Moradores do Vale do Iguaçu relatam experiência com doação de órgãos
A dor da perda e a esperança da vida caminham juntas no universo da doação de órgãos. E é nessas encruzilhadas da existência que surgem histórias comoventes de amor ao próximo. O Paraná é, hoje, o estado que lidera as estatísticas nacionais de doação. No Vale do Iguaçu algumas histórias ajudam a entender o real significado de doar.
Rose Cordeiro perdeu o marido em um acidente de trabalho. Evandro Fernandes, de 29 anos, estava trabalhando na Área Industrial de Porto União quando uma tora caiu sobre sua cabeça. Na hora da tristeza, Rose precisou tomar uma decisão: doar ou não os órgãos do marido. “No momento eu disse não. Depois pensei, conversei com meus filhos, com a família, e decidimos doar. Pensei que ele poderia estar vivo em outra pessoa. Isso me conforta. Ele não sabia dizer não para ninguém. Todos gostavam muito dele. Eu sempre digo que quem recebeu o coração dele agora carrega um coração enorme.”
Para Rose, a dor ainda é recente, mas o gesto deu um novo sentido à perda. “Foi no dia do aniversário dele. A dor não passa, mas a gente aprende a conviver. Saber que ele salvou vidas me ajuda a seguir”.

A família de Evandro optou pela doação de órgãos após o homem sofrer um acidente. Foto: arquivo pessoal
Uma vida, dois presentes
Soilamara Anna Reinbold, de 64 anos, moradora do distrito de São Cristóvão, teve uma surpresa emocionante em 22 de dezembro de 2024. O presente de Natal veio de forma antecipada e em dose dupla. Após um ano de espera, recebeu um transplante de fígado e rim do mesmo doador. Todo o procedimento foi feito pelo SUS, no Hospital São Vicente, em Curitiba. “Antes eu sentia falta de ar, mal conseguia caminhar. Meu fígado inchava muito. Agora posso andar tranquilamente. Ainda não conheço a família do meu doador, mas um dia quero agradecer pessoalmente.”
Soilamara desde sempre via a doação de órgãos como uma chance de salvar vidas. Duas de suas primas já haviam passado pelo transplante de rim. Por isso, o assunto sempre fez parte das rodas de conversa. Hoje, a vida de Soilamara é outra. “Estou muito bem. Agora não sinto mais dor”.
Do outro lado
O Paraná foi, em 2024, pelo segundo ano consecutivo, o estado líder em doações de órgãos com relação ao número de habitantes. Foram 42,3 doadores por milhão de população (pmp).
Doar um órgão após a morte é uma decisão que cabe a família do paciente. Mesmo demonstrando, em vida, o desejo de ser um doador, por lei, é preciso que os familiares autorizem o procedimento. Luana Cristina Heberle dos Santos, servidora da Secretaria de Saúde do Paraná e membro do Sistema de Transplantes desde 2012, relata que, para a família, aceitar a doação de órgãos pode ser difícil pela falta de compreensão de como se atesta a morte encefálica.
No Brasil, o protocolo exige uma série de exames. Luana explica que são feitos dois exames clínicos com médicos diferentes e em momentos diferentes; um teste de apneia para confirmar que o paciente não está tendo respiração, e o exame de imagem para atestar que não há mais atividade cerebral. “Através deste protocolo de exames a gente tem a certeza da morte”.
Segundo o Ministério da Saúde, “quando a morte encefálica ocorre, a parada cardíaca será inevitável e, embora ainda haja batimentos cardíacos, a respiração não acontecerá sem ajuda de aparelhos e o coração não baterá por mais de algumas poucas horas. Por isso, a morte encefálica caracteriza a morte de um indivíduo”.
Apesar de liderar o número de transplantes, a fila de espera por um órgão ainda é grande. “O que faz a diferença neste panorama é o sim da família. É preciso conversar sobre isso, deixar a família ciente sobre o seu desejo de ser doador”, comenta Luana.
Quando a família aceita doar os órgãos do ente querido, é preciso agilidade para garantir que o transplante ocorra da melhor forma possível. Entretanto, todo o processo é feito seguindo à risca vários protocolos de segurança. Os dados do doador são inseridos no sistema nacional, onde um sistema analisa qual o receptor mais compatível. Para segurança de ambas as partes, a identidade do doador e do paciente que receberá a doação permanecem em sigilo.
Em União da Vitória
No Hospital Regional São Camilo, em União da Vitória, o enfermeiro Valter Oliveira coordena o processo de captação de órgãos desde o ano de 2020. “Todas as histórias nos marcam. A parte mais delicada é a abordagem à família. Conhecer as histórias pessoais no meio da dor é algo que emociona profundamente.”

Valter e Luana durante entrevista com o reppórter Rafael Peruzzo no programa União é Notícia da Verde Vale FM 94.1. Foto: acervo JOC
Valter relata que um doador pode salvar entre nove e dez vidas, a depender do tipo de captação e órgãos captados. O procedimento é feito com cuidado, visando garantir a integridade do corpo do doador e também os órgãos e tecidos que serão doados. “O cuidado que se tem na retirada do órgão é como se fosse um procedimento cirúrgico normal. A maioria dos questionamentos quando a gente faz a entrevista familiar é se vai deixar alguma deformidade, alguma mutilação. Não fica. Isso é um mito que vem se arrastando ao longo do tempo, mas todo o procedimento da retirada tanto do tecido, do globo ocular, dos órgãos, são feitos cuidadosamente para preservar o paciente que está ali fazendo um gesto nobre e também para preservar o tecido que irá para o transplante”.
Para o enfermeiro, é importante que os interessados em serem doadores de órgãos expressem o desejo para os familiares. “É uma coisa que a gente não costuma falar em casa, mas é uma coisa que a gente tem que aprender a falar. A gente sabe que o fim da vida é inesperado em algumas situações, então às vezes naquele jantar, naquele almoço de domingo é um tema bom de ser abordado. Falar de morte ninguém quer, ninguém gosta, mas a gente sabe que tudo pode acontecer. A doação é um novo viver, uma ressignificação da morte”.
Ouça a entrevista com Luana e Valter na íntegra:
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