Usina de Foz do Areia é uma das maiores do subsistema Sul de geração de energia
A Usina Hidrelétrica Governador Bento Munhoz da Rocha Netto, conhecida como Foz do Areia, possui um papel estratégico na geração e armazenamento de energia pela Companhia Paranaense de Energia (Copel), sendo a maior usina da instituição, com 1.676 megawatts (MW) de potência instalada, capaz de atender até 4,7 milhões de pessoas.
Em União da Vitória, no entanto, a usina causa polêmica, principalmente em épocas de cheia do Iguaçu. Conversamos com a gerente de gestão de recursos naturais da Copel, Mônica Irion Almeida, a respeito da importância da usina para o país e sua relação com as enchentes no Vale do Iguaçu.
Confira:
Jornal O Comércio (JOC): Qual é a importância da usina de Foz do Areia para o sistema elétrico paranaense e brasileiro?
Monica Irion Almeida (MIA): A usina de Foz do Areia, dentro do portfólio da Copel, é a maior de todas as usinas que a gente opera. Ela faz parte do Sistema Interligado Nacional, que é um sistema que é composto por diversas usinas hidrelétricas distribuídas ao longo do país. Também temos usinas termoelétricas e outras instalações de fontes intermitentes eólicas, solares e elas são interconectadas por linhas de transmissão. Então, a usina faz parte desse sistema que é muito grande no Brasil e que tem como objetivo justamente suprir energia para o país, de forma que a gente possa considerar sinergias ou diferenças hidrológicas entre regiões.
Em algum momento que aqui no Sul a gente tem excedente de recurso hídrico, a gente contribui com a geração. Em outros momentos em que atravessamos estiagens, nós recebemos energia de outras regiões. Então é muito importante essa participação da usina nesse sistema.
Esse sistema é composto por quatro subsistemas que são chamados: subsistema Norte, Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, que é onde está conectada a usina Foz do Areia. Dentro do subsistema Sul, é muito importante a usina. A região Sul contribui com 7% do armazenamento do Sistema Interligado e dentro desse 7%, a usina de Foz do Areia corresponde a 30%. Veja que é bastante relevante, ela é das que mais contribui para o subsistema e por isso a importância dela e de a gente aproveitar as oportunidades dos eventos onde nós temos mais disponibilidade hídrica para reforçar esse armazenamento.
JOC: Quais características diferenciam a usina de Foz do Areia em relação a outras hidrelétricas?
MIA: A usina de Foz do Areia foi uma das precursoras no sistema de construção da barragem. Uma barragem de enrocamento. Então, foi uma das primeiras a ser construída com essa tecnologia. A importância dela para a região Sul, é porque ela acaba regularizando a cascata de reservatórios de todo o Iguaçu. No contexto aqui da cascata do rio Iguaçu, ela tem essa grande importância, que ela é a primeira, é a que armazena e a que controla o fluxo do rio para para as próximas usinas fazerem o aproveitamento de toda essa água que passa pela cascata.
JOC: Como a usina funciona em períodos de estiagem?
MIA: São feitas avaliações diariamente em relação a qual é o valor da vazão que está chegando na usina. E aí essas avaliações são repassadas para o operador nacional do sistema elétrico que é uma instituição bastante importante nesse contexto do Sistema Interligado Nacional, que é quem efetivamente coordena o quanto que vai gerar de energia em cada empreendimento que está instalado no Brasil e que compõe esse sistema. Então, cada usina tem que contribuir com uma parcela de geração de energia.
Durante estiagens, o que se observa é esse recurso o quão disponível ele está e sempre com o cuidado também de observar os usos múltiplos da água que nós chamamos. Que são os demais usuários desse recurso tão importante que tem no rio, tanto rio acima quanto rio abaixo. É feito toda uma avaliação de quanto é possível gerar de energia e como eu disse, por vezes, a gente minimiza essa geração por não ter tanta disponibilidade, seja de água que vem chegando ou mesmo armazenada no reservatório e aí passa a receber energia de outras usinas que estão aí em outras localidades do país.
JOC: Quais são as tecnologias que ajudam a controlar a operação de Foz do Areia? Qual é a estrutura necessária para manter a operação da usina no dia a dia?
MIA: Eu faço parte do centro de operações de geração e transmissão. Especificamente no centro de operação, a gente trabalha em escala 24/7, então são vários profissionais que rodam o tempo todo. Na usina também tem esse mesmo tipo de atendimento, 24 horas por dia, 7 dias por semana.
E em relação à parte de tecnologias, a operação da usina é feita de forma remota aqui por Curitiba. A menos de alguma situação muito específica, ela é operada localmente. E essas operações são feitas por meio de sistemas de supervisão, controle, os comandos todos são realizados de forma remota aqui por Curitiba. Tudo isso, obviamente coordenado e acompanhado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, que monitora isso na parte de hidrologia hora a hora, mas nas demais variáveis, de geração, isso é em escala de menos de segundos. Tem muita tecnologia realmente por trás de toda essa operação.
E na parte de hidrologia, a gente trabalha também com modelos hidrológicos, com informações meteorológicas. Temos um fornecedor de informações para a parte de meteorologia e usamos diversas tecnologias também de monitoramento nos rios, no reservatório, monitoramentos de níveis d’água para transformar em vazões ou ao contrário. Inclusive, temos a página de monitoramento que é muito utilizada aí na região, a gente sabe que é bastante consultada. Então, todo esse monitoramento é feito de forma automática e os dados são processados também por meio de sistemas e esses sistemas alimentam outros para tomada de decisão durante as operações.
JOC: Quando ocorrem chuvas intensas na bacia do rio Iguaçu, qual é o primeiro sinal de alerta que a equipe consegue observar através desse centro de operações?
MIA: O primeiro trabalho que a gente faz é acompanhar as previsões meteorológicas e essas previsões de chuva elas são transformadas em previsões de vazões. A gente trabalha com o horizonte de operação de cerca de 15 dias, obviamente, nos últimos dias. A partir do 10º dia a gente tem ressalvas em relação a esses dados. A nossa região não tem uma boa previsibilidade, né? Os eventos ocorrem de maneira muito rápida, então a gente tem que estar monitorando. Mas os primeiros passos é a gente observar o que vai acontecer nos próximos 15 dias e aí já estabelecer as estratégias em relação à operação do reservatório. Tudo isso é feito em conjunto com o operador nacional do sistema elétrico, avalia-se qual é a vazão que vai estar chegando, se há volume disponível para armazenar isso no reservatório, se há uma necessidade de iniciarmos um rebaixamento, que nós chamamos de rebaixamento dinâmico, nós ficamos observando e quantificando o quanto de água está em curso na bacia hidrográfica, para ir abrindo esse espaço dentro do reservatório. Na grande maioria das vezes, como a gente toma as decisões de forma bastante antecipada, isso é feito por meio de geração de energia. A água passando pelas turbinas. Caso já esteja com uma geração máxima e seja necessário aumentar ainda mais esse espaço dentro do reservatório, aí lança-se mão de abertura do vertedouro.
Esse trabalho de abertura do vertedouro, ele busca representar também o que naturalmente aconteceria no Rio. Então, a gente tem esse cuidado também de abrir gradualmente as comportas. Tudo isso também em consenso com outros agentes que operam empreendimentos na cascata. Então, a partir do momento que se estabelece ou mesmo um pouco antes, com previsões já de ocorrência de cheias, é feito todo um trabalho de articulação coordenado pelo ONS, em que participam todos os operadores de usinas da cascata, para justamente buscar as melhores estratégias. E toda essa operação em Foz do Areia, ela é feita de modo que não ocorra nenhum tipo de agravamento da situação que ocorreria naturalmente aí na região de União da Vitória.
Isso é bastante importante e para dar toda essa transparência de como a Copel opera sem afetar esses níveis d’água aí em União da Vitória, é que a gente disponibiliza aquela série de informações na nossa página. O gráfico de influência, que pode ser consultado a qualquer momento. Nós disponibilizamos também algumas previsões ali para um horizonte um pouco mais curto porque tem as questões da operação, do dia a dia e da operação coordenada pela ONS, para que a população tenha uma previsibilidade das próximas horas, do que vai ocorrer em termos de nível da água. Porque nós entendemos que é uma informação bastante relevante para a região. E aí é o nosso, vamos dizer assim, a nossa contribuição para para a comunidade da região.
JOC: Sobre a abertura das comportas, como funciona essa operação e em que momento essa decisão é tomada?
MIA: Essa abertura é estabelecida em regras. Existem regras que definem como que isso deve ser feito. Nenhum profissional pode, mesmo sendo um profissional da Copel, deliberadamente abrir uma comporta, simplesmente sair do zero e abrir totalmente. Essa é uma questão bastante técnica, são feitos inúmeros estudos para determinar o quanto precisa abrir e essas aberturas ocorrem de maneira muito gradual. São dados comandos, e os comandos, as simulações são feitas a cada hora ou até em escala intra-horária para avaliar o que está ocorrendo, vendo, antes do reservatório, rio acima, que a gente fala a montante, do reservatório e aí a gente ia acompanhando a evolução da cheia, repassando essa cheia, rio abaixo, sem contudo agravar aquilo que está sendo repassado.
O objetivo principal é proteger a barragem para não elevar demais o nível, atuar nessa questão de não provocar nenhum tipo de elevação adicional aí na região de União da Vitória, mas também não provocar nenhum tipo de cheia artificial para a região que fica rio abaixo. O que seria uma situação também muito não recomendada tecnicamente. Esses estudos foram desenvolvidos ao longo dos anos, eles precedem, inclusive, ao início da operação de qualquer empreendimento e a partir dessas regras que são estabelecidas tanto internamente, quanto perante o Operador Nacional, que também acaba sendo fiscalizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, que é a agência fiscalizadora do setor elétrico, eles também têm isso do regrado. E aí a gente passa a seguir essas regras na operação. E tudo isso é parametrizado por meio de sistemas. Então, tem que periodicamente fazer a simulação, avaliar o que está acontecendo e implementar essas manobras de forma a acompanhar a evolução do evento de cheia.
JOC: Como funciona a segurança da barragem?
MIA: Sobre a parte de segurança da barragem, a Copel possui uma equipe que tem essa atribuição de acompanhar todos os requisitos legais e também esse monitoramento da instrumentação da barragem. Eu não tenho um nível de conhecimento aprofundado em relação a todos os instrumentos que existem lá, mas o que eu posso dizer é que durante os eventos de cheia há um trabalho multidisciplinar dentro da Copel, de esforços de todo esse acompanhamento do comportamento da barragem, então a Copel aciona suas equipes para manter um monitoramento mais intensificado nesses casos aí de eventos de cheia. E aí a gente tem toda uma tratativa multidisciplinar interna para conduzir essas situações. Então, tem grupos pré-estabelecidos para fazer esse acompanhamento e caso tenha alguma situação, algum ponto de preocupação, eles são rapidamente compartilhados com as equipes internas.



