
Difícil acreditar que os cem anos já tenham alcançado os gestos pacatos de Cecília Alves da Silva. Enfim, chegaram e há quem aposte que ela já tenha até passado dos cem. “É que naquele tempo, o registro de nascimento demorava para ser feito. Então, exatamente, a gente não sabe a idade dela”, conta com simplicidade Neuza, uma das filhas com quem Cecília mora.
Fica mais complicado precisar a idade por conta de um histórico digno de novela. Cecília teria uma irmã gêmea, curiosamente nascida um dia depois dela. A mãe morreu no parto e a irmã um mês após o nascimento. O pai teria casado de novo – foram três casamentos ao longo de sua também longa vida e 18 filhos nascidos durante a trajetória – e Cecília acabou sendo criada pelos familiares. Esse capítulo foi vivido com intensidade na cidade de Santa Cecília (SC). Aliás, é dessa coincidência, somado ao fato da mãe ser devota à santa, que a idosa recebeu seu nome.
O tempo passou, Cecília cresceu, virou empregada doméstica e nos trajetos da vida conheceu Sezinando Luis da Silva. O primeiro namorado acabou se tornando seu marido. Juntos, ficaram por muito tempo até que, em 2000, Sezinando descansou. “E ele completaria cem anos em janeiro”, conta Neuza, interlocutora da conversa com dona Cecília, já de poucas palavras.
O casal, depois de morar em cidades vizinhas, escolheu Porto União para constituir família. Na “terrinha”, tiveram seis filhos, 20 netos, 21 bisnetos e uma tataraneta. Tudo isso é hoje apenas “saboreado” por Cecília, a viúva que jamais esqueceu do marido e que nunca perdeu a fé. Católica, devota de Nossa Senhora Aparecida, recebe a comunhão em casa, com o mesmo brilho no olhar de quem vai e aprecia as missas. “A mãe gosta muito de ver a missa na TV”, lembra Neuza.

As poucas palavras que Cecilia diz sempre são positivas. Ela recebe as visitas com simpatia e vaidade – hábito que sempre cultivou e que lhe garante um rosto praticamente sem rugas – e se despende delas desejando um “que Deus abençoe”, sempre.
O segredo
Até quatro anos atrás, Cecília tinha mais facilidade para se locomover e alimentar. Mas, um Acidente Vascular Cerebral (AVC) naquele tempo e outro neste ano, a deixaram mais debilitada. Cecília precisa de ajuda para as atividades simples do cotidiano e hoje depende de fraldas. Mas, nem sempre foi assim. Além do trabalho como doméstica, a idosa sempre cuidou sozinha da casa e dos filhos. “E comia de tudo também”, revela a filha. De tudo mesmo, incluindo frutas e verduras. O DNA também ajuda.
Conforme a família, Cecília tem descendência indígena, o que explica sua vitalidade aos cem anos, bem como a longevidade também sentida por outros familiares. “Somos tudo meio “bugre”, de sangue forte”, brinca Neuza.
Fora as limitações provadas pelo AVC, Cecília vive bem, sem outras doenças. Mesmo assim, é visitada toda semana pelo médico da unidade de saúde do Santa Rosa, bairro carinhosamente adotado pelos Silva.
A festa
Os netos já compartilham pela rede social a contagem regressiva para os cem anos da vovó. A comemoração vem acompanhada por uma hashtag, que acaba marcando os convidados para o almoço na casa de Neuza. A festa deve ser simples, mas emblemática.