{"id":37639,"date":"2026-08-21T09:27:12","date_gmt":"2026-08-21T12:27:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/?p=37639"},"modified":"2026-08-21T09:27:13","modified_gmt":"2026-08-21T12:27:13","slug":"guerra-do-contestado-a-terra-a-fe-e-a-luta-de-um-povo-apagado-pela-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/cultura\/guerra-do-contestado-a-terra-a-fe-e-a-luta-de-um-povo-apagado-pela-historia\/","title":{"rendered":"Guerra do Contestado: a terra, a f\u00e9 e a luta de um povo apagado pela hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>A Guerra do Contestado foi muito mais do que um conflito armado pela posse de terras. Entre 1912 e 1916, a regi\u00e3o disputada por Paran\u00e1 e Santa Catarina foi palco de uma guerra que reuniu interesses econ\u00f4micos, disputas territoriais, transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, religiosidade e a resist\u00eancia de uma popula\u00e7\u00e3o que se viu expulsa de espa\u00e7os onde vivia havia gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para compreender o conflito, \u00e9 preciso voltar ao in\u00edcio da Rep\u00fablica brasileira. Segundo o professor de Hist\u00f3ria Arthur Luiz Peixer, o pa\u00eds passava por um processo de transforma\u00e7\u00e3o marcado pela centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pela industrializa\u00e7\u00e3o e pela tentativa de promover uma coloniza\u00e7\u00e3o baseada na imigra\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p>Nesse processo, popula\u00e7\u00f5es que j\u00e1 ocupavam a regi\u00e3o foram colocadas \u00e0 margem. \u201cCaboclos e posseiros da erva-mate, grupos ind\u00edgenas e ex-escravizados eram mantidos \u00e0 margem, enquanto a na\u00e7\u00e3o brasileira mirava no processo de coloniza\u00e7\u00e3o europeia e explora\u00e7\u00e3o da grande floresta de arauc\u00e1rias no territ\u00f3rio contestado\u201d, explica Arthur.<\/p>\n<p>A disputa territorial entre Paran\u00e1 e Santa Catarina se somava \u00e0 chegada do capital estrangeiro e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro S\u00e3o Paulo\u2013Rio Grande, pela Brazil Railway Company, ligada ao empres\u00e1rio norte-americano Percival Farquhar. A ferrovia atravessou o territ\u00f3rio e alterou profundamente a din\u00e2mica da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a explora\u00e7\u00e3o das riquezas naturais despertava enorme interesse econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>\u201cCerca de 4 milh\u00f5es de p\u00e9s de arauc\u00e1ria e aproximadamente 2 milh\u00f5es de p\u00e9s de imbuia\u201d. Com esses n\u00fameros, o professor e historiador Aluizio Witiuk dimensiona a quantidade de riquezas naturais extra\u00eddas da regi\u00e3o pela Lumber, considerada uma das maiores serrarias da Am\u00e9rica Latina e pertencente, assim como a estrada de ferro, ao Sindicato Farquhar. A dimens\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o ajuda a compreender por que o territ\u00f3rio despertava tamanho interesse econ\u00f4mico. Para os sertanejos, por\u00e9m, aquela terra n\u00e3o representava apenas madeira ou potencial de lucro: era o lugar onde viviam, trabalhavam e constru\u00edam suas comunidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Quem eram os sertanejos?<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Mas, afinal, quem eram aquelas pessoas que viviam no sert\u00e3o? A resposta \u00e9 importante para compreender tamb\u00e9m como a pr\u00f3pria imagem dos participantes do conflito foi constru\u00edda. De acordo com Arthur, os jornais das capitais escolheram um lado e ajudaram a transformar uma popula\u00e7\u00e3o complexa em uma amea\u00e7a \u00e0 Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cOs jornais da \u00e9poca, principalmente das capitais, como Curitiba e Florian\u00f3polis, noticiavam que na regi\u00e3o viviam \u2018fan\u00e1ticos e jagun\u00e7os\u2019 que eram seguidores de \u2018um falso profeta\u2019 e que isso representava um perigo para a rep\u00fablica\u201d, afirma Arthur.<\/p>\n<p>Aluizio chama aten\u00e7\u00e3o para o estigma constru\u00eddo pelo discurso elitista da \u00e9poca contra a popula\u00e7\u00e3o que vivia nas terras contestadas. Segundo ele, um grupo \u00e9tnico e socialmente diverso acabou sendo reduzido \u00e0 figura do \u201cjagun\u00e7o\u201d, muitas vezes associado \u00e0 criminalidade e \u00e0 viol\u00eancia simplesmente por defender o territ\u00f3rio onde vivia.<\/p>\n<p>Para o historiador, \u00e9 fundamental compreender quem eram os sertanejos e o contexto em que estavam inseridos desde o s\u00e9culo XIX. \u201cNa regi\u00e3o do Contestado, havia uma popula\u00e7\u00e3o formada por caboclos, povos origin\u00e1rios, s\u00edrios, alem\u00e3es, poloneses italianos\u2026\u201d, enfatiza.<\/p>\n<p>Por isso, o professor considera inadequado classificar indistintamente os sertanejos como \u201cjagun\u00e7os\u201d ou \u201cbandidos\u201d. Muitas daquelas pessoas ocupavam terras consideradas devolutas e n\u00e3o podem ser automaticamente tratadas como criminosas por defenderem o espa\u00e7o onde viviam, trabalhavam e constru\u00edam suas comunidades.<\/p>\n<p>Arthur destaca que a popula\u00e7\u00e3o cabocla n\u00e3o era um grupo desorganizado, como sugeriam as representa\u00e7\u00f5es produzidas pela imprensa. Segundo ele, as comunidades desenvolveram estruturas sociais pr\u00f3prias, que chegaram a formar 16 cidades ou vilas santas e reuniam diferentes pr\u00e1ticas religiosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma guerra entre for\u00e7as desiguais<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Aluizio afirma que os caboclos tiveram de lutar pela perman\u00eancia em suas terras diante de for\u00e7as muito superiores, que reuniam o governo federal, o governo estadual e interesses econ\u00f4micos vinculados ao capital internacional. \u201cEles lutavam utilizando armas simples, fac\u00f5es, paus e outras ferramentas\u201d, destaca.<\/p>\n<p>A desigualdade entre os lados do conflito tamb\u00e9m aparece na estrutura militar empregada pelo governo. Enquanto os sertanejos utilizavam recursos rudimentares e conheciam profundamente o territ\u00f3rio, as for\u00e7as oficiais contavam com armamentos e estrat\u00e9gias militares modernas, como o primeiro avi\u00e3o usado na hist\u00f3ria da humanidade em um conflito militar.<\/p>\n<p>Arthur ressalta que, apesar da imagem de um Ex\u00e9rcito poderoso constru\u00edda posteriormente, as for\u00e7as governamentais enfrentaram dificuldades para derrotar os sertanejos. \u201cSofreu quatro anos com as t\u00e1ticas de guerrilha de rebeldes que, em sua maioria, n\u00e3o possu\u00edam estrutura e treinamentos militares\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria propaganda produzida durante e depois da guerra ajudaria a consolidar uma vers\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0s for\u00e7as oficiais. Para Arthur, a imprensa teve papel decisivo na constru\u00e7\u00e3o do inimigo.<\/p>\n<p>\u201cCom absoluta certeza. A imprensa do per\u00edodo criou os termos como \u2018fan\u00e1ticos\u2019 e tratou de colocar os caboclos do Contestado somente como analfabetos e ignorantes\u201d, afirma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Quando a imprensa tamb\u00e9m vira arma<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A guerra n\u00e3o foi travada apenas nos campos de batalha. A disputa pela narrativa tamb\u00e9m teve import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Arthur explica que os jornais das capitais tinham influ\u00eancia na maneira como a popula\u00e7\u00e3o urbana enxergava o conflito. Ao apresentar os sertanejos como fan\u00e1ticos, violentos ou inimigos da Rep\u00fablica, a imprensa contribu\u00eda para criar apoio \u00e0s a\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>\u201cA desumaniza\u00e7\u00e3o dos sujeitos, ou seja, coloc\u00e1-los como pessoas que n\u00e3o pensam, mas que matam de forma desmedida qualquer pessoa sem perguntar antes, facilita colocar os militares, o governo republicano, os governos estaduais e os coron\u00e9is da regi\u00e3o como protetores da justi\u00e7a\u201d, avalia.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dessa imagem n\u00e3o atingiu apenas o conjunto dos sertanejos. Um dos personagens que mais sofreu com essa representa\u00e7\u00e3o foi Adeodato Ramos, considerado o \u00faltimo grande l\u00edder caboclo do Contestado.<\/p>\n<p>Arthur explica que Adeodato ficou conhecido como \u201cO Flagelo de Deus\u201d e passou a ser retratado como uma figura quase demon\u00edaca. \u201cSe a guerra come\u00e7ou com o \u2018santo Jos\u00e9 Maria\u2019, estava terminando com o diabo, Adeodato\u201d, resume.<\/p>\n<p>Segundo o professor, parte das a\u00e7\u00f5es violentas atribu\u00eddas a Adeodato tamb\u00e9m precisa ser analisada dentro do contexto da pr\u00f3pria guerra. Para ele, o personagem foi igualmente resultado da viol\u00eancia e das condi\u00e7\u00f5es extremas produzidas pelo conflito.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/cultura\/guerra-do-contestado-a-terra-a-fe-e-a-luta-de-um-povo-apagado-pela-historia\/attachment\/whatsapp-image-2026-08-21-at-09-23-16-1\/\" rel=\"attachment wp-att-37640\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-37640 colorbox-37639\" src=\"https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-731x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"731\" height=\"1024\" data-id=\"37640\" srcset=\"https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-731x1024.jpeg 731w, https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-214x300.jpeg 214w, https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-768x1076.jpeg 768w, https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-209x293.jpeg 209w, https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1-1096x1536.jpeg 1096w, https:\/\/www.vvale.com.br\/jornalocomercio\/files\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-21-at-09.23.16-1.jpeg 1142w\" sizes=\"(max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><b>A f\u00e9 como esperan\u00e7a<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Em meio \u00e0 expuls\u00e3o das terras, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 instabilidade, a religiosidade ocupou um lugar central na vida dos sertanejos.<\/p>\n<p>A religiosidade teve papel fundamental na forma\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia dos sertanejos e na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade pr\u00f3pria entre as comunidades do Contestado. Um dos primeiros personagens associados a essa tradi\u00e7\u00e3o foi Jo\u00e3o Maria, que, segundo os relatos e pesquisas sobre sua trajet\u00f3ria, passou pelo Brasil entre 1844 e 1852.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Maria era retratado como um homem pac\u00edfico, cuja atua\u00e7\u00e3o estava ligada \u00e0 f\u00e9, \u00e0 cura e ao atendimento das necessidades da popula\u00e7\u00e3o sertaneja. Segundo as pesquisas do professor Aluizio Witiuk, ele percorria o sert\u00e3o, cuidava de pessoas, utilizava conhecimentos de homeopatia, aben\u00e7oava fontes e po\u00e7os de \u00e1gua e realizava batismos. \u201cEle teria dito que voltaria, mas nunca mais retornou\u201d, relata o historiador.<\/p>\n<p>Pesquisas do historiador Alexandre Karsburg identificaram Jo\u00e3o Maria como Giovanni Maria de Agostini, nascido na It\u00e1lia, em 1801. O religioso viveu e peregrinou pelo Brasil entre 1844 e 1852. Depois de deixar o pa\u00eds, percorreu diferentes regi\u00f5es das Am\u00e9ricas at\u00e9 ser assassinado, em abril de 1869, nas montanhas de Organ, pr\u00f3ximo \u00e0 vila de Mesilla, no Novo M\u00e9xico, nos Estados Unidos. Seu corpo foi sepultado no Cemit\u00e9rio San Albino.<\/p>\n<p>A passagem de Jo\u00e3o Maria deixou uma marca profunda na mem\u00f3ria das popula\u00e7\u00f5es do interior. Mais do que uma figura religiosa, o monge passou a representar esperan\u00e7a para os sertanejos. Em meio \u00e0s incertezas provocadas pelas disputas territoriais e pelas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas na regi\u00e3o, sua figura foi associada \u00e0 expectativa de prote\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e, sobretudo, \u00e0 possibilidade de conquistar ou preservar um peda\u00e7o de terra.<\/p>\n<p>Um segundo personagem identificado com Jo\u00e3o Maria foi Jo\u00e3o Maria de Jesus, cujo nome verdadeiro era Anastasis Marcasse, de origem possivelmente s\u00edria ou grega. De acordo com o professor, ele teria aproveitado a tradi\u00e7\u00e3o deixada pelo primeiro monge e continuado a percorrer a regi\u00e3o. \u00c9 associado \u00e0 imagem do \u201cmonge do gorrinho\u201d, conhecido pelas ervas, batismos e pelas cruzes de madeira fincadas em locais que se tornaram pontos de peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses monges mantinham uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com a popula\u00e7\u00e3o. Segundo os relatos, muitas vezes n\u00e3o aceitavam dormir nas casas das pessoas, preferindo permanecer ao relento.<\/p>\n<p><strong><b>Jos\u00e9 Maria e a explos\u00e3o do conflito<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O terceiro monge, Jos\u00e9 Maria de Santo Agostinho, ocupa um lugar central na compreens\u00e3o da Guerra do Contestado. Segundo o professor Aluizio, estudos mais recentes sobre sua trajet\u00f3ria apontam que o personagem pode ter sido, na realidade, um ex-policial paranaense identificado como Miguel Lucena de Ara\u00fajo ou Miguel Lucena de Souza. A poss\u00edvel identidade de Jos\u00e9 Maria, por\u00e9m, ainda integra as discuss\u00f5es e pesquisas sobre sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria conquistou rapidamente a confian\u00e7a dos sertanejos e assumiu uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a entre as comunidades que se reuniam ao seu redor. Em 1912, sua presen\u00e7a passou a ser vista como uma amea\u00e7a pelas for\u00e7as oficiais, culminando no confronto do Irani, em 22 de outubro daquele ano. A batalha terminou com a morte do monge.<\/p>\n<p>Antes de morrer, Jos\u00e9 Maria teria afirmado que retornaria \u00e0 frente de um \u201cEx\u00e9rcito Encantado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o\u201d. Segundo Aluizio, a cren\u00e7a no retorno do monge exerceu forte influ\u00eancia sobre os sertanejos e contribuiu para alimentar a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Para muitos de seus seguidores, sua morte n\u00e3o representava um fim, mas uma promessa de retorno, e, com ela, a esperan\u00e7a de vit\u00f3ria daqueles que lutavam pela terra, pela comunidade e pela pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><b>O sil\u00eancio depois da guerra<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A derrota militar dos sertanejos n\u00e3o significou o fim das consequ\u00eancias do conflito. Para Arthur, o sil\u00eancio que se estabeleceu posteriormente tamb\u00e9m faz parte da hist\u00f3ria do Contestado.<\/p>\n<p>\u201cAp\u00f3s a guerra \u00e9 poss\u00edvel perceber como isso se manteve, pois as popula\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o silenciaram-se, e por muitas d\u00e9cadas evitaram falar do assunto, seja por medo ou vergonha\u201d, explica.<\/p>\n<p>O professor considera que esse silenciamento contribuiu para que a mem\u00f3ria dos caboclos fosse apagada durante d\u00e9cadas. A pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica sobre o conflito, inicialmente marcada por obras de militares, ajudou a consolidar uma narrativa em que o Ex\u00e9rcito aparecia como respons\u00e1vel por \u201csalvar\u201d a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Arthur aponta ainda que a persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminou imediatamente com o fim da guerra. Segundo ele, sobreviventes e poss\u00edveis novos movimentos de resist\u00eancia continuaram sendo perseguidos, enquanto coron\u00e9is e bugreiros atuavam na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO caboclo do Contestado virou um elemento do passado hist\u00f3rico, esquecido como parte do presente e relegado \u00e0s margens da hist\u00f3ria e da sociedade\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong><b>Um conflito que ainda diz respeito ao presente<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo depois, a Guerra do Contestado permanece como uma ferida hist\u00f3rica na regi\u00e3o. Para Arthur, seus efeitos podem ser percebidos ainda hoje nas desigualdades sociais e na maneira como a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do territ\u00f3rio \u00e9 compreendida.<\/p>\n<p>\u201cQue a nossa regi\u00e3o ainda possui tra\u00e7os de um passado dolorido e profundamente desigual\u201d, afirma o professor.<\/p>\n<p>Ele defende que compreender o Contestado exige olhar para al\u00e9m da chegada dos imigrantes europeus e reconhecer a presen\u00e7a anterior de ind\u00edgenas, caboclos e negros na forma\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do conflito tamb\u00e9m oferece uma reflex\u00e3o sobre o poder da informa\u00e7\u00e3o. Arthur estabelece um paralelo entre a imprensa que atuava durante o Contestado e a circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o nas m\u00eddias\u00a0sociais atuais.<\/p>\n<p>\u201cA imprensa ainda molda opini\u00f5es e a propaga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas foi potencializada pelas redes sociais\u201d, avalia.<\/p>\n<p>Para o professor, a diferen\u00e7a est\u00e1 na velocidade e na quantidade de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis atualmente. Se, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, poucos ve\u00edculos tinham o poder de determinar a narrativa sobre o conflito, hoje as m\u00eddias\u00a0sociais multiplicam as fontes de informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m criam novos espa\u00e7os para a desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Guerra do Contestado foi muito mais do que um conflito armado pela posse de terras. 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