Cabos e fios soltos nos postes exigem responsabilidade compartilhada
A poluição visual promovida pelo excesso de fios nos postes, causando verdadeiros emaranhados, virou um problema nas cidades brasileiras, independente do tamanho do município, e o Vale do Iguaçu não foge à regra. Seja nos bairros ou na área central de União da Vitória e de Porto União, não é raro visualizar um ou vários fios soltos e entrelaçados em diferentes direções. A aparência ruim talvez seja uma consequência menos grave perto dos riscos à população. Motoristas, pedestres, ciclistas e motociclistas podem sofrer acidentes. Mas afinal de quem é a responsabilidade pelos fios soltos?
Para responder a essa e outras questões relacionadas ao assunto, a reportagem do JOC conversou com o Gerente de Inspeção e Fiscalização do Compartilhamento de Estruturas da Copel, Rafael Buckoski Gonçalves. “Primeiro precisamos contextualizar toda essa parte de compartilhamento de estruturas. A Lei Geral das Telecomunicações estabelece a cedência desse espaço no poste para as empresas de telecom, ou seja, a Copel não pode deixar de ceder, ela tem que ceder mesmo que seja de forma onerosa. Então primeiro é isso, a obrigação da concessionária de energia que tem a concessão dos postes ceder esse espaço. Temos que deixar claro também que existe uma resolução federal que traz como responsabilidade da concessionária de energia a fiscalização e a notificação. O que nos permite, somente em casos de risco iminente, o corte desses cabos”.
Em 2024, a Copel concluiu todo o censo do compartilhamento de estruturas no âmbito da concessão da empresa nos 399 municípios do Paraná e mais dez municípios lindeiros que fazem divisa com os estados de São Paulo e Santa Catarina.
“Nós passamos poste por poste fazendo vistorias e identificando empresa por empresa, ou seja, nós somos a primeira concessionária do Brasil a ter todos os seus postes mapeados sabendo quem ocupa o poste. Nós só não sabemos o que circula nesses cabos porque não é um ativo nosso, é de uma empresa que compartilha o nosso espaço”, explica.
750 quilos de cabos retirados em União da Vitória
Existem duas formas de fiscalização e notificação. A chamada fiscalização de regularização técnica, na qual as empresas têm até 30 dias para regularizar, e a fiscalização de risco, que as empresas têm até 48 horas para que seja regularizada a situação. A Copel esteve realizando em União da Vitória, nos dias 09 e 10 de dezembro de 2025, uma ação nas ruas Cruz Machado, Carlos Cavalcante, Bento Munhoz, Professora Amazília e Ranulfo Costa Pinto.
“Fizemos uma ação, notificamos as empresas e concedemos o prazo regulatório. Quando não houve a regularização, nós acessamos os cabos. Mas ainda concedemos o direito dessas empresas acompanharem a regularização, porque o impacto quem sente quando eu corto um cabo não é a empresa, e sim os clientes dela. Quando eu corto um cabo que eu não sei o que circula nele, eu impacto em perda de sinal de transmissão de dados que hoje é considerado fundamental para fazer negócios, para conversação, troca de informações importantes, então a gente oferece no dia da regularização esse direito das empresas acompanharem e interagirem com a Copel para regularizar”, conta Rafael.
Ele destaca que nos dias 09 e 10 de dezembro foram retirados 750 quilos de cabos das ruas citadas. “São 750 quilos de um ativo que eu tenho que dar também a destinação correta. Eu tiro um cabo que pode levar milhões de anos para sumir, para se degradar, então eu tenho que dar destinação correta e ambiental para esse ativo que não me pertence”, acrescenta.
A Copel retirou toda essa quantidade em parceria com as empresas. As operadoras que têm interesse, a Copel oportuniza mesmo após a notificação que essas empresas se façam presentes. “Foi um trabalho de parceria, várias empresas compareceram e com isso foi feita a retirada desses 750 quilos cabos e fios soltos nos posteamentos. Nós temos o papel fiscalizador e de notificação. A partir do momento em que não somos atendidos, aí nós pensamos no aspecto de segurança que para nós é inegociável”, comenta o gerente da Copel.
“Pessoal da Copel nos chamou para fazer um mutirão, a nossa empresa participou, várias empresas participaram e outras não. Quem realmente compareceu foram os provedores de internet regionais. A Copel indicava os pontos e as empresas faziam a retirada. Hoje o nosso problema são os cabos abandonados da Oi, cabos que não tem manutenção. Quando arrebenta, eles vão enroscando nos outros e vão levando tudo pro chão, incomoda a todos. Já tentamos tirar cabos que estavam baixos mas sofremos ameaças de processo. Como não sabemos o que passa pelos cabos também, preferimos não interferir”, conta o proprietário da Ciabrasnet, Julio Cezar Araújo. Unifique, Perfect, GGnet e Famatel também participaram da ação.
“As empresas regionais sempre participam dessas ações. Inclusive temos um grupo entre os provedores onde trocamos informações sobre cabos baixos e nos ajudamos quando necessário. Mesmo sendo concorrentes, ninguém quer ver um acidente acontecendo por causa dos cabos, isso seria ruim para todo mundo”, finaliza Julio.
O problema com os cabos da Oi
Muitos dos fios e cabos que hoje “atrapalham” os provedores de internet locais e a própria Copel são da Oi, que não atua mais na região. “É de conhecimento público que a empresa Oi primeiro ela teve decretada recuperação judicial, depois ela passou por um processo de decretação de falência e agora ela foi reaberta para a recuperação judicial. A Oi tem um acordo jurídico que ela tem até dois anos para retirar todos esses cabos da rede no Paraná. Eles têm esse prazo legal para retirar. Mas, nos trabalhos de regularização também retiramos. Tem resquícios e causa problema na rede? Sim. Mas hoje o que mais cresce não é a rede da Oi, são os provedores de internet. Existem parcelas da Oi, existe esse passivo, mas hoje os cabos que mais entram na rede são dos provedores de internet”, avalia o Gerente de Inspeção e Fiscalização do Compartilhamento de Estruturas da Copel.
Os maiores riscos
A maior preocupação de alguém que visualiza um cabo solto, um fio caído sobre uma calçada, por exemplo, é o risco de acidente. De acordo com Rafael Gonçalves, o problema é quando esses cabos ficam soltos numa travessia de rua. “Por vir um motociclista, ele se enrolar e sofrer um acidente. Geralmente esses cabos não são energizados, mas todo e qualquer cabo solto, por prevenção, nós indicamos que não mexa no cabo. O correto é acionar o 0800 da Copel informando uma situação de risco, e aí as nossas equipes, devidamente treinadas para isso, vão ao local retirar o risco iminente.
O cabo não conduz energia, mas ele pode estar energizado pela iluminação pública ou por uma rede que caiu e está energizando uma cordoalha de aço que segura esse cabo”, finaliza. Recentemente, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) reconheceu a Copel como a empresa mais bem preparada para tratar do compartilhamento de estrutruras no Brasil, o que faz da empresa uma referência nesse cuidado com o compartilhamento.
Como funciona em outros estados
No Rio Grande do Sul, recentemente, a Justiça rejeitou um plano da concessionária CEEE Equatorial para a retirada de fios soltos na capital Porto Alegre. Na decisão da juíza Patrícia Laydner, da Vara Regional do Meio Ambiente, foi estipulada multa diária de R$ 10 mil até que a empresa apresente uma proposta satisfatória. Em nota, a concessionária explica que elaborou o plano e aguardava a audiência para tratar do tema.
“Paralelamente, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), responsável pela regulação do compartilhamento de infraestrutura, manifestou interesse em ingressar no processo para contribuir no debate, reforçando a responsabilidade das empresas de telecomunicações pelo ordenamento e manutenção dos seus respectivos cabos. A Companhia entende que o plano apresentado atende integralmente a decisão judicial e esperava esclarecer eventuais dúvidas na audiência cancelada, razão pela qual permanece à disposição do judiciário para a discussão e evolução do tema, de forma colaborativa”.
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