Por que tantos sapos aparecem por aqui após as chuvas?

Com a grande quantidade de chuva registrada nas últimas semanas, moradores de União da Vitória e Porto União têm percebido uma presença maior de sapos em quintais, jardins, ruas e até dentro das residências.

O fenômeno chama a atenção e desperta dúvidas: por que esses animais aparecem em grande quantidade? Eles representam algum perigo? E o que fazer quando um sapo entra em casa?

A explicação está diretamente relacionada às características ambientais das duas cidades, marcadas pela presença do Rio Iguaçu, córregos, banhados e terrenos que acumulam umidade.

Para entender o fenômeno, a reportagem do Jornal O Comércio conversou com o biólogo, professor e pesquisador Clóvis Roberto Gurski, do curso de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus de União da Vitória.

O especialista explica que a presença desses animais é natural e desempenha um papel importante no equilíbrio ambiental da região.

Chuvas e áreas alagadas favorecem o aparecimento dos sapos

Segundo o professor, os sapos, rãs e pererecas pertencem ao grupo dos anfíbios e dependem diretamente da umidade para sobreviver. Isso ocorre porque possuem uma pele fina, que também participa do processo de respiração, tornando-os mais vulneráveis à perda de água em ambientes secos.

Com as chuvas frequentes, o solo permanece úmido e poças, valetas, banhados e pequenos reservatórios naturais acumulam água, criando condições favoráveis à circulação e à reprodução desses animais.

Na região de União da Vitória e Porto União, essas condições são especialmente comuns pela proximidade com o Rio Iguaçu e pela existência de áreas naturalmente úmidas.

Gurski explica que três fatores contribuem para o aumento das aparições: as chuvas recentes, as condições de temperatura e o período reprodutivo das espécies.

Durante a reprodução, os sapos se deslocam em direção a ambientes com água, enquanto os machos emitem sons característicos para atrair as fêmeas. Por isso, também é comum que os moradores percebam um aumento da vocalização desses animais durante a noite.

O nível do Rio Iguaçu influencia?

Embora as cheias do Rio Iguaçu possam contribuir para a ampliação das áreas úmidas, o biólogo esclarece que a elevação do nível do rio não é necessariamente a principal responsável pelo aparecimento dos sapos.

De acordo com ele, a chuva e a umidade do ambiente são fatores mais diretamente relacionados ao comportamento desses animais.

A água acumulada reduz o risco de desidratação, favorece a presença de insetos que servem de alimento e cria novos ambientes de reprodução.

O nível dos rios pode exercer influência indireta, especialmente quando ocorrem alagamentos em terrenos e banhados. Entretanto, enchentes também podem prejudicar os anfíbios, arrastando ovos, girinos e até animais adultos.

Outro aspecto importante é a temperatura. Durante setembro, quando União da Vitória registrou períodos chuvosos com temperaturas entre 10 °C e 14 °C, algumas espécies podem ter reduzido sua atividade nos horários mais frios, tornando-se mais visíveis à noite ou em momentos de temperatura um pouco mais elevada.

Sapos são perigosos para as pessoas?

Uma das principais preocupações dos moradores está relacionada ao possível contato com os animais.

O professor esclarece que, de maneira geral, os sapos não representam perigo significativo para os seres humanos, desde que não sejam manipulados inadequadamente.

Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, os sapos não atacam seres humanos nem lançam veneno à distância.

Entretanto, algumas espécies, especialmente os sapos-cururus, possuem glândulas localizadas atrás dos olhos que podem liberar substâncias tóxicas como mecanismo de defesa.

Essa secreção pode provocar problemas quando entra em contato com a boca, os olhos ou ferimentos.

O risco é maior quando o animal é apertado, mordido ou manipulado de maneira agressiva.

Sapo Rhinella marina – cururu (pode ser claro ou escuro)

Atenção redobrada com cães e gatos

Se para os seres humanos o risco costuma ser pequeno, para os animais domésticos a situação exige maior cuidado.

Cães, principalmente, podem tentar morder ou carregar sapos na boca, entrando em contato direto com a secreção tóxica produzida pelas glândulas de defesa.

Segundo Gurski, esse contato pode provocar intoxicações graves e, dependendo da quantidade de toxina absorvida, oferecer risco de morte.

Entre os principais sinais de intoxicação estão salivação intensa, espuma na boca, vermelhidão, vômitos, tremores, dificuldade de coordenação e alterações nos batimentos cardíacos. Nos casos mais graves, podem ocorrer convulsões.

Se um cachorro ou gato morder um sapo, a recomendação é afastá-lo imediatamente do animal e procurar atendimento veterinário com urgência.

Enquanto busca ajuda, o tutor pode limpar cuidadosamente a região da boca com um pano úmido, evitando que o animal engula a secreção. Não se deve provocar vômito nem oferecer leite, óleo, medicamentos ou receitas caseiras.

O que fazer quando um sapo aparece dentro de casa?

Apesar do susto que podem provocar, os sapos não devem ser mortos ou agredidos.

O professor alerta que práticas como jogar sal, detergente, água sanitária ou inseticida sobre os animais podem causar sofrimento e morte, além de prejudicar o meio ambiente.

A orientação é manter crianças e animais domésticos afastados e, quando possível, abrir uma passagem para que o sapo retorne sozinho ao ambiente externo.

Caso seja necessário retirá-lo, o ideal é utilizar luvas, um balde ou uma caixa e um pedaço de papelão, evitando contato direto com a pele e, principalmente, pressionar o corpo do animal.

Depois, ele deve ser colocado em um local próximo, seguro, sombreado e úmido, sem transportá-lo para ambientes distantes ou desconhecidos.

Em situações envolvendo animais feridos, grandes concentrações ou dúvidas sobre os procedimentos adequados, os moradores podem buscar orientação dos órgãos ambientais.

Sapo-cururu ou sapo-boi (foto: Carlos Jared)

Sapos ajudam a controlar insetos e fazem parte do equilíbrio ambiental

Além de explicar o aumento das aparições, o biólogo destaca que os anfíbios desempenham funções importantes para o meio ambiente.

Os sapos se alimentam de insetos, aranhas, larvas e outros pequenos invertebrados, contribuindo para o controle natural dessas populações.

Também servem de alimento para aves, serpentes e outros predadores, integrando a cadeia alimentar dos ecossistemas locais.

Embora possam consumir mosquitos, o especialista ressalta que os sapos, sozinhos, não são capazes de controlar a proliferação desses insetos. O combate ao mosquito da dengue, por exemplo, continua dependendo de medidas como eliminar recipientes que acumulam água e manter os ambientes limpos.

Outro ponto destacado pelo professor é que a presença dos anfíbios pode fornecer informações sobre as condições ambientais de determinada região.

Isso não significa, necessariamente, que locais com muitos sapos tenham água limpa, já que algumas espécies conseguem sobreviver em ambientes alterados. Entretanto, a redução repentina desses animais em áreas onde eram comuns pode indicar problemas ambientais.

Presença de sapos não deve ser motivo de preocupação

Para o professor Clóvis Roberto Gurski, é importante que a população compreenda que o aparecimento desses animais faz parte da dinâmica natural da região.

As características geográficas de União da Vitória e Porto União, associadas às chuvas frequentes e à existência de banhados e áreas verdes, favorecem a presença de diferentes espécies de anfíbios.

Em vez de enxergar os sapos como uma ameaça, a orientação é respeitar esses animais, evitar o contato inadequado e adotar cuidados básicos para proteger crianças e animais domésticos.

Afinal, os sapos que aparecem nos quintais depois da chuva não são invasores: fazem parte da fauna que naturalmente habita a região do Vale do Iguaçu.