Tabagismo: após 37 anos fumando, professora descreve bastidores da vitória contra o cigarro
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto, a Prefeitura de União da Vitória reforçou o convite para que fumantes cuidem da saúde e deem o primeiro passo para abandonar o cigarro.
Por meio da Secretaria Municipal de Saúde, o município anunciou que está preparando um novo Grupo de Tabagismo, destinado a todos os moradores que desejam parar de fumar. O grupo tem início previsto para o dia 11 de setembro e reunirá usuários de todas as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) em um único espaço, que será definido conforme o número de inscritos.
A mensagem de que nunca é tarde para buscar ajuda encontra eco na história da professora Silvana Nagel, de 56 anos, moradora de Garuva, no Norte de Santa Catarina. Ela começou a fumar aos 16 anos e permaneceu dependente da nicotina durante 37 anos.
O primeiro contato com o cigarro aconteceu ainda na adolescência, em um ambiente no qual o hábito já fazia parte da rotina familiar.
“Comecei a fumar aos 16 anos. Já tinha contato com o cigarro através dos meus pais, pois os dois eram fumantes, mas uma amiga é que me ofereceu pela primeira vez. Claro que, na infância, era natural brincar de fumar com folhas de caderno. No começo, era apenas por me sentir descolada e na moda. Depois, com o tempo, tornou-se um vício e já não podia ficar sem, e isso interferiu totalmente em minha conduta diária”, descreve.
Ao longo dos anos, Silvana tentou deixar o cigarro. Em uma das tentativas, conseguiu permanecer seis meses sem fumar, mas acabou voltando ao hábito. “Sempre quis parar de fumar. Cheguei a ficar seis meses sem o cigarro, mas o desejo e a compulsão me faziam desistir”, revela.
A decisão definitiva veio em um momento em que ela procurava melhorar a própria saúde. Acima do peso, Silvana buscou atendimento médico sem ter como objetivo principal abandonar o cigarro. Durante a consulta, porém, percebeu uma relação que até então não havia identificado entre o tabagismo e a alimentação.
“Fui fumante por 37 anos e, na procura pela boa saúde, pois estava bem acima do peso, procurei ajuda de uma médica, sem intenção nenhuma de parar de fumar. A endócrino me perguntou se tinha compulsão alimentar. Respondi que não, pois, sempre que sentia fome, eu fumava e a vontade passava. Não tinha percebido que isso era, na realidade, uma compulsão”, revela.
Segundo ela, a medicação prescrita durante o tratamento ajudou a reduzir os efeitos da nicotina sobre o cérebro. O processo, entretanto, não eliminou automaticamente a vontade de fumar. Foi nesse momento que Silvana decidiu encarar a interrupção do hábito.
“O remédio, na realidade, cortou o efeito que a nicotina faz no cérebro, mas não tira o desejo de fumar. Nesse momento é que me deparei com a necessidade de realmente pôr na balança o que era importante na minha vida, e então optei por parar”, destaca.
Abandonar o cigarro, no entanto, não significou o fim imediato da dependência. Para Silvana, os primeiros períodos foram marcados por uma batalha física e emocional.
“Foi fácil assim? Não. Foi o período mais difícil que passei em toda a minha vida. A nicotina é uma droga muito potente, mexe com toda a sua estrutura física, emocional e até espiritual. É uma batalha muito forte. Saber que todas as suas dores podem sumir com apenas uma tragada, isso pesa muito e faz, muitas vezes, a pessoa desistir de parar”, explica.
A motivação para permanecer sem fumar encontrou nos filhos uma das principais razões. Silvana afirma que a lembrança deles a ajuda a enfrentar a vontade que ainda aparece diariamente.
“Todos os dias eles agradecem pela minha luta, porque é uma luta diária. Vou ser muito sincera: eu acordo todas as manhãs e vou dormir todas as noites com vontade de fumar, mas eu lembro de tudo que passei enquanto fumava e vi que era pior do que passo hoje”, revela.
Silvana também recorda situações que passaram a fazer parte da rotina durante os anos em que fumava, como as críticas de outras pessoas, o cheiro da fumaça e a necessidade de organizar a vida em torno do cigarro.
“As críticas constantes das pessoas, vivia fumando escondida para ninguém falar nada, o cheiro e o hálito de cigarro que as pessoas não suportavam em mim e, para falar a verdade, nem eu mesma. Não gostava muito de sair, pois não tinha a liberdade de fumar à vontade ou, se não tivesse um lugar próximo para comprar, muitas vezes deixava de comprar algo que queria muito para poder ter o dinheiro do cigarro, entre tantas outras coisas que passamos. E, se for enumerar tudo, a lista é muito extensa”, recorda.
Hoje, depois de mais de três décadas de tabagismo, Silvana considera que a decisão de parar mudou sua relação com o próprio futuro. A vontade de fumar ainda existe, mas deixou de ser suficiente para fazê-la retornar ao cigarro.
“Hoje sou muito feliz com minha escolha, e o conselho que dou para as pessoas é que não será fácil, mas será possível, sim, e que valerá a pena. Você tem que focar em algo que quer muito e fazer disso uma meta. Sempre que olho para os meus filhos, lembro que quero viver muito ainda para vê-los crescer e serem felizes”, enfatiza.
Onde buscar ajuda
Para quem deseja abandonar o cigarro, a orientação é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência. Em União da Vitória, a Secretaria Municipal de Saúde mantém grupos de tabagismo voltados a pessoas que querem interromper o consumo, com acompanhamento durante o processo.
A iniciativa reforça que deixar de fumar não precisa ser uma decisão enfrentada sozinho. O acompanhamento profissional e o apoio durante o tratamento podem ajudar quem está tentando romper com a dependência da nicotina.



