Brasil chega ao segundo turno com Congresso mais conservador e PL ampliando seu espaço no Sul
A eleição de 2026 entrou em sua segunda etapa com uma disputa presidencial apertada e um Congresso Nacional significativamente mais alinhado à direita.
No primeiro turno, realizado em 04 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou em segundo, com 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos.
Com nenhum dos dois candidatos alcançando maioria absoluta, os brasileiros voltarão às urnas no dia 25 de outubro para escolher o próximo presidente da República. Será mais uma disputa presidencial decidida em segundo turno, assim como ocorreu em 2022.
A propaganda eleitoral gratuita no Rádio e na TV do segundo turno começa nesta sexta-feira, 09, e segue até 23 de outubro. Lula e Flávio terão o mesmo tempo nos dois blocos diários, além da divisão igualitária das inserções.
O resultado do primeiro turno, entretanto, vai muito além da disputa pelo Palácio do Planalto. A votação também redesenhou os governos estaduais, as Assembleias Legislativas, a Câmara dos Deputados e, principalmente, o Senado Federal.
Um segundo turno marcado pela força do PL
A vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno não foi suficiente para garantir a eleição, mas mostrou a força do campo bolsonarista em diversas regiões do país.
O candidato do PL recebeu 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula. A abstenção também teve peso importante: cerca de 33,5 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Analistas ouvidos pela imprensa apontaram a abstenção e a migração de votos de outros candidatos como fatores que contribuíram para a liderança de Flávio.
O segundo turno, portanto, começa com uma diferença relativamente pequena entre os dois candidatos, mas em um cenário político bastante diferente daquele encontrado por Lula no início do atual mandato e também na eleição passada.
Além de disputar a Presidência, PT e PL terão de considerar a nova composição do Congresso. O resultado legislativo dá ao próximo presidente um ambiente político em que a direita terá peso expressivo nas duas Casas.
Paraná: Moro vence, PL avança e Flávio supera Lula
No Paraná, o resultado das urnas foi particularmente favorável ao campo político de Flávio Bolsonaro. O estado elegeu Sérgio Moro (PL) governador ainda no primeiro turno. O ex-juiz e ex-ministro da Justiça recebeu 3.127.911 votos, correspondentes a 50,10% dos votos válidos, e terá Edson Vasconcelos (PL) como vice-governador.
A vitória encerrou a disputa pelo Palácio Iguaçu sem necessidade de segundo turno e representou uma derrota para o grupo ligado ao atual governador Ratinho Junior, que apoiou Sandro Alex. Durante a comemoração, Moro também associou sua vitória ao desempenho de Flávio Bolsonaro e declarou apoio ao candidato do PL na disputa presidencial.
Na votação para presidente, a diferença entre os dois candidatos foi ainda maior. Flávio Bolsonaro alcançou 59,91% dos votos válidos no Paraná, contra 31,20% de Lula. O resultado transforma o Paraná em um dos principais redutos eleitorais do bolsonarismo no segundo turno.
Senado paranaense também muda de mãos
O Paraná elegeu Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo) para o Senado. A dupla ocupará as duas vagas que estavam em disputa no estado. Há, porém, uma questão judicial ainda em aberto envolvendo Dallagnol.
O Tribunal Superior Eleitoral adiou o julgamento que seria realizado nesta quinta-feira, 08, relacionado ao registro de candidatura do senador eleito. Uma eventual decisão poderá alterar a situação dos votos e a composição da representação paranaense no Senado.
A eleição de Moro também produz outra mudança: sua cadeira no Senado deverá ser ocupada pelo suplente Luis Felipe Cunha quando o governador eleito deixar o Congresso para assumir o Executivo estadual.
Câmara Federal: Paraná terá bancada diversificada, mas com forte presença da direita
O Paraná elegeu 30 deputados federais. PL e PT conquistaram cinco cadeiras cada, enquanto Novo, PSD e PP elegeram quatro deputados cada. União Brasil, Republicanos e Podemos ficaram com duas vagas cada, enquanto MDB e PV elegeram um representante.
Entre os eleitos estão Jeffrey Chiquini (Novo), o campeão de votos do estado, com 425.399 votos; Guilherme Kilter (Novo), Sargento Fahur (PL), Ana Júlia (PT), Beto Preto (PSD), Zeca Dirceu (PT), Rosangela Moro (PL), Renato Freitas (PT), Pedro Lupion (Republicanos), Carol Dartora (PT), Ricardo Barros (PP), Tião Medeiros (PP), Vermelho (PL) e Delegado Francischini (PL).
A bancada também terá nomes de forte identificação com o bolsonarismo, como Sargento Fahur, Rosangela Moro e Delegado Francischini, ao lado de representantes da esquerda, como Ana Júlia, Zeca Dirceu, Renato Freitas, Carol Dartora e Arilson Chiorato. Um dos aspectos que chamam atenção é o desempenho do Novo: Jeffrey Chiquini foi o deputado federal mais votado do Paraná, com mais de 425 mil votos.
Assembleia Legislativa do Paraná mantém forte presença do PL e PSD
A Assembleia Legislativa do Paraná terá 54 deputados a partir de 2027. PL e PSD serão as maiores bancadas, com 14 parlamentares cada. O PT terá oito deputados, seguido pelo PP, com seis. Podemos, Novo e Republicanos terão três parlamentares cada. MDB terá dois e PDT, um.
Entre os nomes mais votados estão Paulo Melo (PL), Jessicão (PL), Professor Lemos (PT), Marcio Nunes (PSD), Gugu Bueno (PSD), Hussein Bakri (PSD), Do Carmo (Podemos), Romanelli (PSD), Bruno Secco (Novo) e Delegado Jacovós (PL).
O resultado indica que Sérgio Moro deverá encontrar na Assembleia uma correlação de forças com forte presença de partidos de direita e centro-direita, embora a composição também conte com uma bancada significativa do PT.
A nova legislatura também terá forte presença de famílias tradicionais da política paranaense. Entre os eleitos estão representantes das famílias Francischini, Wandscheer, Vermelho, Litro e outras estruturas políticas com presença histórica no estado.
Santa Catarina: Jorginho é reeleito com quase 69%
Se o Paraná confirmou a ascensão de Moro, Santa Catarina consolidou a força do PL com a reeleição de Jorginho Mello. O governador foi reeleito no primeiro turno com 2.942.386 votos, ou 68,98% dos votos válidos. O empresário Adriano Silva (Novo) será novamente o vice-governador.
Jorginho teve uma vantagem muito superior à de Moro no Paraná e encerrou a disputa pelo governo catarinense ainda no dia 04 de outubro. O desempenho do PL também apareceu na eleição presidencial. Flávio Bolsonaro obteve 66,65% dos votos válidos em Santa Catarina, enquanto Lula ficou com 25,04%. Foram aproximadamente 3 milhões de votos para o candidato do PL contra 1,1 milhão para o petista. O resultado faz de Santa Catarina um dos estados onde a vantagem de Flávio sobre Lula foi mais expressiva.
Senado catarinense será integralmente bolsonarista
Santa Catarina protagonizou uma das mudanças mais significativas da eleição para o Senado.
As duas vagas em disputa ficaram com Carol De Toni e Carlos Bolsonaro, ambos do PL. Com isso, o estado terá uma representação no Senado totalmente ligada ao partido de Flávio Bolsonaro.
A eleição representa uma mudança importante na correlação de forças do Senado e acompanha a vitória de Jorginho Mello e o desempenho de Flávio na disputa presidencial.
O PL conseguiu conquistar as duas vagas em disputa também em outros estados, como Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rondônia, ampliando significativamente sua presença na Casa.
Câmara Federal de SC terá sete deputados do PL
Santa Catarina elegeu 16 deputados federais. O PL conquistou sete cadeiras, formando a maior bancada do estado. Foram eleitos pelo partido Julia Zanatta, Jair Renan Bolsonaro, Sargento Lima, Daniela Reinehr, Zé Trovão, Ricardo Guidi e Daniel Freitas.
O PT elegeu Ana Paula Lima e Professor Pedro Uczai. Também conquistaram cadeiras Pezenti (MDB), Gilson Marques (Novo), Giovana Mondardo (PCdoB), Julio Garcia (PSD), Zé Milton (PP), Paulinha (Podemos) e Geovania de Sá (Republicanos).
Julia Zanatta foi a grande campeã de votos em Santa Catarina, com 560.223 votos.
A bancada catarinense, portanto, terá uma maioria claramente alinhada à direita, embora conte com representantes de diferentes campos políticos.
Assembleia de SC: PL terá 16 das 40 cadeiras
A força do PL também se repetiu na Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Dos 40 deputados estaduais eleitos, 16 serão do PL. O PT terá cinco cadeiras; MDB, quatro; Republicanos e PSD, três cada; União Brasil, PP e Podemos, duas cada; enquanto PSOL, Novo e PDT terão um representante cada.
Ana Campagnolo foi a candidata mais votada para a Assembleia, com 387.523 votos.
O resultado consolida uma ampla maioria de direita e centro-direita no Legislativo estadual e oferece ao governador Jorginho Mello uma base política potencialmente favorável para seu segundo mandato.
A grande mudança nacional está no Senado
Se a eleição presidencial ainda está indefinida, o Senado já oferece uma das respostas mais claras das urnas: o PL será a maior bancada da Casa a partir de 2027. Dos 81 senadores, 54 foram escolhidos nesta eleição. Os outros 27 permanecem com mandatos iniciados em 2023.
O PL elegeu 19 dos 54 novos senadores e passará a contar com 28 parlamentares no Senado. O PT terá nove; MDB, oito; PP e Republicanos, seis cada; PSD e União, cinco cada; PSB, quatro; Novo, três; PSDB e Podemos, dois cada; além de PDT, Rede e um parlamentar sem partido.
É a maior bancada do PL no Senado desde a redemocratização. O crescimento da legenda foi acompanhado pelo encolhimento de outras forças. O PSD, por exemplo, caiu de 13 senadores no fim de 2026 para cinco na composição que assumirá em 2027. O Novo, por outro lado, passou de apenas um representante para três.
As 54 novas cadeiras
Entre os nomes que chegam ao Senado estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, pelo Distrito Federal; Deltan Dallagnol e Filipe Barros, pelo Paraná; Marcel van Hattem, pelo Rio Grande do Sul; Guilherme Derrite, por São Paulo; Carlos Bolsonaro e Carol De Toni, por Santa Catarina; além de nomes de centro e esquerda, como Renato Casagrande, Rui Costa, Jaques Wagner, Cid Gomes e Luizianne Lins.
A nova composição mostra que o eleitorado produziu uma renovação expressiva, mas não necessariamente uma mudança de direção política. O resultado geral favoreceu partidos de direita e centro-direita.
Outro dado histórico é o aumento da presença feminina. O Senado chegará a 18 mulheres em 2027, número recorde para a Casa, embora elas ainda representem apenas 22,2% das cadeiras. A maioria das novas senadoras eleitas está ligada a partidos de direita.
Câmara dos Deputados também terá maioria à direita
A tendência observada no Senado se repete na Câmara dos Deputados. O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Casa. O PT ficou em segundo, com 70 cadeiras. Na sequência aparecem União Brasil, com 46; PSD, com 43; PP e Republicanos, com 41 cada; e MDB, com 36.
Considerando a classificação ideológica utilizada pela análise dos resultados, 59,1% das cadeiras da Câmara estarão nas mãos de partidos de direita, enquanto a esquerda terá 24,2% e o centro, 16,8%. Isso significa que, independentemente de quem vencer a eleição presidencial, o próximo governo terá de negociar com um Congresso mais conservador.
Para Lula, caso seja reeleito, o cenário representa um desafio adicional: a Presidência poderá permanecer nas mãos do PT, mas o Legislativo será formado majoritariamente por forças políticas que não fazem parte de sua base tradicional.
Para Flávio Bolsonaro, uma eventual vitória significaria uma situação inversa à enfrentada por seu pai em parte do mandato iniciado em 2019: o presidente eleito teria o próprio partido como maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado.
O Sul como principal território do PL
Os resultados de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul formam um dos retratos mais claros da eleição de 2026. Os três estados do Sul elegeram governadores do PL: Sérgio Moro no Paraná, Jorginho Mello em Santa Catarina e Luciano Zucco no Rio Grande do Sul.
No Paraná e em Santa Catarina, Flávio Bolsonaro também venceu Lula com ampla vantagem.
O fenômeno não se limitou ao Executivo. O PL ampliou sua presença nas Assembleias Legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado. O resultado cria uma espécie de cinturão político do PL na região e transforma o Sul em um dos principais territórios eleitorais do partido para o segundo turno presidencial.
A eleição de 2026 ainda não terminou
Até 25 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro terão pouco mais de duas semanas para conquistar os eleitores que votaram em outros candidatos, além daqueles que não compareceram ao primeiro turno.
A matemática eleitoral também muda. Os dois candidatos precisam buscar principalmente os votos dos candidatos derrotados e disputar os eleitores que escolheram branco, nulo ou simplesmente não foram às urnas. A disputa presidencial, portanto, começa novamente.
Mas uma parte importante da eleição já está definida: a partir de 2027, o Brasil terá uma Câmara dos Deputados e um Senado mais conservadores, o PL terá a maior bancada das duas Casas, e Paraná e Santa Catarina estarão entre os principais centros de poder do partido.
O resultado de 25 de outubro definirá quem ocupará o Palácio do Planalto. O mapa desenhado em 04 de outubro, porém, já indica que o próximo presidente governará diante de um Congresso diferente, e mais à direita, do que o atual.



