
Talvez nem todos os moradores de Porto União soubessem “a cores” quem era Affonso João Senff. Mas era só ligar o rádio que lá estava ele – sempre com seu vozeirão imponente –, dando os avisos diários. Affonso, ou Everton Luiz como era chamado no meio radiofônico, era o responsável pelos mais altos pontos na audiência da hora do almoço com o programa “A hora do aviso”, na Rádio Colmeia. Para a família, era “A hora do pai”.
Affonso dedicou boa parte de seus 67 anos aos microfones. No início era um hobby, mas logo se transformou em profissão. “Se havia coisa que o pai tinha paixão, era o rádio”, conta Sibelle Senff, a mais velha das três filhas do radialista.
O gosto pelo rádio vinha da infância, mas a história com o veículo teve início na década de 1970, na cidade catarinense de Jaraguá do Sul. Na época, Sibelle era um bebê, mas já tinha de dividir seu tempo com o pai entre a Receita Estadual, onde era concursado, e os microfones.
Depois de alguns anos em Jaraguá do Sul, já aposentado, Affonso, a esposa e as filhas voltaram para a região das “Cidades Irmãs”, Porto União e União da Vitória. Ele integrou as equipes de várias rádios no Paraná, mas foi à Colmeia, estação localizada em terras catarinenses, que dedicou seus últimos 15 anos.
Nos bastidores era Everton Luiz, o “puxador de assunto”, carismático e ocupado, muitas vezes, com as cruzadas nos jornais. Segundo ele, essa era uma ótima forma de manter a mente ativa. Para o público, ocupava outro posto: era a voz de ouro, aquele em que se podia confiar. Assumia o “papel” de Affonso em casa: marido atencioso, pai conselheiro e o avô moderno. “Ele conversava de tudo com os netos, bem ‘prafrentex’”, brinca Sibelle. “Sobre o que eles falavam, o pai conversava. Não importava se era sobre carro, faculdade, dinheiro”, destaca.
Affonso viajava somente nas conversas com os netos ou pelas ondas do rádio. O estilo recatado e organizado demais distanciava-o de aventuras – o que para ele se traduzia numa viagem a Curitiba para visitar a mãe. “Quando nós éramos pequenos, ele saía bastante. Passeávamos na praia; o pai era mais novo”, comenta a filha. “Quando ficou velho, não saía de casa, preferia que as pessoas viessem visitá-lo”
O estilo caseiro do radialista até definiu um calendário próprio da família Senff: os fins de semana eram para se passar com o pai. Affonso era conhecido por ser um churrasqueiro de primeira, mas a carne só podia ser assada em casa ou com os poucos amigos que tinha. “Não importava se fosse na casa dele ou das filhas, o almoço de domingo era em casa, sempre em família”, conta Sibelle.
Mesmo com esse jeito intimista de levar a vida, ele não deixava escapar nada com relação às vidas das três filhas e dos quatro netos. Era de casa que Affonso coordenava toda a família. “Era o alicerce. Ele era quem dava o comando”.
O radialista tinha contatos para tudo, do encanador ao carpinteiro. Nada ficava por fazer em sua casa – o espaço de onde nunca saiu. Dona Auta Colita Senff, mãe do radialista, que hoje mora em Curitiba e está com 92 anos, deixou o cantinho para o filho há décadas e ele não quis se mudar. “O pai era muito apegado às suas coisas e não gostava de sair da rotina”, recorda a filha.
Affonso foi diagnosticado com câncer no fígado no início deste ano. A notícia chegou tarde. A família decidiu transferi-lo para Curitiba. Ele permaneceu na capital por duas semanas. Deixa a esposa, três filhas, quatro netos, a mãe e dois irmãos.
Dia 11 de junho, aos 67 anos, de câncer no fígado, em Curitiba.