Documentário conecta Guerra do Contestado aos desafios da informação nos dias atuais

Mais de um século depois da Guerra do Contestado, um dos conflitos mais marcantes da história do Sul do Brasil volta a ser tema de reflexão em um novo documentário produzido no Vale do Iguaçu. “Informação Contestada”, uma produção do Jornal O Comércio em parceria com a Moca Audiovisual, busca aproximar os acontecimentos do passado de questões presentes no cotidiano, especialmente os desafios relacionados à informação, à desinformação e à construção das narrativas.

Com 1h03 de duração, o documentário terá sua sessão de estreia para convidados no dia 28 de agosto, às 19h45, no Cine Gracher de Porto União, anexo à Havan. A produção de 2026 reúne pesquisadores, profissionais da comunicação e outros especialistas para discutir diferentes aspectos da Guerra do Contestado e suas relações com a sociedade contemporânea.

A proposta nasceu do desejo da direção do Jornal O Comércio em realizar uma produção referente ao conflito. Segundo o diretor e roteirista da Moca Audiovisual, Ivan Tracz, a ideia inicial partiu de um convite do diretor-geral do Grupo Verde Vale de Comunicação, Caique Agustini, para desenvolver uma produção relacionada à Guerra do Contestado que também dialogasse com o momento vivido pelo jornal, exatamente no anos em que completa 95 anos.

A partir das discussões, surgiu a proposta de ir além de uma abordagem exclusivamente histórica. “É preciso aprender história para não repetir os mesmos erros do passado”, explica Tracz ao apresentar a premissa que orientou a produção.

Do conflito histórico à informação

O próprio título do documentário conduz uma das principais perguntas levantadas pela produção: o que significa uma informação ser contestada? A equipe procurou relacionar essa questão às narrativas construídas durante a Guerra do Contestado, analisando como diferentes versões dos acontecimentos podem influenciar a compreensão de um conflito.

Para construir o roteiro, foram realizadas entrevistas com três historiadores, uma filósofa e um jornalista, selecionados pela experiência e pela capacidade de contribuir para os diferentes aspectos abordados no filme.

A intenção, segundo o diretor, não foi apenas apresentar informações sobre a Guerra do Contestado, mas estimular o público a desenvolver uma postura mais crítica diante da história e das informações que recebe.

“Nosso esforço foi direcionado para o uso prático da história”, explica Tracz. A proposta é mostrar que acontecimentos estudados no passado podem ajudar a interpretar situações que continuam presentes na sociedade.

Uma história contada também pelas imagens

A construção visual foi outro elemento utilizado para aproximar o público do período histórico. De acordo com o publicitário Rafael Zipperer Ribas, responsável pela direção de fotografia, colorização e animação na Moca Audiovisual, a equipe definiu previamente uma linguagem inspirada nos jornais e documentos antigos. Texturas de papel, documentos envelhecidos, recortes de jornais e uma estética marcada por tons quentes e baixa saturação foram incorporados ao projeto.

A animação teve papel importante principalmente porque a Guerra do Contestado ocorreu em um período em que os registros visuais eram limitados. “Por se tratar de um período em que eram raros os registros visuais, a animação foi feita para suprir essa limitação que teríamos e também como uma forma de tornar o conteúdo ainda mais explicativo ao público. Foram utilizados representações de mapas, fotos reais, imagens ilustrativas, recortes de jornais, entre outros”, contou.

Segundo Ribas, a colorização também foi pensada para manter uma identidade visual uniforme. Nos depoimentos, foram utilizados cenários e iluminação mais escuros, enquanto as cenas externas receberam tratamento com cores quentes, baixa saturação e elementos que remetem à aparência de filmes antigos.

Nas áreas do conflito

Entre os momentos que mais marcaram a produção, Rafael destaca as gravações realizadas no Banhado Grande, em Irani, região relacionada ao início do conflito.

“Visitamos a região do conflito, o monumento e suposto túmulo do José Maria. O clima também colaborou para estética do filme, a neblina densa e mata local casaram perfeitamente com a proposta visual que tínhamos e proporcionou imagens marcantes do local”, disse.

A música como parte da narrativa

A trilha sonora também possui uma ligação direta com a equipe responsável pelo documentário. Ivan Tracz integra a banda Vilmem, que já havia desenvolvido um projeto musical relacionado ao Contestado.

Para o documentário, foram utilizadas as faixas do álbum “Vilmem – Ritmo Contestato”, com a retirada dos vocais, transformando as músicas em trilha instrumental para acompanhar a narrativa.

Um documentário para além da história

Tracz afirma que um dos desafios de produzir um documentário histórico está em equilibrar as diferentes contribuições dos entrevistados sem comprometer a progressão da narrativa. O roteiro foi estruturado para apresentar inicialmente o contexto do conflito, avançar para os grupos afetados pelas transformações sociais e, posteriormente, analisar diferentes lados do embate. A partir daí, o documentário conduz o espectador para uma reflexão sobre questões contemporâneas.

Durante a edição, algumas contribuições dos entrevistados também levaram a mudanças na forma como determinadas questões foram apresentadas. Segundo o diretor, embora as perguntas fossem previamente estabelecidas, os conhecimentos e perspectivas individuais dos participantes trouxeram novos desdobramentos ao material.

“O resultado pretendido é uma produção que não apenas conte novamente a história da Guerra do Contestado, mas que estimule o público a questionar como as informações são produzidas, transmitidas e interpretadas”, destaca.

Para Rafael Zipperer Ribas, a expectativa é que o filme também possa cumprir uma função educativa e despertar o interesse do público pela história regional.

“Espero que se torne referência de material educativo com o tema do Contestado e que desperte no público o interesse de conhecer ainda mais sobre essa história da nossa região”, complementa.

Ao aproximar um conflito ocorrido há mais de cem anos dos dilemas atuais relacionados à informação, “Informação Contestada” propõe uma pergunta que ultrapassa os limites da história regional: se a maneira como uma sociedade conhece o passado depende das narrativas que chegam até ela, quem controla a informação também pode influenciar a forma como enxergamos a realidade? Aguardamos uma das respostas no cinema!