Golpe do falso advogado faz novas vítimas e acende alerta no Vale do Iguaçu

Uma moradora do Rio Grande do Sul perdeu mais de R$ 255 mil, em outubro do ano passado, após ser vítima do golpe do falso advogado — uma fraude que tem se espalhado por todo o país.

No Vale do Iguaçu, o crime também já fez vítimas.

Em um dos casos registrados na região, uma pessoa perdeu R$ 70 mil após acreditar em mensagens enviadas por criminosos que se passaram por um profissional da advocacia.

Os números mais recentes indicam um cenário de atenção, mas também de avanço no enfrentamento ao golpe do falso advogado.

Em 2025, no Paraná foram registradas 2.103 denúncias, sendo 557 casos com prejuízo (26,5%) e 1.546 sem perdas financeiras (73,5%).

Já em 2026, até o momento, foram contabilizados 1.431 registros relacionados ao golpe do falso advogado, com 310 casos com prejuízo (21,66%) e 1.121 sem prejuízo (78,34%).

No Brasil, em 2025, foram registradas 14,6 mil denúncias em todo o país, um número que cresceu exponencialmente em comparação aos anos anteriores.

Segundo o presidente da Comissão de Fiscalização da Atividade Profissional da OAB Paraná, Leandro Pereira, o aumento das denúncias, aliado à redução dos prejuízos, mostra que a informação tem ajudado a prevenir novos casos.

“É resultado claro do esforço de monitoramento e de informação que temos feito na OAB Paraná, com grande apoio da imprensa. É muito importante que as vítimas denunciem, porque elas auxiliam a polícia nas investigações”, destacou.

Advogado do Vale do Iguaçu relata tentativa de golpe com uso de sua imagem

Um advogado do Vale do Iguaçu também relatou ter sido vítima do golpe do falso advogado, após criminosos utilizarem sua fotografia e dados profissionais para enganar um cliente.

De acordo com ele, os golpistas copiaram a imagem de seu perfil profissional no Instagram e criaram um número de telefone empresarial para entrar em contato com a vítima.

A abordagem incluía mensagens informando supostas novidades sobre um processo judicial e a necessidade de pagamento para liberação de valores.

Os criminosos chegaram a enviar documentos falsos contendo dados reais do processo, como nome do cliente, CPF e número da ação. Em seguida, solicitaram uma transferência via Pix, alegando tratar-se de honorários ou taxas judiciais.

O cliente desconfiou da situação, principalmente devido a erros de português nas mensagens, e interrompeu o contato. Posteriormente, novos números continuaram tentando se passar pelo advogado, utilizando a mesma fotografia.

O profissional registrou boletim de ocorrência e reuniu provas, como prints das conversas, que foram entregues à Polícia Civil.

Ele alerta que perfis públicos nas redes sociais podem facilitar a ação dos golpistas, que utilizam imagens e informações disponíveis para aplicar o golpe.

Denunciar é fundamental para evitar novas vítimas

A OAB Paraná reforça que a denúncia é essencial para combater o golpe do falso advogado, apoiar as investigações e impedir que outras pessoas sejam enganadas.

A orientação é que qualquer tentativa de fraude seja comunicada imediatamente às autoridades policiais e à própria Ordem.

O presidente da OAB de União da Vitória, Omar Cador Ramos Eddine, também se manifestou sobre o tema.

“São quadrilhas muito bem organizadas que vêm praticando esse tipo de infração, esse tipo de crime. Os processos judiciais, hoje, são todos eletrônicos, ou seja, acessados pela internet, por meio dos portais dos tribunais. E os processos, por sua essência, são públicos, com algumas exceções. Essa publicidade decorre da norma e traz a garantia de que o Poder Judiciário está atuando. Por esse motivo, alguns profissionais podem ter acesso aos autos, e são esses profissionais que vêm fornecendo dados para essas quadrilhas”.

Segundo Omar, eles fornecem dados do cliente, número de telefone, tudo o que consta no processo, valores que eventualmente há a receber, e acabam criando perfis falsos de WhatsApp de advogados, o que tem gerado imensos problemas e transtornos.

O presidente da OAB local, deixa uma mensagem aos advogados:

“Quando isso acontecer, além da divulgação nas redes sociais alertando os clientes, o advogado deve necessariamente fazer o procedimento formal. No site da OAB Paraná existe um campo específico para o registro dessa ocorrência, porque a OAB vem atuando junto à Secretaria de Segurança Pública, e já houve a prisão de muitas pessoas envolvidas nesse crime. Portanto, é primordial que o advogado faça o registro, tanto na polícia quanto no site da OAB, para essa finalidade.”

Já aos clientes, a orientação é sempre conversar com o advogado por meio do perfil que já está registrado em seu celular, para confirmar essas informações.

“Eu mesmo fui vítima, entre o último sábado e segunda-feira, de pessoas se passando por mim, e muitos clientes enviaram mensagens ao meu perfil de WhatsApp confirmando que se tratava de um golpe. É muito difícil o advogado trocar o número de telefone, e, se houver essa troca, ela será comunicada ao cliente”, alertou Eddine.

Ele ainda lembrou, que em caso de dúvida, o cliente deve marcar um horário com seu advogado de confiança. “Isso é justamente para coibir a ação dos golpistas, porque estamos vivendo tempos difíceis”, afirmou o presidente.

Ocorrências registradas

O delegado responsável pela 4ª Subdivisão Policial (4ª SDP) de União da Vitória informou que, somente neste ano, foram registrados 11 casos do golpe do falso advogado na região. Em um dos episódios, a vítima teve um prejuízo de R$ 70 mil.

Segundo o delegado, o golpe segue um padrão já identificado pelas autoridades.

“Temos um caso de valor elevado, de R$ 70 mil. O golpe é sempre o mesmo: os criminosos criam um WhatsApp com a foto do advogado, mas o número de telefone não é dele. Trata-se de um número aleatório. Por isso, não é clonagem, e sim a utilização de um número diferente, com a fotografia retirada do Instagram ou de outra rede social, e passam a solicitar depósitos para a suposta liberação de valores”, explicou.

Ainda de acordo com a autoridade policial, há indícios de que os golpistas utilizem plataformas jurídicas para obter informações processuais.

“Provavelmente, o golpista tem acesso a contas em plataformas como o JusBrasil ou outras ferramentas utilizadas para acompanhamento de ações em todo o país, e, a partir dessas informações, entra em contato com a vítima”, afirmou.

A Polícia Civil de Curitiba realizou recentemente uma operação que resultou na prisão de suspeitos envolvidos nesse tipo de crime, com base em dados repassados por delegacias de diversas regiões.

Em alguns casos, os criminosos orientam a vítima a realizar transferências sucessivas de valores. Há situações em que o golpista afirma que a conta bancária precisa ser esvaziada para que o juízo confirme a inexistência de saldo, justificativa utilizada para induzir o envio do dinheiro.