Caso Faustão levanta pergunta: como funciona a fila de transplantes?
O apresentador Fausto Silva – o Faustão – foi submetido a dois novos transplantes de órgãos, de acordo com boletim médico divulgado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Segundo a nota, o comunicador passou pelo transplante de fígado e pelo retransplante de rim, em cirurgias realizadas no início do mês. Faustão já havia passado por um transplante de coração em 2023, e de rim do ano passado. O fato chamou atenção nas redes sociais e levantou a questão: por que o apresentador aparenta ter tanta facilidade para conseguir um transplante, quando mais de 46 mil pessoas aguardam na fila em todo o país?
Para entender, é preciso saber como funciona o Sistema Nacional de Transplantes (SNT). É essa estrutura que coordena, normatiza e regulamenta a realização de transplantes de órgãos, tecidos e células no país. Para receber um órgão, o paciente deve ser inscrito em uma lista de espera, única para o estado e fiscalizada pelo SNT, o que impossibilita que uma pessoa esteja em mais de uma lista ou que a ordem da fila não seja respeitada. A inscrição só pode ser realizada por médico com autorização concedida pelo SNT.
A ordem de inscrição na lista de espera pode influenciar na escolha de quem receberá um órgão disponível para o transplante, mas não é o fator determinante. A necessidade de compatibilidade sanguínea, de peso e altura e genética entre doador e receptor fazem com que o ranking da fila seja mutável. Além disso, condições clínicas mais debilitantes também podem fazer com que uma pessoa seja priorizada e colocada no início da fila.
“Se o paciente já é transplantado de coração, por exemplo, e precisa de um rim, tem e deve pedir prioridade em lista, porque se não transplantar logo o paciente corre risco de vida, porque ele não vai conseguir ficar muito tempo em hemodiálise. Está em lei em que situação os paciente são priorizados. Hepatites fulminantes, com resultados de exames que comprovam. Para transplante de coração, prioriza-se o paciente que não consegue ficar fora do hospital porque depende de Dobutamina (medicamento utilizado para tratar a insuficiência cardíaca) em doses elevadas. [Para atestar] é feita visita técnica pela CET (Central de Transplantes), geralmente uma médica e eu vamos verificar a situação do paciente, e o Ministério Público acompanha os casos através de relatórios”, explica o enfermeiro Valter Oliveira, que coordena o processo de captação de órgãos no Hospital Regional São Camilo, em União da Vitória, desde 2020.
Faustão, por exemplo, está internado desde 21 de maio, devido a uma infecção bacteriana aguda com sepse – uma inflamação sistêmica em todo o organismo. Ademais, a equipe médica do apresentador planejava um novo transplante de rim por mau funcionamento daquele transplantado no ano passado, o que pode ter colocado Faustão no topo da lista de espera. Segundo Valter, a necessidade de um novo transplante pode ser motivada por rejeição, algo que já não é comum, e por falência do órgão transplantado. Porém, independente do motivo, o enfermeiro garante que a priorização é algo comum. “O caso do Faustão, foi só porque ele é famoso e da mídia que gerou polêmica. Quantas pessoas aqui no Paraná priorizaram para coração em um dia e no dia seguinte receberam coração. Recentemente, fiz a visita técnica em um priorizado de coração, e no mesmo dia, à noite, ele transplantou. Cito aqui um caso, mas já tivemos vários. É Deus no comando o que atribuo”.
Prioridade é para o estado
Quando um órgão é captado, a prioridade é de que o transplante seja realizado dentro do estado. Caso não haja candidatos compatíveis, o órgão é ofertado à Central Nacional para atender a demanda de um estado que possua paciente compatível e com logística para transporte em tempo correspondente ao período de isquemia do órgão, ou seja, o tempo máximo que cada órgão resiste à falta de circulação sanguínea.
O órgão sempre é ofertado ao primeiro da fila, seguindo os critérios já abordados. Caso haja empate entre pacientes, prioriza-se o inscrito primeiro na fila de espera. “Se por alguma razão não há aceite, ele tem que mandar por escrito a recusa. Aí a oferta vai para o segundo, e assim sucessivamente, até esgotar a lista. Se não tiver aceite no estado, se a família deu tempo suficiente, vai para o banco nacional atender pacientes de outros estados, onde tenha receptor compatível e aceite. O Paraná também recebe muitos órgãos de outros estados”, comenta Valter.
Para garantir a isonomia, e também por questões éticas, o nome de pacientes aguardando por transplante não é divulgado. Ainda, Valter reforça que a Central de Transplantes tem o dever e a responsabilidade de zelar pela segurança e legalidade do processo de doação e de transplante. “Assim como outros órgãos, a Central passa por auditoria, e os hospitais transplantadores também. Podemos responder que a Central de Transplante do Estado do Paraná não passa por favorecimento político ou econômico ou quaisquer outras influências para favorecer [algum paciente]. Cumpre-se o que está em Lei. Quem faz a distribuição, não faz parte do diagnóstico. Só se sabe para quem vai um órgão se tiver o doador e ele alimentar o sistema para rodar o que chamamos de Ranking”.
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