno do rio começou a surgir uma pequena vila, que mais tarde virou cidade. “União da Vitória é fruto da  junção de caminhos”, explica Vitor Marcos Gregório, professor de história e pesquisador do Instituto Federal do Para(IFPR), campus União da Vitória e diretor do Acervo de Pesquisa e História de União da Vitória.

Por que o Vale do Iguaçu sofre com as enchentes

Foi no final do século 18 que a pecuária começou a ganhar força nos campos de Palmas e Guarapuava. O gado, para crescer saudável, precisava que sua dieta fosse suplementada com sal. A fonte mais próxima para a retirada do elemento era o litoral paranaense. Portanto, para fazer com que o sal chegasse a seu ponto de destino era preciso encontrar um caminho pelo Iguaçu. E o caminho era o vau.

Além disso, esse caminho que se abria no Iguaçu ajudava na comunicação entre os campos de vacaria sitiados no Rio Grande do Sul com São Paulo e Rio de Janeiro, os grandes centros consumidores de carne daquela época.

E então, quando apenas a navegação pelo rio e as andanças pelo país já não eram mais suficientes, veio a ferrovia. Segundo Vitor, União da Vitória se diferencia de outras cidades da região por ter nascido antes do trem passar por aqui. Antes da linha férrea, a cidade era um dos últimos pontos urbanizados até o Rio Grande do Sul, por isso, durante a fase de projeto da ferrovia, a cidade à beira do Iguaçu foi incluída no caminho dos trilhos do trem. “Quando a ferrovia chega, não é por acaso que está do lado do vau. Era ali que a população estava”, comenta o professor.

Naquele momento, as cheias do Iguaçu já eram de amplo conhecimento. Exatamente por esse motivo a Estação União foi construída no ponto mais próximo identificado como a salvo dos alagamentos. Outro fator importante é que, mesmo tendo iniciado próxima ao vau, logo a comunidade percebeu que a cidade não poderia continuar crescendo tão perto do rio.

A população começou a subir o morro. Os prédios mais antigos da cidade foram todos construídos nas porções mais altas de terra. União da Vitória crescia no lugar certo, até que veio a divisão de terras entre o Paraná e Santa Catarina, e o que era União da Vitória passou a ser Porto União. Coube a cidade paranaense reconstruir.

De acordo com Vitor, a praça Coronel Amazonas foi escolhida para ser o ponto zero da nova União da Vitória. Em seu entorno foram construídas a Catedral, a prefeitura, uma cadeia, um grupo escolar e até mesmo um hotel. O problema é que o espaço destinado à reconstrução, volta e meia fica no caminho do Iguaçu. “Ao contrário dos primeiros moradores, que espertamente construíram a cidade no alto do morro, após a divisa, deliberadamente, a cidade de União da Vitória foi construída no espaço que coube ao Paraná: a baixada. Por que isso é uma tragédia? Por que isso condenou a cidade a uma convivência muito mais estreita com os problemas das enchentes. (…) União da Vitória não era para estar onde ela está. Ela foi planejada para ser onde é Porto União. Lá era União da Vitória”, completa.


O fator geológico

Paulo Sérgio Meira Rocha, professor e pesquisador, explica que o rio Iguaçu é único no Paraná. Nasce em Curitiba a partir de uma confluência de vários rios e riachos da Serra do Mar e corta todo o estado até desembocar nas cataratas que, então, passam a fazer parte do rio Paraná. Devido a sua extensão, o rio passa por duas formações geológicas presentes no estado. O encontro das formações fica justamente na região de União da Vitória.

Em Porto Vitória, o Iguaçu encontra uma barreira natural, que impede que o escoamento da água siga o ritmo do restante de sua extensão. Com a vazão mais lenta, a água se acumula e transborda em União da Vitória que, por ser uma planície, não consegue controlar o rio.

Quando o volume de água é maior do que a barreira natural comporta, o nível do rio passa a subir lenta mas constantemente em União da Vitória. Em 1983, o rio demorou 18 dias para passar dos 5m aos 10,42m registrados durante o pico da inundação. Se a elevação do nível foi lenta, o regresso do Iguaçu para seu leito habitual foi mais demorado ainda. Após alcançar sua maior marca, demoraram 12 dias para que o rio regressasse pouco mais de 2m.


O que pode ser feito

Nove anos depois da maior cheia do Vale do Iguaçu, em 1992 as duas cidades voltaram a sofrer com uma enchente. Então, para estudar soluções capazes de mitigar os efeitos das inundações, surgiu a Sociedade de Estudos Contemporâneos – Comissão Regional Permanente de Prevenção contra Enchentes do Rio Iguaçu (SEC-Corpreri).

A instituição encomendou um estudo a ser realizado pela Agência Internacional de Cooperação Japonesa (Jica) que, em 1995, apontou 25 possíveis soluções para a diminuição dos impactos causados pelas cheias. O estudo, contudo, deixava claro que “nenhuma das alternativas analisadas poderiam ser implantadas de imediato”, necessitando de estudos mais aprofundados, incluindo os relacionados ao impacto ambiental. Também deixava claro que nenhuma medida seria capaz de impedir que o rio aumentasse seu leito de tempos em tempos.

Além disso, o estudo realizado pela Jica apontava que a implantação das soluções analisadas “envolveria recursos monetários muito além da real disponibilidade da União, dos estados e dos municípios. Ainda mais diante da atual situação econômica do país, e diante de tantas outras necessidades prioritárias em outros problemas sociais”. A construção de diques para a proteção das cidades, por exemplo, custaria cerca de 89 milhões de dólares naquela época (mais de 460 milhões, atualmente, em valores corrigidos pela inflação). “Diante dos altos custos das soluções estruturais, conclui-se que alternativas não-estruturais, como: o zoneamento das áreas inundáveis, e a implantação ou aprimoramento de sistemas de previsão de cheias em tempo real; são soluções ‘reais’ e que estão atualmente ao alcance dos municípios”, concluiu o relatório.

Algumas das soluções “reais” foram implementadas. Em 2013, Dago Woehl, um dos fundadores da SEC-Corpreri escreveu extenso relato sobre as medidas adotadas para controlar os impactos das cheias. Entre elas estão o monitoramento hidrológico com postos de medição de chuva e nível do rio; uso de alertas de enchentes pela Defesa Civil e implementação de plano diretor com zoneamento das áreas de risco.

O Plano Diretor é um tema recorrente nas discussões em União da Vitória. Uma das polêmicas está no zoneamento de áreas de risco, identificadas após parcela da população já estar instalada nos locais apontados pelo plano. “Seria algo extremamente violento você querer tirar as pessoas que viveram a vida inteira em um bairro e simplesmente acabar com o bairro. Isso não existe. Isso é impossível. Então temos que criar mecanismos para as pessoas conviverem [com o rio]”, comenta o prefeito de União da Vitória, Bachir Abbas.

O prefeito destaca, contudo, que medidas têm sido adotadas para evitar que novas residências sejam construídas nas áreas de risco. A administração também realiza trabalhos de alerta sobre as regiões que não podem ser habitadas. “Acabar com as enchentes não vai se acabar, mas a gente tem que tentar amenizar os impactos”, completa Bachir.

Por que o Vale do Iguaçu sofre com as enchentes


Convivendo com o Iguaçu

Assim como os primeiros habitantes do Vale do Iguaçu, que aprenderam a se adaptar às intempéries, hoje em dia rio e comunidade convivem pacificamente. Há quase dez anos o Iguaçu se mantém calmo e dentro de seu leito habitual. Mas a situação pode mudar a qualquer momento, e a população tem isso em mente. “Temos que conviver com o rio e respeitar o rio pensando que ele é vivo e que em alguns momentos ele vai sair da caixa”, aponta Paulo.

Bachir acredita que, além de respeitar o espaço do rio, é preciso saber como explorá-lo melhor turisticamente, aproveitando a água que cerca a cidade para atrair a geração de emprego e renda. “A grande riqueza a nível  mundial é a água, e nós temos água em abundância”, afirma.

Vitor tem opinião semelhante à do prefeito. Para ele, valorizar o Iguaçu é ter uma relação mais respeitosa com o rio, entendendo que, na maioria do tempo, ele fica calmo em seu leito, mas que de vez em quando a situação não será tão tranquila. “O rio não vai invadir a cidade, ele vai tomar de volta o espaço que é seu. Mas vai encontrar uma cidade no meio do caminho. (…) Respeitar o rio é saber do seu potencial, das suas características, e saber que vai encher, sim, e que não tem muito o que a gente possa fazer com isso”.

Reportagem feita em parceria de Jaqueline Castaldon e Amauri Yamauti.

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