Como as Terras Raras podem mudar o futuro do Brasil?
Em entrevista ao Jornal O Comércio, o presidente do Instituto do Desenvolvimento da Mineração (IDM Brasil), Wagner Pinheiro, falou sobre a importância dos minerais estratégicos na transição energética e o papel decisivo das Terras Raras no futuro da tecnologia e da inovação. No bate-papo, ele explicou como o Brasil, mesmo com pouco conhecimento sobre suas reservas, já desponta como segunda maior reserva de Terras Raras do mundo, o que torna o país uma potência estratégica no cenário global. Wagner também alertou sobre a necessidade de proteger e gerir de forma sustentável os minérios brasileiros, fundamentais para setores como comunicação, segurança, veículos elétricos e energia limpa, entre outros.
Confira um trecho da entrevista:
Jornal O Comércio (JOC): Na sua opinião, porque a regulamentação da mineração brasileira ainda não foi atualizada?
Wagner Pinheiro (WP): Essa pergunta eu fazia para mim também. Quando eu comecei a estudar e conversar com as pessoas mais velhas, que já tinham vivenciado a mineração, seja na academia, ou também na experiência da extração mineral propriamente dita, comecei a ouvir e a aprender muito. Aprendi muito com os mineradores. O que falta, essencialmente, são políticas públicas. É você começar a trabalhar a mineração de forma responsável e ter realmente uma legislação própria.
Para você ter uma ideia, o nosso código de mineração é de 1967. Nós não tínhamos a computação, nós não tínhamos o georreferenciamento, nós não tínhamos nada que envolvesse tecnologia. Até hoje esse é o código que rege a mineração. Eu acredito que o grande problema é a resistência que nós temos na manutenção do status quo do formato da extração mineral. O Brasil, ao invés de ser um país de desenvolvimento, ele é simplesmente de uma cultura extrativista. Nós tiramos o minério em grande escala, como minério de ferro, e mandamos para fora. Um minério de ferro de extrema qualidade. Nós mandamos para fora esse minério, e lá ele é misturado, feito aço, e nós compramos de volta, com valor agregado lá de fora, gerando emprego e renda lá fora. Nós não temos uma política que consiga discutir de forma transversal.
JOC: Qual a situação atual do Brasil com relação ao minerais estratégicos para a transição mineral e também com relação às terras raras?
WP: Essa essa pergunta é fantástica, porque na tua pergunta, você acabou fazendo uma correção. Você usou a terminologia mineral estratégico para transição mineral. Pronto. Já ajudou na política pública com essa pergunta. O que aconteceu recentemente? O próprio BNDS, o Congresso Nacional, e algumas pessoas que de alguma forma são ouvidas, passaram a chamar minerais estratégicos. O próprio Ministério fez uma portaria classificando minerais estratégicos. A frase deveria continuar, como na pergunta: minerais estratégicos para transição mineral. Esse é um tipo de mineral estratégico.
Nós deveríamos, no Ministério de Minas e Energia e na própria Agência Nacional de Mineração, fazer uma classificação dos minerais estratégicos. Areia, para União da Vitória, para Porto União, para o Estado de Santa Catarina, a areia, a argila, o carvão mineral são minerais estratégicos para subsistência das regiões de forma econômica, para as questões da construção civil são fundamentais, para a energia propriamente dito. O carvão, na região de Criciúma, com a termoelétrica, ajuda fundamentalmente no equilíbrio da estabilidade da energia. Então, o Brasil primeiro deveria fazer uma classificação de minerais estratégicos. Argila, por exemplo, na região de Santa Gertrudes, em São Paulo, o maior polo cerâmico da América Latina, é evidente que esse mineral é estratégico.
Quando o BNDS anunciou que faria uma linha de crédito para os minerais estratégicos, ele se resumiu a terras raras, lítio, níquel, ouro, nióbio, grafite e esqueceu de toda essa cadeia produtiva que deveria ser incentivada. Então, deveria-se fazer imediatamente uma correção e um estudo de impacto econômico ambiental por região. E aí você chegaria a essa classificação dos minerais estratégicos.
Sobre as Terras raras. Recentemente, em relação ao tarifaço aplicado pelo governo dos Estados Unidos, o próprio presidente, Donald Trump, questionou o Brasil sobre a possibilidade de ter acesso a terras raras. Você tem hoje a China com uma grande reserva, o Brasil com uma grande reserva. Talvez os dois principais do mundo, com as reservas conhecidas.
Terras raras tem um composto de aproximadamente 17 substâncias, elementos que também são separados. (…) Terras raras hoje representa o quê? Quem dominar a técnica de melhoramento e de transformação das terras raras, vai dominar o sistema de comunicação mundial, o sistema de segurança. Um dos equipamentos que é facilmente conhecido hoje, o laptop, a tela é feita de terras raras. O aparelho de ressonância magnética, que foi uma evolução na medicina, necessita de terras raras. Terras raras é o melhor imã que existe conhecido na Terra. Então, os veículos elétricos, que dependem de um imã de qualidade, a evolução do veículo vai depender da qualidade do ímã do motor elétrico, não só para o veículo, mas para os motores elétricos de forma geral.
Os Estados Unidos não têm terras raras. Então começa uma discussão que deveria ser mais aprofundada. É claro que o governo americano tem essa preocupação, porque se o governo brasileiro, não quero entrar em geopolítica mas, se se aproximar mais da China, passa a ter praticamente o controle.



