Investigação revela esquema de exploração de mulheres em União da Vitória

Uma investigação da Polícia Civil do Paraná identificou indícios de um esquema de tráfico internacional de mulheres com atuação em União da Vitória. Segundo a apuração, mulheres paraguaias eram aliciadas com promessas de trabalho e altos ganhos financeiros, mas, ao chegarem ao município, teriam sido submetidas à exploração sexual, retenção de documentos, multas, ameaças e restrições de liberdade.

Delegada Niely Luiz Mendes. (Foto: JOC).

Os detalhes foram apresentados pela delegada Niely Luiz Mendes, da Delegacia da Mulher de União da Vitória, para a imprensa. De acordo com ela, a investigação começou em junho de 2025, após a polícia receber informações sobre uma possível situação de exploração de mulheres estrangeiras em uma boate que funcionava no município.

“Essa investigação começou em junho do ano passado, desde que eu cheguei aqui e assumi a Delegacia da Mulher de União da Vitória”, explicou a delegada.

A apuração se estendeu por vários meses e envolveu diferentes diligências, além da extração e análise de dados pelo setor de inteligência da Polícia Civil. O trabalho resultou na prisão de cinco pessoas durante uma operação deflagrada em fevereiro de 2026.

Mulheres eram atraídas com promessa de ganhos elevados

Segundo Niely Mendes, a investigação confirmou a existência de uma organização criminosa que buscava mulheres no Paraguai para levá-las ao Brasil.

“Nós confirmamos, através de toda a condução da investigação, que havia sim uma organização criminosa instalada aqui na cidade, que ludibriava mulheres, captava mulheres do estrangeiro, preferencialmente mulheres paraguaias, para trazer aqui para a União da Vitória para explorá-las sexualmente”, afirmou.

O recrutamento ocorreria principalmente pelas redes sociais, especialmente pelo Facebook. Um dos integrantes investigados seria paraguaio e também teria realizado abordagens diretamente no país vizinho.

A escolha das vítimas, segundo a polícia, levava em consideração situações de vulnerabilidade.

“Eles visualizavam ali que elas tinham, às vezes, uma família mais humilde, que tinham um filho, que tinham alguma doença na família, se aproveitavam disso e prometiam, de fato, algo que era economicamente muito lucrativo”, relatou a delegada.

A diferença de valorização entre as moedas também seria utilizada para tornar as propostas mais atrativas.

Vítimas não recebiam os valores prometidos

A realidade encontrada pelas mulheres após a chegada a União da Vitória seria diferente daquela apresentada durante o aliciamento.

Segundo a delegada, elas eram submetidas à exploração sexual e a condições investigadas como possíveis situações de trabalho análogo à escravidão.

“Elas não recebiam porque elas sempre ficavam devendo”, afirmou Niely.

De acordo com a investigação, as vítimas eram submetidas a um sistema de multas. Os valores variavam entre R$ 500 e R$ 5 mil e poderiam ser aplicados por diferentes motivos, como responder de forma considerada inadequada, não cumprir ordens ou se recusar a atender determinado cliente.

“Elas eram reiteradamente, diariamente multadas e elas nunca recebiam nada, porque elas sempre deviam”, explicou a delegada.

A Polícia Civil também identificou a retenção dos documentos pessoais das mulheres, dificultando que elas deixassem o local e retornassem ao Paraguai.

Câmeras, cães e armas faziam parte da estrutura

A investigação também apontou mecanismos utilizados para controlar as vítimas. O estabelecimento era monitorado por câmeras de segurança e mantinha diversos cães, incluindo animais da raça pitbull.

“Essas mulheres ficavam sem documento, sem ter condições de voltar para casa. O local comercial ali era monitorado por imagens de câmeras de segurança”, disse Niely.

Segundo a delegada, o grupo também possuía armas de fogo, inclusive dentro da boate.

“Eles tinham arma de fogo, inclusive dentro da boate, e eles usavam essas armas de fogo justamente ali para empregar algum tipo de postura ameaçadora e as mulheres tinham muito medo deles”, relatou.

Para a polícia, a presença de armas e os demais mecanismos identificados reforçavam o controle exercido sobre as vítimas.

Uma das mulheres conseguiu fugir, mas foi sequestrada

No fim de 2025, aproximadamente seis mulheres conseguiram fugir do local, conforme a investigação. Uma delas permaneceu em União da Vitória e passou a sofrer ameaças.

A família da vítima, que vive no Paraguai, também teria sido ameaçada por meio de um número estrangeiro.

“Então o que leva a crer que ali eles tinham, sim, alguém que apoiava eles no Paraguai”, afirmou a delegada.

Posteriormente, essa mulher teria sido dopada e sequestrada. Ela recuperou a consciência dentro de um veículo e conseguiu escapar.

“Ela conseguiu saltar desse carro, ela conseguiu se esconder num matagal, e solicitar ajuda”, contou Niely.

A ocorrência chegou ao conhecimento da Polícia Civil, que já investigava a organização.

Ataques teriam ocorrido após descoberta da investigação

Segundo a delegada, por volta de janeiro de 2026, os integrantes da organização descobriram que estavam sendo investigados. A partir daquele momento, os episódios de violência teriam aumentado.

“Ali, sim, eles intensificaram as agressões. Incendiaram carros, ameaçaram as pessoas, atentaram contra a vida de duas pessoas, incendiaram uma casa de madeira com as pessoas residindo ali dentro, dormindo ali dentro”, relatou.

As duas pessoas que estavam na residência conseguiram deixar o imóvel antes que o fogo atingisse toda a estrutura. Um cachorro e um gato, porém, morreram no incêndio.

Para a delegada, as circunstâncias indicam a gravidade da ação.

“A intenção ali mesmo era ceifar a vida de duas pessoas que se encontravam ali como forma de represália por terem ajudado a mulher paraguaia que conseguiu fugir da organização criminosa”, afirmou.

Niely classificou como surpreendente a escalada de violência atribuída ao grupo após a descoberta da investigação.

“Mas a escalada de agressividade dessa organização é realmente extremamente surpreendente, principalmente depois que ficaram sabendo da nossa investigação”, disse.

Cinco pessoas foram presas

A investigação resultou na deflagração de uma operação em fevereiro de 2026, quando cinco pessoas foram presas.

Na ocasião, aproximadamente dez mulheres ainda estavam no local investigado. A Polícia Civil acionou a assistência social para garantir atendimento e acolhimento às vítimas.

O suporte também incluiu a possibilidade de retorno ao país de origem para aquelas que desejassem.

Inicialmente tratada no âmbito estadual, a investigação ganhou dimensão federal diante dos indícios relacionados ao tráfico internacional de pessoas e ao trabalho análogo à escravidão.

Segundo a delegada, a apuração não necessariamente terminou com as prisões.

“Essa é, digamos, uma primeira parte, e não é descartada a possibilidade de ter outras pessoas envolvidas”, afirmou.

Delegada faz alerta sobre falsas propostas de trabalho

Além de detalhar a investigação, Niely Mendes fez um alerta para mulheres que recebem propostas de trabalho com promessa de ganhos elevados.

“Essa questão da exploração sexual, ela infelizmente é algo muito lucrativo, mas não é lucrativo para as mulheres”, destacou.

A orientação é pesquisar quem está oferecendo a oportunidade, verificar o histórico dessas pessoas e conversar com mulheres que já tenham trabalhado no local.

“Desconfiem, inclusive, quando alguém entrar em contato, tentar ali chamar vocês para trabalharem em algum local”, alertou a delegada.

Segundo Niely, sinais como retenção de documentos, restrição de liberdade, agressões e cobranças abusivas devem ser comunicados imediatamente.

“Se eventualmente acontecer, o primeiro sinal ali de limitação de liberdade, o primeiro sinal de agressividade, de multas que não podem ser aplicadas, relate isso a pessoas de confiança e, se possível, relate à polícia de forma imediata”, orientou.

A delegada também afirmou que a Polícia Civil continuará acompanhando situações relacionadas ao caso.

“A investigação vai ser conduzida pela Polícia Civil, a Polícia Civil nunca vai deixar de prestar apoio a essas mulheres ou investigar o que tiver que ser investigado”, declarou.