Em sete meses, Delegacia da Mulher registra mais ocorrências do que em todo 2025

O silêncio costuma ser um dos maiores aliados da violência doméstica. Medo, dependência emocional, insegurança financeira, preocupação com os filhos e a esperança de que o agressor mude fazem com que milhares de mulheres permaneçam em relações abusivas por anos.

O Agosto Lilás, campanha nacional de conscientização pelo enfrentamento à violência contra a mulher, busca justamente romper esse ciclo por meio da informação, do acolhimento e da denúncia.

A comunicadora Jenifer Rodrigues, de 37 anos, moradora do bairro Cidade Nova, conhece essa realidade de perto. Ao decidir denunciar o agressor e compartilhar o caso nas redes sociais, precisou enfrentar não apenas a dor da violência, mas também o peso da exposição pública.

“Naquele momento, eu entendi que permanecer em silêncio não me faria bem. Eu precisava buscar proteção, apoio e retomar a minha dignidade. A denúncia foi uma decisão muito difícil, mas foi a forma que encontrei de cuidar de mim diante da realidade que eu estava vivendo”, conta.

Ela destaca que cada mulher possui seu próprio tempo para tomar essa decisão. “Cada mulher conhece os seus limites e o seu tempo, e acredito que nenhuma deve se sentir culpada por pedir ajuda”, afirma.

Arquivo Pessoal

 A violência não termina com a denúncia

Após expor o caso, Jenifer conta que enfrentou novos desafios. Segundo ela, quando uma situação como essa se torna pública, muitas pessoas opinam sem conhecer toda a história. “Além da dor que já existe, ainda é preciso enfrentar julgamentos, dúvidas e a necessidade de reconstruir a própria vida”, enfatiza.

Apesar das críticas, a comunicadora encontrou acolhimento nas pessoas mais próximas.

“Recebi muito apoio, principalmente das pessoas que realmente me conhecem. Também enfrentei julgamentos, porque infelizmente ainda existe quem questione as escolhas da mulher antes de compreender a complexidade da violência”, lamenta.

Para ela, ninguém deveria enfrentar esse processo sozinho.

 O acolhimento faz diferença

Jenifer afirma que ser ouvida com respeito foi fundamental para conseguir seguir em frente. Ela conta que sua primeira experiência ao buscar ajuda não correspondeu às expectativas. Em contrapartida, encontrou na Rede Catarina, da Polícia Militar de Porto União, um atendimento que considera decisivo.

“Fui acolhida sem julgamentos, com muito respeito, empatia e orientação. Esse atendimento me deu segurança em um dos momentos mais difíceis da minha vida e reforçou para mim o quanto a forma como uma mulher é recebida pode influenciar todo o processo”, afirma.

Segundo ela, o Brasil ainda precisa ampliar o debate sobre violência doméstica sem responsabilizar as vítimas, identificando que muitas mulheres permanecem em relações por medo, dependência emocional, financeira ou pelos filhos.

“Quanto mais informação, acolhimento e orientação existirem, mais mulheres conseguirão procurar ajuda antes que a situação se agrave”, diz.

Sua mensagem para outras mulheres é direta: “Você não está sozinha. A violência nunca deve ser normalizada. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de coragem”.

 Números mostram crescimento dos atendimentos

De acordo com a delegada Suellen Karla Pappen Maurin, a Delegacia da Mulher de União da Vitória registrou 3.375 procedimentos policiais em 2025. Em 2026, até a quarta-feira, 29 de julho, já foram 4.546 procedimentos, número que supera todo o ano anterior.

A unidade atende não apenas União da Vitória, mas também os municípios de Porto Vitória, Paula Freitas, General Carneiro, Bituruna e Cruz Machado.

Segundo a delegada, o crescimento dos registros pode estar relacionado à maior conscientização das vítimas, à ampliação dos canais de denúncia, ao fortalecimento das políticas públicas e, em alguns casos, ao aumento da própria violência.

Entre os crimes mais frequentes estão: ameaça; lesão corporal; injúria; descumprimento de medidas protetivas; estupro de vulnerável, principalmente contra crianças e adolescentes.

 Violência não escolhe classe social

Embora existam perfis recorrentes, a delegada ressalta que qualquer mulher pode ser vítima. “Nos casos de violência doméstica, predominam mulheres adultas em relacionamentos heteroafetivos, muitas delas com filhos. Já nos crimes contra a dignidade sexual, a maioria das vítimas é formada por meninas, crianças e adolescentes”, explica.

Em relação aos agressores, Suellen afirma que não existe um perfil único; porém, identifica um padrão comum:

“Muitos cresceram em ambientes marcados pela violência e reproduzem esse comportamento. Outros utilizam a violência como forma de exercer controle sobre a vítima e impedir sua autonomia”, conta.

Outros dados apresentados pela delegada endossam a necessidade de enxergar o problema, muitas vezes, dentro de casa. “Na maior parte dos casos, os autores são companheiros ou ex-companheiros. Nos crimes sexuais contra crianças e adolescentes, frequentemente pertencem ao próprio círculo familiar ou de convivência, rompendo justamente o ambiente onde a vítima deveria encontrar proteção”, relata.

Romper o ciclo da violência

Para a Delegacia da Mulher, os principais obstáculos à denúncia continuam sendo o medo, a dependência emocional e financeira, a preocupação com os filhos, a esperança de mudança do agressor e o receio de desestruturar a família.

Por isso, o atendimento humanizado e a rede de proteção são considerados fundamentais para que a mulher se sinta segura para buscar ajuda.

A orientação é clara: nenhuma mulher precisa esperar que a violência se agrave para procurar proteção.

Ao registrar a ocorrência, a vítima recebe atendimento especializado e, quando necessário, pode solicitar medidas protetivas de urgência, que são encaminhadas ao Poder Judiciário para análise.

Também é possível buscar ajuda por meio da Polícia Militar, pelo telefone 190, além dos canais nacionais Ligue 180 e Disque 100. Para assistência jurídica, a orientação é procurar a Defensoria Pública.

 

JOC