6ª Regional de Saúde avalia adesão à vacina da gripe na AMSULPAR
A partir da próxima segunda-feira, 29, a vacina contra a gripe estará disponível para toda a população acima de seis meses de idade nos nove municípios que compõem a 6ª Regional de Saúde do Paraná, bem como em todo o estado. A decisão, pactuada entre a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) e o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Paraná (Cosems), reflete uma tentativa urgente de frear o avanço das infecções respiratórias em meio à chegada do inverno.
O principal motivo para a liberação irrestrita do imunizante é um alerta vermelho que já soa nos corredores dos hospitais: a baixa procura pelas doses por parte dos chamados grupos prioritários. De acordo com os dados mais recentes, a cobertura vacinal média na 6ª Regional de Saúde estacionou na casa dos 49,44%, muito distante da meta ideal de 90% estabelecida pelas autoridades sanitárias.
Diante da estagnação, o reflexo já é sentido na ponta do sistema de saúde. Em entrevista concedida ao Jornal O Comércio, o chefe da 6ª Regional de Saúde, Júnior Rocha, revelou um panorama preocupante sobre a capacidade de atendimento local.
“Hoje as UTIs dos nossos dois hospitais aqui estão completamente lotadas”, alertou Rocha.
Segundo o gestor regional, há quase 100% de ocupação dos leitos clínicos e as duas unidades que disponibilizam leitos de Terapia Intensiva em União da Vitória não possuem mais vagas, sendo a grande maioria dos pacientes vítimas de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG).
O “Efeito Dominó” na Saúde Pública
O estrangulamento do sistema hospitalar traz consequências que vão além das doenças respiratórias. O chefe da regional fez questão de destacar o que chamou de “reação em cadeia”. O sistema de saúde, tanto público quanto privado, não atua com uma grande margem de leitos ociosos, o que significa que o aumento de internações por gripe afeta o atendimento de outras emergências.
“Esse tipo de doente que não precisaria estar na UTI, ele acaba tirando a vaga de um outro que precisaria, por exemplo, um infartado, um acidentado”, ilustrou Júnior Rocha.
Ele explicou que uma vítima de acidente de trânsito, mesmo sendo jovem e fora dos grupos de risco, pode acabar penalizada pela falta de um leito de alta complexidade que está ocupado por um paciente com agravamento respiratório.
O mesmo reforça a autoridade, a ferramenta mais eficaz para evitar esse colapso.
“A vacina, ela não te dá 100% de garantia que você não vai ter a doença, ter a gripe, mas se você tiver, você vai pegar uma forma mais branda. Isso evita que você hospitalize e diminui a chance de ir para a UTI”, ressaltou o chefe da regional.
Raio-X da 6ª Regional: a dificuldade em atingir a meta
Os números oficiais da campanha de vacinação detalham o tamanho do desafio enfrentado pelos gestores. Dos 49.520 habitantes mapeados como público-alvo prioritário na 6ª Regional, apenas 24.483 receberam a dose do imunizante, resultando no índice geral de 49,44%.
O detalhamento revela disparidades preocupantes entre os municípios. Porto Vitória lidera o ranking proporcional da região, com 66,08% do seu público prioritário imunizado (783 doses aplicadas para uma meta de 1.185 pessoas). Na outra ponta da tabela aparece Cruz Machado, que devido ao seu extenso território, encontra dificuldades para efetivar uma vacinação mais ampla, e aparece com 43,50% de cobertura, seguido por São Mateus do Sul, com 46,30%.
A cidade mais populosa da região, União da Vitória, vacinou até o momento 8.476 pessoas, alcançando pouco mais da metade do seu público-alvo (50,13%). Outros municípios apresentam os seguintes índices gerais: Bituruna (55,25%), Antônio Olinto (53,39%), Paula Freitas (51,63%), Paulo Frontin (51,44%) e General Carneiro (47,64%).
A preocupação com as crianças e professores
Quando os dados são analisados por recortes de público, o cenário expõe vulnerabilidades específicas. Os trabalhadores da saúde representam o grupo mais protegido, com 81,89% de cobertura regional (2.894 vacinados). As gestantes vêm em segundo lugar, com 59,24% de adesão.
No entanto, o índice acende o alerta máximo em relação às crianças de 6 meses a menores de 6 anos. A média regional infantil é de apenas 45,98%. Há municípios em que a média não ultrapassa os 38%. Em União da Vitória, a vacinação infantil está em 41,89%.
Outro grupo que preocupa as autoridades de saúde é o dos professores. Apenas 32,12% dos educadores da 6ª Regional buscaram a proteção. As puérperas (mulheres no período pós-parto) também registram baixa procura regional, com índice de 35,97%. Os idosos (60 anos ou mais), que representam o maior contingente populacional prioritário (29.180 pessoas), não chegaram à metade da meta, estacionando em 48,65%.
O Panorama estadual: 441 mortes
A crise não é exclusividade dos municípios do Sul do estado. Segundo o último Informe Epidemiológico de Vírus Respiratórios divulgado pela Sesa, o Paraná já contabiliza 10.119 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2026, que resultaram em 441 óbitos. Deste total preocupante, 1.535 casos e 88 mortes foram causados diretamente pelo vírus Influenza, o causador da gripe.
A média estadual de vacinação dos grupos prioritários está em 47,18%, ligeiramente abaixo da média da 6ª Regional (49,44%) e bem aquém da meta estadual de 90% (o que representaria quase 3 milhões de paranaenses protegidos). Ainda assim, o Paraná ocupa a 6ª posição no ranking nacional de vacinação proporcional, e o 5º lugar em números absolutos, com mais de 2,2 milhões de doses já aplicadas, ficando atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
“A ampliação da vacinação permitirá que mais paranaenses estejam protegidos neste período de maior circulação dos vírus respiratórios. Mas reforçamos o chamado aos grupos prioritários, especialmente crianças, idosos, gestantes e profissionais da saúde”, declarou o secretário estadual da Saúde, César Neves.
O fator inverno e a segurança da vacina
Com as temperaturas despencando nesta semana e a chegada rigorosa do inverno, as condições ambientais tornam-se aliadas do vírus. O chefe da 6ª Regional alerta para os hábitos que aumentam a suscetibilidade às doenças: “Agora no inverno a gente aglomera mais. Quem faz uso do transporte público fecha janelinha. Na sala de aula a professora e as crianças vão lá e fecham a janelinha”.
Ele lembra ainda que o clima seco, associado ao uso de ar-condicionado e até mesmo do tradicional fogão a lenha, muito comum na região Sul do estado, deixa o sistema respiratório mais frágil e exposto à ação viral.
Para combater a desconfiança gerada no período pós-pandemia de Covid-19 em relação aos imunizantes, Júnior Rocha foi enfático ao defender o histórico da campanha contra a Influenza.
“Eu tenho certeza que há em torno de 30 anos a vacina da gripe é aplicada de maneira bem segura a toda a população”, tranquilizou o gestor.
Estratégias e próximos passos
Com a liberação para o público geral a partir de segunda-feira, 29, as mais de 1,8 mil salas de vacinação espalhadas pelo Paraná estarão de portas abertas para qualquer pessoa a partir dos seis meses de vida. Na 6ª Regional, as Secretarias Municipais de Saúde já preparam ações de contingência para facilitar o acesso da população às doses.
“União da Vitória, por exemplo, está dispondo de horários estendidos para vacinar quem trabalha o dia todo. Cada município, dentro das suas possibilidades, vai ofertar para a população algumas estratégias que façam com que esse número melhore”, adiantou Júnior Rocha.
O apelo final das autoridades é para que a sociedade compreenda o seu papel na saúde coletiva. Vacinar-se, neste momento, não é apenas um ato de proteção individual contra os sintomas incômodos da gripe. É, sobretudo, uma ação de cidadania para desafogar os hospitais regionais, garantindo que o leito de UTI esteja livre e disponível para salvar a vida de quem, tragicamente, venha a precisar dele em uma emergência de outra natureza.


