Unicef alerta para avanço da obesidade infantil; nutricionista dá dicas aos pais
Pela primeira vez na história, há mais crianças e adolescentes obesos no mundo do que desnutridos. A informação foi revelada no início de setembro pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com base no relatório “Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares estão Falhando com as Crianças”.
Com levantamento de dados em mais de 190 países, o estudo aponta que, atualmente, 1 em cada 10 crianças e adolescentes – cerca de 180 milhões – estão obesas. De 2000 para cá, a taxa de crianças entre 05 a 19 anos consideradas desnutridas caiu de 13% para 9,2%, enquanto que, no mesmo período, a taxa de obesidade saltou de 3% para 9,4%. Com isso, a obesidade superou a desnutrição como principal forma de má nutrição em todas as regiões do mundo, com exceção da África Subsaariana e Sul da Ásia.
Os dados, entretanto, não atestam que crianças e adolescentes estão comendo mais, mas sim que estão se alimentando pior. “Milhões de crianças e adolescentes estão crescendo em ambientes onde bebidas açucaradas, lanches salgados e doces e fast foods, incluindo alimentos e bebidas ultraprocessados, são altamente acessíveis e promovidos de forma agressiva. Esses ambientes alimentares não saudáveis estão gerando uma alimentação pobre em nutrientes e o aumento no sobrepeso e obesidade entre crianças e adolescentes, mesmo em países que ainda lutam contra a desnutrição infantil”, aponta o relatório.
O estudo também conclui que, a depender da condição financeira geral do país, o perfil de crianças e adolescentes obesos muda. Nos países de baixa renda, os mais propensos ao excesso de peso pertencem às famílias com maior poder aquisitivo, capazes de arcar com maiores quantidades de alimentos. Nos países com renda média, o acesso à alimentos ultraprocessados é mais difundido, fazendo com que crianças e adolescentes de todas as classes sociais possam ficar acima do peso. Já em países ricos, segundo a Unicef, uma alimentação rica em ultraprocessados, por vezes mais baratos que os alimentos considerados saudáveis, é vista como um marcador de pobreza, e o excesso de peso tende a ser mais presente nas famílias mais pobres.
“A obesidade é uma preocupação crescente que pode impactar a saúde e o desenvolvimento das crianças. Os alimentos ultraprocessados estão substituindo cada vez mais frutas, vegetais e proteínas, justamente quando a nutrição desempenha um papel crítico no crescimento, desenvolvimento cognitivo e saúde mental das crianças”, expõe Catherine Russell, Diretora Executiva do Unicef.
Obesidade x desnutrição
“Para uma pessoa ser considerada obesa, seu Índice de Massa Corporal (IMC) deve ser igual ou superior a 30 kg/m²”, explica a nutricionista Caroline Vogel. “O IMC é calculado dividindo o peso da pessoa (em quilogramas) pela sua altura (em metros) ao quadrado, e o excesso de gordura corporal, que determina prejuízos à saúde, é a característica principal dessa condição. (…) O IMC infantil abrange curvas de crescimento e desenvolvimento – que são encontradas na própria Caderneta de Saúde da Criança que acompanha a criança do nascimento até os 9 anos de idade”.
Já uma pessoa é considerada desnutrida quando o corpo não recebe a quantidade necessária de nutrientes e energia, o que pode acarretar em um desequilíbrio com baixo peso corporal, deficiência de vitaminas e minerais, além de sintomas físicos como fraqueza, fadiga e comprometimento do sistema imunológico.
Porém, apesar de parecerem polos opostos, uma pessoa obesa também pode ser considerada desnutrida. “O que chamamos de desnutrição, na verdade é uma má nutrição. Existem sim indivíduos desnutridos com magreza extrema, mas também é perfeitamente possível que uma pessoa seja obesa e desnutrida ao mesmo tempo. Isso acontece quando o indivíduo consome muitos alimentos calóricos, mas de baixo valor nutricional, o que leva a um acúmulo de gordura corporal, mas também a uma carência de micronutrientes essenciais como vitaminas e minerais”, relata a nutricionista.
O problema da má alimentação
Como citado pelo relatório, os alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, amido refinado, sal, gorduras não saudáveis e aditivos, são os grandes vilões da alimentação da população em geral, mas principalmente de crianças e adolescentes. Caroline concorda com a afirmação, e alerta que, além de serem hipercalóricos, esses alimentos também alteram os mecanismos de saciedade do organismo, influenciando um consumo exagerado.
Para a nutricionista, é crucial que os pais deem bons exemplos de alimentação para os filhos. “Os hábitos das crianças são influenciados diretamente pelos pais. As atitudes dos adultos em relação à alimentação refletem na forma como as crianças comem e na formação do paladar delas. Uma nutrição adequada na infância é fundamental para o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças”.
Além disso, Caroline atesta que, quando os pais são permissivos ou negligentes com relação à nutrição dos filhos, uma série de problemas podem fazer com que essa criança adquira maus hábitos. Um deles é a falta de imposição, em que a criança decide o que consumir, o que abre brechas para escolhas pouco saudáveis. Outro problema é a falta de um horário regular para as refeições, o que pode fazer com que a criança deixe de reconhecer sinais de fome e saciedade, resultando em comportamentos alimentares desregulados. A falta de supervisão e de orientação durante as refeições também são hábitos que podem prejudicar a alimentação dos mais jovens.
Por serem prejudiciais à saúde, Caroline recomenda que a ingestão de ultraprocessados, principalmente na infância, seja a menor possível. “O que se come na infância não tem consequências apenas neste primeiro estágio da vida, mas pode transformar a saúde de uma pessoa a longo prazo. Não há uma quantidade segura de consumo para ultraprocessados, sendo a recomendação científica a evitação e o mínimo consumo possível. Alimentos ultraprocessados são criados para serem hiperpalatáveis e estimulam o sistema de recompensa do cérebro, o que pode levar ao consumo excessivo e ao desenvolvimento de doenças como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e câncer. A recomendação geral é priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados”.
Caso uma criança já tenha adquirido o hábito do consumo de ultraprocessados, a nutricionista indica ser possível reverter o paladar, principalmente com uma reeducação alimentar familiar, e com a exposição dos pequenos a novos sabores e texturas, com suporte profissional, caso necessário. “Para estimular nas crianças o gosto por uma alimentação saudável, envolva-as no preparo de refeições, crie um ambiente agradável à mesa, ofereça alimentos variados e coloridos de forma criativa, e sirva de exemplo com seus próprios hábitos alimentares, evitando forçar a criança a comer ou usar eletrônicos durante as refeições”, aconselha Caroline.
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