Pai relata dor após perder filha de 14 anos

Há dores que o tempo não apaga.

No último dia de setembro, mês dedicado à prevenção do suicídio, um pai relata a dor de perder a filha de 14 anos e as perguntas que permanecem após a morte da adolescente.

Os nomes utilizados nesta reportagem são fictícios para preservar a identidade da família.

Carlos e Renata, perderam a filha mais velha seis meses depois de a adolescente relatar ter sido vítima de violência sexual.

Segundo o pai, a jovem tinha planos para o futuro e dizia que queria seguir a mesma profissão dele.

“Minha filha tinha muitos sonhos. Dizia que iria ser advogada, que queria viajar. Tinha muitos sonhos”, afirma.

A família havia deixado uma cidade maior em 2022 em busca de uma rotina considerada mais tranquila para os filhos.

Carlos conta que acompanhava o uso do celular e das mídias sociais da adolescente e que já havia identificado contatos de homens mais velhos com a filha.

No início de 2025, a jovem contou que um rapaz de 21 anos havia demonstrado interesse em manter um relacionamento com ela.

O pai afirma que sempre foi contrário à aproximação, principalmente pela diferença de idade.

“Para mim nunca teve cabimento um rapaz de 21 anos querer namorar uma menina de 14”, relata.

Carlos diz que conversou diretamente com a filha sobre a situação, os riscos daquela relação e os planos que ela tinha para o futuro.

Pouco tempo depois, durante o período de Carnaval, a adolescente relatou à mãe que havia sofrido violência sexual.

A família registrou boletim de ocorrência e o caso passou a tramitar na Justiça.

Seis meses depois, a adolescente morreu por suicídio.

O processo teve continuidade e o réu foi condenado a oito anos de reclusão, em regime inicialmente semiaberto, além do pagamento de R$ 5 mil como reparação mínima por danos morais.

Apesar da condenação, Carlos afirma que nenhuma decisão judicial é capaz de reparar a perda da filha.

“Temos que lutar pela punição, mas minha filha não voltou e não voltará”, diz.

Redes sociais e preocupação dos pais

O relato também chama atenção para a dificuldade das famílias em acompanhar a exposição de crianças e adolescentes no ambiente digital.

Carlos afirma que procurava controlar o tempo de uso do celular e acompanhar as mídias sociais da filha, mas reconhece que nem todas as situações puderam ser evitadas.

“Infelizmente, a internet apresenta um mundo muito difícil para as nossas crianças e adolescentes. Tentamos controlar de todas as formas, mas há situações que fugiram das nossas mãos”, afirma.

Especialistas alertam que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial e não deve ser atribuído a uma única causa. Violência, abuso, sofrimento emocional, isolamento e outros fatores podem aumentar a vulnerabilidade de crianças e adolescentes.

Por isso, situações de mudança de comportamento, isolamento, sofrimento intenso ou falas relacionadas à morte devem ser tratadas com atenção e busca por ajuda especializada.

Onde buscar ajuda

Na região, a União Pró-Vida desenvolve há mais de duas décadas um trabalho voluntário de acolhimento e prevenção ao suicídio.

Entre setembro de 2017 e julho de 2025, a entidade realizou 2.748 atendimentos, sendo 545 relacionados a pessoas que apresentavam ideação suicida.

O trabalho é baseado principalmente na escuta, no acolhimento e na valorização da vida. O atendimento é gratuito e pode ser feito por telefone, WhatsApp e também presencialmente.

Os contatos divulgados pela União Pró-Vida são (42) 98890-0279 e (42) 98815-6081. O atendimento presencial acontece em espaço anexo à Rodoviária de Porto União.

Além da União Pró-Vida, o CVV atende pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

Em situações de emergência, o Samu pode ser acionado pelo 192. Casos de violência contra crianças e adolescentes também podem ser denunciados pelo Disque 100.