Voluntárias transformam farinha, carinho e dedicação em acolhimento
Há histórias que aquecem o coração. Algumas têm grandes acontecimentos como protagonistas. Outras são construídas de maneira silenciosa, semana após semana, com farinha, ovos, açúcar, algumas receitas guardadas com carinho e, principalmente, muita disposição para ajudar.
É uma dessas histórias que o Histórias que Valem conta desta vez.
Na cozinha da Casa de Apoio Amor Fraterno, em Porto União, Maria Erlete Gabarbo Martins, Cecília Gelchaki Gasnhar e Ana Ternoski Granatyr colocam as mãos na massa para preparar bolachas, pães, bolos e outras receitas destinadas às pessoas acolhidas pela instituição.
O processo é artesanal. Bolacha por bolacha, fornada após fornada. Mas há um ingrediente que não aparece escrito em nenhuma receita: o trabalho voluntário.
Maria já dedica 12 anos à instituição. Para ela, reservar um dia da semana para estar na Casa de Apoio virou parte da própria rotina.
“É muito gratificante estar aqui ajudando, ser voluntária da Casa de Amor e poder ajudar os abrigados que estão aqui. É um amor que nós temos por eles”, contou.
A história começou ainda no período em que as voluntárias ajudavam na produção dos tradicionais pastéis vendidos em ações da instituição. Com o passar dos anos, o trabalho mudou, mas elas permaneceram.
Cecília também acompanhou essa caminhada. Hoje, além das bolachas, o grupo produz cerca de 18 pães por semana, todos destinados às pessoas hospedadas na Casa de Apoio.
“É gratificante demais poder fazer por quem fica aqui. Não tem preço”, resumiu.
A bolacha de fubá que virou a preferida
Entre conversas, risadas e lembranças, as voluntárias seguem trabalhando. E quem passa algum tempo hospedado na instituição acaba também criando suas preferências.
Uma das campeãs é a bolacha de fubá com erva-doce.
Segundo as voluntárias, há hóspedes que perguntam quando haverá uma nova fornada. Mas o cardápio não para por aí: também saem da cozinha bolos, pães e até cueca virada.
Tudo para acompanhar aquele cafezinho que, em um período delicado da vida, pode carregar um pouco do sabor e da lembrança de casa.
Ana é uma das integrantes mais recentes do grupo. Aos poucos, passou a acompanhar as outras voluntárias nos dias de produção.
“Quando elas vêm fazer bolacha e pão, elas sempre me convidam e eu estou amando”, contou.
Um compromisso que atravessa os anos
Para Maria e Cecília, o trabalho voluntário já faz parte do calendário familiar.
Quando chega o dia de ir para a Casa de Apoio, a família já sabe: não há horário certo para voltar. O trabalho só termina quando a última fornada sai do forno.
Maria sai do bairro São Bernardo, em União da Vitória. Cecília deixa sua casa no São Basílio Magno. Ana mora na Cidade Nova. Cada uma parte de um ponto diferente, mas todas seguem para o mesmo destino e com o mesmo propósito.
E são histórias como essas que ajudam a manter uma estrutura que acolhe pessoas justamente quando elas estão vivendo alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas.
Uma casa para quem precisa estar perto do tratamento
A Casa de Apoio Amor Fraterno recebe gratuitamente pacientes e acompanhantes de pessoas que realizam tratamento de saúde no Vale do Iguaçu.
Quem chega encontra hospedagem, alimentação e acolhimento. Não há cobrança pela permanência.
A presidente da instituição, Laurete Conte, explica que o trabalho dos voluntários é fundamental para que tudo continue funcionando.
“As nossas voluntárias são o carro-chefe, sempre foram e serão o carro-chefe da nossa instituição. Se não fosse o trabalho voluntário, nós não conseguiríamos chegar onde chegamos hoje”, afirmou.
Alguns voluntários já acumulam mais de 18 anos de dedicação à entidade.
A instituição é filantrópica e, segundo Laurete, não possui vínculo financeiro com governos municipal, estadual ou federal. A manutenção ocorre por meio das doações da comunidade e do trabalho realizado no Bazar Amor Fraterno.
Roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos, livros e vários outros objetos podem ser destinados ao bazar. O que já não tem utilidade para uma família pode ajudar diretamente a manter o acolhimento de outra.
Mais do que uma bolacha
Para quem olha rapidamente, pode parecer apenas uma tarde preparando bolachas.
Mas é muito mais.
É alguém que deixa sua casa e sua família por algumas horas para cuidar de uma pessoa que talvez nunca tenha conhecido antes.
É transformar ingredientes simples em uma mesa de café capaz de proporcionar alguns minutos de normalidade para quem saiu de sua cidade em busca de tratamento.
É sentar para conversar com um paciente, ouvir sua história e oferecer companhia.
É fazer com que alguém que está longe de casa se sinta, mesmo que por alguns instantes, dentro dela.
A própria filosofia da Casa de Apoio nasceu dessa ideia: oferecer um ambiente onde as pessoas possam encontrar conforto, acolhimento e dignidade durante períodos de doença e dor.
E quando a última fornada fica pronta, Maria, Cecília e Ana podem voltar para casa.
Até a próxima semana.
Porque algumas histórias não precisam de grandes feitos para serem extraordinárias.
Às vezes, elas cabem em uma bolacha de fubá, em uma xícara de café e na decisão de dedicar algumas horas da própria vida para tornar mais leve a vida de outra pessoa.
Afinal, são essas as Histórias que Valem.





