Estudo mostra impacto da vacina do HPV na prevenção ao câncer em Porto União
O que você faria se uma vacina contra o câncer estivesse disponível? Atualizaria sua caderneta vacinal ou deixaria que a sorte cuidasse da sua saúde? Muito provavelmente, escolheria a primeira opção. A verdade é que essa vacina já existe, pelo menos para os carcinomas causados pelo vírus HPV. Disponibilizada desde 2014 para a população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é uma das principais aliadas contra a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo.
Segundo o Ministério da Saúde, existem mais de 200 tipos de HPV, alguns dos quais podem causar verrugas genitais, enquanto outros estão associados a tumores malignos, como o câncer do colo do útero, ânus, pênis, boca e garganta. Atualmente, como prevenção, o Brasil tem como público-alvo da vacinação as crianças e adolescentes entre 09 e 14 anos, estendendo a vacinação pelo SUS também para os jovens com até 19 anos que não estejam com o esquema vacinal completo.
“O objetivo é fazer com que a pessoa adquira a imunidade antes de ter contato com o vírus HPV”, explica o médico oncologista Carlos Augusto Sacomori. Como estratégia para ampliar a campanha vacinal, algumas campanhas são realizadas, periodicamente, nas escolas do país. Para receber a imunização, porém, é necessário que os pais ou responsáveis autorizem a aplicação. Outra forma de garantir a proteção para crianças e adolescentes é levar o menor até uma unidade de saúde. “É muito importante ter essa consciência de que a única vacina contra o câncer é essa do HPV e você está perdendo a oportunidade de evitar uma moléstia que é extremamente complicada. É importante a população manter a vacinação em dia. É uma coisa extremamente deplorável pensar que se deixou de proteger um filho, uma filha, por questão de negligência”.
Uma das principais preocupações com relação ao HPV é sua relação com o câncer do colo do útero, visto que o vírus é o principal causador desta patologia. Atrelado a isso está a forma quase silenciosa com que age no corpo. “O HPV não causa sintomas, basicamente. Só vai haver sintomas quando você já estiver com o câncer instalado e geralmente já não é mais tratável”, explica Carlos.
Por essa razão, a vacinação, em conjunto com a realização de exames preventivos, é de extrema importância. O procedimento mais conhecido é o papanicolau, que consiste na coleta de células do colo do útero para análise em laboratório. Outro exame disponível é a colposcopia, que permite a visão ampliada do colo do útero por meio de uma espécie de microscópio. Ambos os exames já são ofertados pelo SUS.
Um terceiro tipo de exame também deve passar a integrar o catálogo do SUS em breve. O PCR para HPV coleta amostras e realiza análises de DNA, montando um painel viral capaz de identificar qual o nível de predisposição ao câncer de colo de útero. A partir dessa análise, a frequência dos exames preventivos são adaptadas de acordo com a propensão de cada mulher em desenvolver a patologia. Outra vantagem desse exame é a possibilidade de conseguir identificar lesões em seu estágio inicial, aumentando o índice de cura. “A nova tendência é você ter prevenção para a saúde ginecológica”, comenta Carlos.
O médico relata que, desde que começou a atuar em Porto União, percebeu uma queda no número de mortalidade devido ao câncer de colo de útero. Fato se deve, segundo ele, a maior oferta de exames preventivos no município. “Agora, com a vacinação, a gente espera, em breve, exterminar o carcinoma de colo uterino na nossa população”
Vacinação em Porto União
A estudante de medicina Ana Luiza Bueno Ferreira, filha de Carlos, realizou, com apoio do pai, um estudo sobre a relação entre a vacinação e os números de Neoplasia Intraepitelial Cervical (NIC) registrados em Porto União entre 2014 e 2024. Os números obtidos mostram uma curva decrescente a partir da vacinação, com ligeiro aumento durante a pandemia de Covid-19 devido a diminuição da vacinação contra o HPV no período.
O levantamento também mostrou um grande aumento no número de exames com alterações em 2016, o que, em um primeiro momento, pode parecer alarmante. Mas Ana relata que o dado demonstra que as campanhas de conscientização foram efetivas, e levaram mais pessoas a buscarem pelos exames preventivos “Conseguimos observar que, quando foi implementada essa vacinação gratuita no SUS, em 2014, a gente teve uma grande campanha de vacinação e de conscientização para que essas pessoas buscassem o exame”.
Para a jovem, a queda de exames com alterações nos anos seguintes, e o posterior aumento durante os anos da pandemia, revelam a importância de manter a atenção quanto à prevenção. “O trabalho veio para sempre reforçar a importância da vacinação. É importante estar com todo o calendário vacinal completo”.
Carlos reforça a importância da vacinação na diminuição dos casos de exames alterados observados no estudo. Segundo o médico, como o HPV demora cerca de 18 meses para causar displasia no colo do útero, o esperado após a vacinação era que o número de pacientes afetadas caísse, fato que se comprovou. “A partir do momento em que você começa a perceber que essas displasias que são registradas estão caindo, é sinal que você está tendo um resultado efetivo da vacinação”.
Vacina
O Ministério da Saúde atualizou o protocolo de vacinação contra o HPV, alterando o esquema vacinal para apenas uma dose ao invés de duas. A aplicação é feita de forma intramuscular, no braço. Além dos jovens, outros grupos podem buscar a vacinação gratuita, sendo eles: mulheres e homens que vivem com HIV, transplantados de órgãos sólidos, de medula óssea ou pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 45 anos; vítimas de abuso sexual, imunocompetentes, de 15 a 45 anos (homens e mulheres) que não tenham tomado a vacina HPV ou estejam com esquema incompleto; usuários de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de HIV, com idade de 15 a 45 anos, que não tenham tomado a vacina HPV ou estejam com esquema incompleto (de acordo com esquema preconizado para idade ou situação especial); e pacientes portadores de Papilomatose Respiratória Recorrente/PRR a partir de 2 anos de idade. “Hoje em dia, com essa distribuição gratuita de uma vacina que custa em torno de mil reais, só não toma quem não quer”, frisa Carlos.
Para pessoas que não se enquadrem nos grupos prioritários, a indicação é de vacinação até os 45 anos, sendo disponibilizada apenas em clínicas particulares. Porém, o médico destaca que o ideal é que a imunização ocorra antes do início da vida sexual. “Não adianta querer se prevenir de algo que você já teve contato. A vacina é preventiva. Ela não é curativa. [E também é importante] usar o preservativo em toda relação sexual. Além de evitar a AIDS, a hepatite, você vai evitar o HPV”.
Com a possibilidade de, com uma dose, afastar uma série de cânceres relacionados ao HPV, Carlos intensifica o conselho de manter o esquema vacinal atualizado. “A prevenção é sempre a chave para a saúde. Vacina previne”.
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