Dona Olinda adapta a casa e a vida para enfrentar o rio Iguaçu
Viver próximo ao rio Iguaçu, em União da Vitória, fez com que Dona Olinda aprendesse, muitas vezes da forma mais difícil, a conviver com as enchentes.
Moradora há 13 anos de uma residência no bairro Cidade Jardim, ela acumulou perdas, momentos de angústia e longos períodos longe de casa. Com o passar dos anos, porém, transformou a experiência em estratégias para reduzir os prejuízos a cada nova cheia.
Na enchente de setembro deste ano, a água chegou a aproximadamente 20 centímetros dentro da garagem. A residência, por ser mais elevada, não foi atingida internamente.
“Graças a Deus a casa é mais alta. Precisaria ainda de cerca de 1,5 metro para entrar dentro de casa”, relata.
Dona Olinda deixou a residência no dia 13 de setembro e foi para a casa da filha, nas proximidades do Colégio São Cristóvão em um bairro próximo que também pertence ao distrito de São Cristovão.
Desta vez, não precisou retirar todos os pertences. Parte deles foi levada para um espaço que ela construiu justamente pensando nas enchentes.
A experiência mais traumática ocorreu em 2014. Segundo ela, naquela ocasião praticamente tudo foi perdido.
“Eu fiquei sem nada, de não ter nenhum copo para tomar água. Foi muito corrido. Eu estava com as crianças pequenas, meus netos eram todos pequenos”, recorda.
Naquele momento, Dona Olinda ainda tentou organizar os objetos para retirá-los da residência. Com muitas famílias precisando de auxílio e a água avançando rapidamente, porém, o caminhão que faria a retirada já não conseguiu chegar até a casa.
“Eu não tirei nada. Saí só com as crianças. Foi bem difícil”, lembra.
Em 2023, mais uma grande cheia trouxe novamente apreensão. Dona Olinda conta que chegou a permanecer cerca de 45 dias longe de casa. Naquela ocasião, aproximadamente 1,5 metro de água entrou na residência.
“Eu tenho 1,47 metro. A água ficou um pouquinho mais alta do que eu. É muita água”, compara.
Um sótão pensado para as enchentes
Depois de anos convivendo com a elevação do rio Iguaçu, Dona Olinda decidiu adaptar a própria residência.
Ao se aposentar, em 2022, contratou um empréstimo consignado e utilizou o dinheiro para construir um sótão. O espaço passou a funcionar como uma espécie de refúgio para móveis, eletrodomésticos e outros pertences quando o rio começa a subir.
“Eu não falei com ninguém. Fui lá, fiz um empréstimo com a minha aposentadoria e fiz essa parte lá em cima. Nossa, para mim foi uma bênção. Ajuda muito porque deixo minhas coisinhas lá”, explica.
Ela também instalou câmeras na residência. A preocupação não é somente com a água. Quando as famílias precisam abandonar suas casas, surge também o medo de furtos.
“A câmera não é garantia, mas ajuda a inibir que venham mexer nas casas que ficam vazias. As pessoas ainda sofrem com isso. É bem complicado”, afirma.
Móveis leves e menos objetos
As sucessivas enchentes também ensinaram outra lição: dentro de uma casa localizada em área de risco, cada quilo faz diferença quando é necessário retirar tudo rapidamente.
Por isso, Dona Olinda passou a evitar móveis grandes e pesados.
“Nós que moramos em área de risco não podemos ter móveis pesados. Aprendi na prática”, conta.
Ela cita como exemplo uma geladeira pesada, que acabou sendo levada para Porto Vitória, além de um sofá que exigiu grande esforço para ser colocado no andar superior.
“A gente conseguiu, na força, colocar aquele sofá lá para cima, mas eu vi que não dá. Tem que ter coisas leves, que a gente possa transportar com mais facilidade e de rápido manuseio.”
Uma solução diferente foi encontrada na cozinha. Um dos balcões foi construído em alvenaria e revestido com cerâmica. Se a água entrar, não é necessário transportá-lo.
“Depois volta, lava bem e dá para usar novamente”, explica.
Para ela, a regra hoje é simples: dentro de casa, manter apenas o necessário.
“Com enchente tem que ter as coisas mais práticas.”
Ela já sabe quando é hora de sair
A experiência também fez Dona Olinda criar uma espécie de parâmetro pessoal para acompanhar o rio Iguaçu.
“Eu saio com seis metros”, afirma.
Na cheia mais recente, porém, ela decidiu deixar a residência antes disso. No dia 13 de setembro, quando saiu de casa, o rio estava em aproximadamente 5,85 metros e a água já avançava pela região.
Mesmo sabendo que poderia permanecer por algum tempo, Dona Olinda prefere não arriscar.
“O vizinho tem bote, eu poderia sair com ele, mas minha filha não deixa eu ficar aqui. É perigoso. Depois teria que pedir ajuda para os outros.”
Agora que retornou para casa, parte dos pertences continua no sótão. Ela trouxe para baixo somente os objetos mais leves e necessários.
A decisão está relacionada ao receio de que novas chuvas possam novamente elevar o nível do Iguaçu.
“Todos os dias eu acompanho a previsão. Quando chove mais forte, já penso: ‘Meu Deus, só falta esse rio subir de novo’.”
Além das previsões meteorológicas, Dona Olinda acompanha diariamente as medições do rio divulgadas pelos meios de comunicação.
“Todos os dias eu fico ali e vejo vocês falando da régua.”
Entre enchentes, mudanças, perdas e recomeços, a rotina ensinou Dona Olinda a observar o rio e adaptar a própria casa. Para outras famílias que vivem em situação semelhante, ela resume o aprendizado acumulado ao longo dos anos:
“Ter móveis mais leves, coisas leves para não precisar sofrer tanto. Muitas vezes não tem como transportar móveis pesados e nem para onde levar. Tendo coisas mais leves fica muito mais fácil. E menos coisas, só o necessário.”



