Por que tantas pessoas reprovam no exame de vista da CNH?
É uma cena que se repete diariamente nos consultórios oftalmológicos: o paciente chega frustrado e confuso, segurando um encaminhamento após ser reprovado no exame de vista para a emissão ou renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Muitos sentam na cadeira do médico jurando que enxergam perfeitamente bem, sem entender os motivos da reprovação. No entanto, a verdade que os exames revelam é alarmante: a perda visual, na maioria dos casos, é um processo tão lento e progressivo que o cérebro humano se acostuma a enxergar mal, criando a falsa ilusão de uma visão perfeita.
O tema foi o destaque do quadro “Hábitos Saudáveis”, da FM Verde Vale – 94.1, que recebeu o médico oftalmologista Dr. Alysson Kampmann. Durante a entrevista, o especialista desmistificou o processo de avaliação dos motoristas e alertou para uma questão que vai muito além da burocracia: a relação direta entre a acuidade visual e o tempo de reação no trânsito para evitar acidentes.
Quem realmente avalia a sua visão?
Um dos maiores questionamentos dos motoristas é o motivo pelo qual o exame do Detran não é realizado por um oftalmologista. O Dr. Alysson esclarece que o profissional responsável pela avaliação é um médico com especialização em Medicina do Tráfego. A função desse especialista não é diagnosticar doenças oculares, mas sim avaliar a aptidão física e mental do candidato como um todo, o que inclui aferir a pressão arterial, checar a coordenação motora e testar se a acuidade visual (a nitidez da visão) atinge o mínimo exigido por lei.
“Ele sabe medir a visão, ele não sabe qual o problema que está causando a perda da visão”, explica o oftalmologista.
Quando o candidato não consegue ler as letras na tabela, o médico do tráfego o reprova temporariamente e solicita um laudo oftalmológico. É apenas no consultório do oftalmologista que o diagnóstico exato será feito, seja a necessidade de um simples par de óculos ou a detecção de patologias mais complexas, como a catarata. Com o problema corrigido ou estabilizado, o oftalmologista emite um laudo detalhado, permitindo que o candidato retorne ao médico do tráfego para uma nova avaliação ou passe por uma junta médica.
A ciência do “enxergar bem” e as categorias da CNH
Muitos motoristas questionam o rigor das letras miúdas na tabela de testes, argumentando que “não precisam enxergar uma formiga no asfalto” para dirigir. Contudo, há um embasamento científico rigoroso por trás dessa exigência. Estudos comprovam que existe um limiar de acuidade visual que, se não for atingido, afeta diretamente os reflexos do motorista.
“Abaixo daquela acuidade visual, o seu tempo de reação é menor e isso pode levar a um risco mais sério num acidente”, adverte o Dr. Alysson.
Além disso, as exigências variam drasticamente conforme o tipo de veículo. Para condutores das categorias A e B (motos e carros de passeio), que não exercem atividade remunerada, a legislação é mais branda, permitindo a aprovação mesmo que o motorista tenha visão funcional em apenas um dos olhos.
O cenário muda completamente para motoristas profissionais que buscam as categorias C, D e E (caminhões, ônibus e carretas), onde a exigência é consideravelmente maior e exige excelente visão binocular (nos dois olhos) para garantir a segurança nas rodovias.
A epidemia da miopia e os vilões da direção
Quando questionado sobre qual é a principal causa das reprovações, a resposta do médico é direta: a falta de uso de óculos, impulsionada principalmente pela miopia, que afeta a capacidade de enxergar de longe. O problema está se tornando uma verdadeira epidemia moderna. Devido ao uso excessivo de telas e dispositivos móveis, projeções médicas indicam que 50% da população mundial será míope até o ano de 2030.
Junto à miopia, o astigmatismo é outro grande responsável por levar motoristas às óticas. Já entre os condutores na terceira idade, a grande vilã é a catarata. É justamente por causa do aumento exponencial do risco de desenvolver doenças oculares graves que a legislação de trânsito se adaptou recentemente. Motoristas mais jovens podem conseguir até 10 anos de validade na habilitação, mas, para aqueles com mais de 70 anos de idade, o prazo máximo de renovação cai para apenas 3 anos.
“Você não vai dar 10 anos para um paciente de 70 anos que, provavelmente, se não tem catarata, vai ter nesses 10 anos”, exemplifica o médico.
Responsabilidade e o ofuscamento noturno
Dirigir à noite traz desafios extras. O período do “lusco-fusco” (quando começa a anoitecer) é considerado o pior horário para os míopes, pois a qualidade da visão sofre uma queda abrupta. Outro fator de risco noturno é o ofuscamento provocado pelos faróis de veículos no sentido contrário.
O oftalmologista orienta os motoristas a nunca olharem diretamente para as luzes, focando sempre na própria pista para evitar a cegueira momentânea. Problemas não corrigidos, como o astigmatismo, espalham a luz no globo ocular e pioram muito o incômodo. Para esses casos, até mesmo óculos sem grau, mas com lentes equipadas com tratamentos específicos, podem ser recomendados para quem tem alta sensibilidade à luz.
Por fim, o especialista faz um apelo ético à sociedade. Problemas graves e irreversíveis de visão, como o glaucoma avançado e a degeneração macular, podem surgir subitamente no meio do período de validade de uma CNH. Nesses casos, o motorista – especialmente o profissional – deve ter a consciência de suspender suas atividades ao volante imediatamente para não colocar vidas em risco, mesmo que sua carteira ainda esteja dentro do prazo de validade.
“Vamos dar um atestado, você vai ao INSS… se for irreversível, vamos entrar com pedido de aposentadoria por invalidez”, orienta o Dr. Alysson, reforçando que a honestidade e a responsabilidade social devem andar lado a lado com a saúde visual.



