União da Vitória e Porto União somam quase 8,7 mil beneficiários do Bolsa Família e reforçam papel da proteção social na região

O Programa Bolsa Família continua sendo um dos principais instrumentos de combate à pobreza no Brasil, atendendo famílias em situação de vulnerabilidade social e garantindo acesso a direitos básicos como alimentação, educação e saúde. Nos municípios do Paraná e Santa Catarina, os números revelam a dimensão do programa e também apontam para um dos seus maiores desafios: transformar a transferência de renda em uma porta de saída por meio de oportunidades de trabalho e inclusão econômica.

Para o ex-prefeito de União da Vitória, Bachir Abbas, o programa possui importância social reconhecida, independentemente de governos ou ideologias políticas. Segundo ele, o Bolsa Família atravessou diferentes administrações federais e representa uma política pública nacional que impacta diretamente os municípios.

“O Bolsa Família ajuda muitas famílias em situação de vulnerabilidade a suprir necessidades básicas. A principal delas é ter o que colocar na mesa. Para qualquer gestor, é um grande desafio garantir que não falte o básico para a população”, afirmou.

Abbas destaca que o programa não se limita ao repasse financeiro, pois possui condicionantes relacionadas à permanência escolar e ao acompanhamento de saúde. “Ele exige frequência escolar dos adolescentes, o que ajuda no combate à evasão escolar, e também atua na saúde, com acompanhamento da vacinação e do pré-natal das gestantes. São aspectos importantes dos benefícios”, explicou.

Apesar dos avanços, o ex-prefeito aponta que o principal desafio é criar uma transição para que as famílias possam conquistar autonomia. “Quando foi criado, o Bolsa Família deveria ser um programa de transição. As pessoas receberiam o benefício por um período e, com qualificação e oportunidades, poderiam sair dele. O grande desafio dos próximos governos é encontrar essa regra de transição”, afirmou.

Segundo Abbas, essa mudança passa pela geração de empregos, capacitação profissional e criação de oportunidades locais. “As pessoas não querem viver recebendo auxílio. Elas querem uma oportunidade de emprego, querem colocar comida na mesa e dar dignidade para suas famílias”, destacou.

Bolsa Família como instrumento de justiça social

O professor, cientista político e sociólogo Daniel Andres Baez Brizuena avalia que o programa deve ser analisado como uma política pública de justiça social e garantia de cidadania. Para ele, a crítica aos programas sociais muitas vezes ignora a realidade enfrentada por famílias em situação de pobreza. “Nenhuma família consegue pensar em futuro, estudo ou trabalho se hoje não tem o que comer. O Bolsa Família garante, além do prato de comida, cidadania”, afirmou.

Segundo Brizuena, o programa promove inclusão porque está ligado às áreas de educação e saúde. “Ele exige contrapartidas. Isso tira muitas crianças da rua e leva para a sala de aula e para o posto de saúde. Isso é investimento”, explicou. Por outro lado, o pesquisador ressalta que o Bolsa Família, sozinho, não é suficiente para o desenvolvimento social. “Nenhum programa social faz milagre sozinho. Para romper de verdade o ciclo da pobreza e da marginalização, ele precisa estar acompanhado de outras políticas públicas”, disse.

Entre as medidas necessárias, ele cita educação de qualidade, cursos profissionalizantes, incentivo ao empreendedorismo, fortalecimento da agricultura familiar, atração de empresas e desenvolvimento regional.

“Bolsa Família é uma ponte. Ele garante dignidade hoje, mas a autonomia econômica é o projeto de amanhã”, declarou

Números mostram impacto regional

Os dados do Governo Federal em relação ao mês de julho de 2026 mostram a presença do programa em diversos municípios do Paraná e Santa Catarina. No Paraná, União da Vitória registrou 2.321 famílias atendidas, beneficiando 6.645 pessoas, com investimento federal de R$ 1,58 milhão.

O município apresentou acompanhamento educacional de 95,2% e Cadastro Único com 7.520 famílias cadastradas. Em Bituruna, 4.032 pessoas são atendidas pelo programa, distribuídas em 1.423 famílias. O investimento federal no município foi de R$ 946.139,00, com benefício médio de R$ 669,12. O acompanhamento da educação chegou a 99,2% e o Cadastro Único reuniu 4.171 famílias. São Mateus do Sul registrou 1.253 famílias atendidas, 3.774 beneficiários e investimento de R$ 755,5 mil. Já Cruz Machado contabilizou 1.193 famílias e 3.360 pessoas beneficiadas, com repasse federal de R$ 808,1 mil.

Outros municípios paranaenses também apresentaram números relevantes: General Carneiro teve 1.105 famílias atendidas; Antônio Olinto, 924 famílias; Paulo Frontin, 294 famílias; Paula Freitas, 333 famílias; Porto Vitória, 328 famílias.

Em Santa Catarina, Canoinhas registrou 1.981 famílias beneficiadas, alcançando 5.517 pessoas, com investimento de R$ 1,36 milhão. Mafra teve 1.671 famílias atendidas e repasse de R$ 1,15 milhão. Porto União registrou 656 famílias beneficiárias e 1.971 pessoas atendidas, com investimento federal de R$ 432,6 mil.

O município também apresentou bons índices de acompanhamento: 95,7% na educação e 84,1% na saúde. Três Barras contabilizou 663 famílias atendidas e 2.085 pessoas beneficiadas, recebendo R$ 448,1 mil. O município apresentou 96,4% de acompanhamento educacional e 98% na área da saúde.

Timbó Grande registrou 878 famílias atendidas e 2.297 beneficiários, com investimento de R$ 611,6 mil. O Cadastro Único reúne 1.885 famílias cadastradas no município. Também foram registrados atendimentos em Bela Vista do Toldo (345 famílias), Irineópolis (481), Itaiópolis (534), Major Vieira (479), Monte Castelo (730) e Papanduva (468), demonstrando a abrangência do Programa Bolsa Família em toda a região do Planalto Norte catarinense.

 

Educação e saúde como contrapartidas

Os dados municipais mostram que o Bolsa Família vai além da transferência financeira. As condicionalidades obrigatórias fazem com que crianças, adolescentes, gestantes e mulheres tenham acompanhamento nas áreas de educação e saúde.

Em muitos municípios, os índices de acompanhamento escolar superam a média nacional de 87,1%. Porto União, Três Barras, Bituruna, Cruz Machado, Irineópolis e Antônio Olinto apresentaram taxas próximas ou superiores a 95%.

Na saúde, alguns municípios também registraram índices elevados, como Irineópolis, com 97,6% de acompanhamento, e Três Barras, com 98%. Por outro lado, os dados revelam desafios, principalmente no acompanhamento de crianças menores de sete anos em alguns municípios, indicando a necessidade de ampliar ações de busca ativa e atendimento.

Programas semelhantes existem em países desenvolvidos, afirma pesquisador

Daniel também destaca que programas de transferência de renda não são uma realidade exclusiva do Brasil. Segundo ele, países considerados referência em desenvolvimento mantêm políticas semelhantes de proteção social, como o Bürgergeld, na Alemanha, o RSA (Renda de Solidariedade Ativa), na França, o Universal Credit, no Reino Unido, e o SNAP, programa de assistência alimentar dos Estados Unidos.

Na avaliação do pesquisador, políticas sociais representam uma forma de enfrentamento das desigualdades históricas e devem ser compreendidas como responsabilidade do Estado. “É uma dívida histórica. É dever do Estado garantir direitos onde ele não chegou durante séculos”, afirma.

Brizuena também critica discursos que, segundo ele, minimizam a existência da pobreza em União da Vitória ou tratam programas sociais de forma preconceituosa. Para o pesquisador, o Bolsa Família evidencia desigualdades construídas ao longo de gerações e reforça a necessidade de políticas públicas capazes de ampliar oportunidades. “Justiça social é reconhecer o passado, combater o preconceito do presente e construir oportunidades para o futuro”, conclui.