“Eu já devia ter morrido em diversas circunstâncias de guerra, mas por alguma razão ainda estou aqui. Mas estou com 86 anos, eu sei que meu tempo está acabando, e só o que eu sei é que não posso morrer com algo que guardo comigo há muitos anos.”
As palavras são do ucraniano, refugiado de guerra, Iván Bojko – hoje com 96 anos – à Guto Pasko em 2005. Na época Pasko havia lançado “Made in Ucrânia” e foi surpreendido por uma ligação de Iván. Logo depois da estreia o cineasta paranaense foi convidado à casa do ucraniano para uma conversa. “Eu achei que havia cometido uma gafe histórica, e como cineasta e documentarista eu fiquei assustado. Até com o tom de voz dele”, comentou Pasko.
É que o cineasta havia entrevistado Bojko para o documentário que retrata a história da imigração ucraniana no Brasil. Bojko falou de sua aproximação com a música. Habilidade responsável pela criação de duas capelas banduristas no Brasil.
Já na casa do ucraniano, Pasko é surpreendido, mais uma vez. “Eu não sabia com quem deixar e depois do filme que eu vi ontem, eu entendi que você é a pessoa certa para passar adiante. Só quero que você prometa que vai levar o que tenho e vai aceitar de bom coração”, disse Iván à Pasko. Na hora o senhor abriu uma gaveta debaixo de uma mesa onde constrói suas banduras, e entregou para o cineasta dois manuscritos em ucraniano. Eram os diários do refugiado, com suas memórias desde os 6 anos de idade, ainda na Ucrânia, até seus tempos no Brasil.
“Aquilo que eu senti na minha pele, que eu vi com os meus olhos, que a minha família sofreu na mão dos soviéticos, dos poloneses, e depois na mão dos nazistas, eu escrevi. ”
As palavras de Iván tocaram tanto Pasko, que ele começou a ter pesadelos com as passagens de guerra. “Não eram diários convencionais eram as memórias dele”, disparou.
Desde então os manuscritos foram sendo traduzidos, as conversas afinadas e a intenção de gravar o filme só aumentou. No entanto, a ideia não era apenas contar para Bojko que o tão sonhado retorno a seu vilarejo seria feito, ou que sua história seria contata em um filme. “Eu poderia ter colocado uma câmera na frente dele e pedido para ele contar tudo. Mas eu tinha uma história muito boa nas mãos e tinha de montar uma narrativa que cativasse”, comentou Pasko.
O documentário é desenhado a partir das emoções e narrativas de Iván e, o ápice, acontece quando Guto conta ao ucraniano que eles irão embarcar para a Ucrânia. “Eu contei para ele com as câmeras ligadas”, lembra.
A produção era de alto risco, e bem por isso alternativas foram criadas. Uma delas era a possibilidade de Ivan não aceitar, outra de ele aceitar, mas a produção não ir até o fim, justamente por sua idade. “Montei quatro roteiros e quatro narrativas, porque o objetivo era buscar a história de Iván até o fim.”
“Iván” é uma produção que começou em 2006, conta a história de Iván Bojko, um refugiado da Ucrânia que, após três anos (1942-1945) de trabalhos forçados na Alemanha Nazista encontrou asilo no Brasil, em 1948, e seis décadas depois, aos 91 anos de idade, retornou ao seu país para rever os familiares e amigos que foi obrigado a deixar para trás.
Aqui no Brasil a ideia de voltar para a Ucrânia era distante, quase nula, já que desde 1948 até 1990 Bojko era apátrida, e não poderia voltar ao seu vilarejo por questões políticas. A sua história se confunde e é tão atual quanto em 1942 numa Europa em chamas, 2006 quando a crise de refugiados sírios ou o Estado Islâmico nem eram tão conhecidos pelos noticiários. “É uma experiência humana na guerra, a gente vai ver no filme o que uma guerra faz com uma família, o que uma guerra faz com um país”, explica Pasko. “Esse filme não foi feito para a comunidade ucraniana. Casualmente ele é ucraniano, mas poderia ser um italiano, um polonês, um japonês.”
Iván entra em cartaz nesta quinta-feira, 10, em Porto União, no Cine Graecher. Com apoios da ONU e dos Escoteiros do Brasil esta é a primeira cidade do estado de Santa Catarina a receber o longa-metragem. Desde sua estreia nacional, “Iván” foi recebido em salas de cinema do Rio de Janeiro, São Paulo Brasília, Porto Alegre, Curitiba, Castro e Campo Largo. Devido à temática do filme e à procedência do personagem, a comunidade de ucranianos e descendentes do Brasil têm se mobilizado para assistir ao filme, realizando até excursões para os cinemas.
Pelo mundo
O filme tem apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), com sede em Genebra, que está com a campanha #IBelong, pelo fim da apátrida – condição de quase 10 milhões de pessoas no mundo que não têm nacionalidade reconhecida por nenhum país e vivem sem garantias de seus direitos humanos. O personagem Iván é um símbolo desta causa. Os Escoteiros do Brasil, também apoiadores do filme, estão arrecadando fundos para sua campanha nacional Escoteiros Pela Ucrânia, para beneficiar crianças refugiadas do país com o envio de material escolar, para que assim elas possam iniciar o ano letivo. “Iván” tem proporcionado debates sobre o tema dos refugiados que lutam por mar e terra até chegar em solo europeu.
Onde assistir
Filme “Iván”
Direção: Guto Pasko
ano de lançamento: 2015
classificação indicativa: 10 anos
Horários das sessões: Sala 01: 18h45 e Sala 02: 21h15.
Datas: de 10 a 16de dezembro
Local: Cine Gracher
Endereço: Av. Dos Ferroviários, 1045, Cidade Nova (Loja Havan) – Porto União (SC)