Da farmácia ao Paraguai: uso de canetas emagrecedoras acende alerta

Sensação no mercado nacional, os medicamentos GLP-1, as canetas emagrecedoras, devem movimentar cerca de R$20 bilhões em 2026, segundo estimativa do UBS BB. O dado mostra a popularização das substâncias, cujo uso saltou 88% em 2025 em comparação ao ano anterior, de acordo com o Conselho Federal de Farmácia.

Inicialmente, o GLP-1 era utilizado no tratamento de pacientes com diabetes tipo 2 por estimular a ação da insulina no corpo e proporcionar melhora na dinâmica metabólica. Com o passar do tempo, foi possível notar outro efeito nos pacientes: a perda de peso devido ao aumento da saciedade relacionado ao medicamento. Por esse motivo, começou a ser usado também no tratamento de pessoas com obesidade, podendo auxiliar na eliminação entre 10% a 20% da gordura corporal em um ano.

Da farmácia ao Paraguai: uso de canetas emagrecedoras acende alerta

Foto: Freepik

A liberação do uso off-label, ou seja, para fins não previstos inicialmente na bula aprovada, gerou alvoroço e uma verdadeira corrida às farmácias. O desejo de perder alguns quilinhos fez com que pessoas que não se enquadram no uso por motivos de saúde (diabéticos e obesos), começassem a utilizar o medicamento para fins estéticos. A procura foi tanta que, em junho de 2025, farmácias começaram a exigir, por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a retenção de receita para a venda das canetas emagrecedoras.


“Eu queria um atalho”

A facilidade de emagrecimento proporcionada pelo GLP-1 pode ser uma tentação. Por essa razão, José*, de 29 anos, fez o uso de canetas emagrecedoras sem acompanhamento médico. “Eu queria um atalho. Quando vi todo mundo emagrecendo rápido e fácil, eu quis ter isso também. Foi muito mais um desespero estético e cansaço emocional do que uma necessidade real”.

O escolhido para o “tratamento” foi o Wegovy. José aumentava as doses semanais o mais rápido que podia, na esperança de ver resultado. E ele veio, mas não sem um custo.

Financeiramente, o investimento foi de pouco mais de dois mil reais. Na saúde, uma cobrança ainda mais cara. “No começo, tudo pareceu um milagre: perda de apetite absurda e sensação de estômago sempre cheio. Emagreci muito, mas com muitos efeitos colaterais. Tive muita dor de cabeça, fraqueza, mal-estar quando tentava comer. Mas o pior foi a desregulação que tive comigo mesmo e com a comida. Medo de comer, culpa por comer, jejuns extensos, sempre pulando refeições. Todo o meu emagrecimento veio às custas do meu bem-estar. Eu sabia que não estava saudável e que meu corpo estava funcionando no limite. E sem um acompanhamento adequado, eu não tinha alguém para ajustar a dose, avaliar riscos, nem perceber que aquilo já tinha passado do ponto”.

Avaliando os riscos com base em sua experiência, José alerta. “Jamais indicaria que usassem esse tipo de medicamento por conta própria, como eu fiz. É um medicamento potente, que mexe profundamente com o metabolismo, comportamento alimentar e até mesmo saúde mental. Usar sem acompanhamento médico é um tiro no escuro e pode sair muito caro”.


Aliadas, desde que com supervisão

O gastroenterologista Ricardo Monte Jr. afirma que, pensando apenas no peso na balança, a resposta das canetas emagrecedoras é excelente. Entretanto, o uso sem orientação profissional pode causar grande perda e massa muscular, afetando o corpo como um todo. “A ideia é usar em paciente que precisa perder peso, e não em uma pessoa que tem uma festa final de semana e quer usar para entrar na roupa, não é dessa forma”.

Perder peso nem sempre é sinônimo de perda de gordura. E quando o que vai embora é a massa muscular, o futuro fica comprometido. “Hoje em dia [se sabe que] quanto mais músculos, menor o risco de alzheimer e doenças degenerativas. Aí o cara começa a perder peso e massa com o Mounjaro. Ele está ficando magro, mas no futuro vai aumentar a chance de demência”, alerta o médico.

Gastroenterologista Ricardo Monte Jr. Foto: Arquivo pessoal

Além disso, Ricardo explica que as canetas emagrecedoras atuam como uma sinalizadora da saciedade, mas muitas vezes essa percepção de estar satisfeito é apenas um truque. “Ele sinaliza que está saciado. Ele engana o intestino porque sinaliza que está suficiente, por isso é frequente ter mal-estar e fadiga. O paciente não tem energia”.

Com o preço elevado e restrição de venda nas farmácias, a compra no Paraguai se tornou uma alternativa. Um caso chamou atenção em janeiro deste ano. Em Minas Gerais, uma mulher de 42 ano foi internada em estado grave devido a complicações pelo uso de caneta vendidada de forma ilegal e sem prescrição médica. Para Ricardo, a escolha por produtos vindos do país vizinho é arriscada. “Lá tem uma legislação de patente diferente, mas existem questionamentos importantes porque para produzir essa molécula, precisa uma indústria muito avançada, então se questiona como elas estão sendo produzidas. Também se questiona como elas estão vindo para cá se é proibido. Você não sabe como elas vieram, se tem o acondicionamento adequado, então às vezes o barato sai caro”.


Mudança de hábitos é essencial

O acompanhamento nutricional é um complemento importante no tratamento com as canetas emagrecedoras. Uma vez que a redução de apetite e aumento da sensação de saciedade é significativa, a chance de desnutrição e a já citada perda de massa muscular é iminente. “Sintomas gastrointestinais como náuseas, vômitos, diarreia e prisão de ventre são comuns de ocorrer. Todos esses efeitos colaterais são corrigidos e amenizados com o acompanhamento nutricional. Como a pessoa não consegue consumir muita comida, é necessário ter um bom aporte proteico para evitar a perda de massa magra. É importante priorizar o consumo de proteínas (carnes, ovos, leguminosas, proteínas vegetais, bebidas proteicas, etc.) e se atentar a fontes de vitaminas e minerais (proveniente de frutas, legumes e verduras). Importante também fazer exames de rotina para verificar possível anemia e deficiências de nutrientes e corrigi-las posteriormente”, explica a nutricionista Caroline Vogel.

Nutricionista Caroline Vogel. Foto: Arquivo pessoal

A profissional lembra que o uso das canetas emagrecedoras não é recomendado para fins estéticos e que não são liberadas para toda a população. “Com todos os efeitos colaterais que apresentam, para pessoas que desejam perder poucos quilos o uso de canetas é controverso e desaconselhado, visto todos os riscos que podem ocorrer, já citados acima. Sem contar que o tratamento é caro, com custos mensais altos, muitas vezes tornando a relação custo-benefício desfavorável para pequenas perdas de peso. Pessoas que desejam perder poucos quilos devem, idealmente, priorizar a mudança no estilo de vida”.

Além disso, uma vez que se opte pelo medicamento, Caroline afirma que é necessário, também, mudar hábitos de vida para que o emagrecimento seja duradouro. “É importante lembrar que as canetas emagrecedoras funcionam, mas não são pílulas mágicas. Se a pessoa não tiver consciência de que é necessário mudar hábitos alimentares e entender a importância da prática da atividade física, os resultados serão passageiros e o peso pode voltar além do que foi perdido”.

*Nome alterado à pedido da fonte

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