OPINIÃO: PARA SEMPRE

Começo com duas perguntas: há quanto tempo você vive no mesmo endereço? Há quanto tempo você deixou de viver no endereço em que você mais gostou de viver?

Já entendeu, creio, que o bom aqui é não precisar responder à segunda pergunta. Forço um pouco para que seja o mesmo endereço, não a mesma cidade, estado ou país, mas o mesmíssimo endereço, com CEP, rua, alameda, apartamento, puxadinho, logradouro, andar, tudo absolutamente igual.

Viver em um endereço é povoá-lo com suas histórias e suas recordações. É olhar pela mesma janela e ver o mesmo céu, dia após dia. É conhecer a estrutura em suas mínimas sutilezas, como uma mancha na pintura, uma rachadura no azulejo, uma goteira. Mais ainda, é saber que naquele canto da casa um dia havia um sofá; que ali, naquele corredor, foi onde o copo caiu no chão e se quebrou para, pouco depois, o irmão passar correndo e cortar o dedão, e tudo acabar numa muvuca sem igual.

Nos endereços há também as coisas imateriais. O que ali se viveu e o que ali não se pôde viver. Os medos da noite, os cafés da fria manhã, os almoços de domingo em família, menos pelo almoço e mais pela família reunida, as nostalgias, as esperanças, os natais, os que estavam doentes, os que se curaram e os que não se curaram, os que chegaram e os que se foram, tudo debaixo do mesmo teto.

A vida dá muitas voltas e, raramente, alguém vai do começo ao fim no mesmo lugar, inclusive porque, de alguma forma, a todos é preciso sair.

Encontrar um outro endereço é um ato difícil, muito menos por questões financeiras e muito mais porque sabemos que, aonde formos, estaremos a construir vivências e memórias. É por isso que, a cada endereço, a máquina de afetos gira, produz e remodela a nossa própria subjetividade, não tanto no sentido de expectativas e realidades — até porque muitas vezes a mudança é repentina e forçada —, mas especialmente nas contingências das pequenas silabadas do dia a dia, enredadas na cambraia dos mais sutis instantes.

Quem já viu a casa do seu antigo endereço ser destruída sabe que ela se vai, mas que, paradoxalmente, ela também fica. Tente lembrar da famosa cena de Forrest Gump, em que os dois amigos, Forrest e Jenny, voltam até a antiga casa pobre em que ela vivia com o pai violento — aquela mesma em frente ao milharal para onde eles, crianças, corriam para rezar ajoelhados. Jenny, já adulta, volta ao lugar e joga pedras na casa, como se tentasse atingir aquilo que, nos difíceis anos de sua infância, aconteceu. Ela joga uma, duas, três pedras… e chega até mesmo a quebrar uma vidraça. Logo em seguida, ela cai ao chão e chora copiosamente, talvez porque ela tenha ali finalmente entendido que, destruindo ou não a casa (e Forrest faz isso por ela pouco depois, com um pesado e possante trator), um endereço é para sempre.

Não por outra razão, presto aqui uma singela homenagem ao poeta Paulo Tassa e ao seu brilhante livro de poemas Luz Doméstica, publicado há pouco pela Diadorim Editora. Ao tecer em versadas linhas sobre a infância e o que nela se passou, não deixa ele de tocar no ponto singular e tantas vezes esquecido dos endereços em que vivemos. Uma linha escreve o poeta, a nos dizer que eles, os endereços, permanecerão e estarão de alguma maneira dentro de nós, para […] decoro da alma/na imortalidade do seu rumo (Borges).

@fernandodavidperazzol

perazzoli@gmail.com