
Um fato que muitos não gostariam de lembrar, mas o tempo parece que passou rápido e trouxe março de 2015 de volta para as memórias de 51 famílias. Há um ano o ônibus da Costa & Mar encenava o mais trágico acidente rodoviário de toda a história do País. Nele estavam 59 passageiros, dos quais apenas oito sobreviveram.
O acidente chocou o País e as cidades irmãs, Porto União e União da Vitória, tiveram mais uma vez de se unir, mostrar a compaixão e a proximidade fraternal há tempo construída.
Para recordar e homenagear os que partiram a Federação de Umbanda, Candomblé e Angola (Fuca) junto de outras entidades religiosas de matriz espiritualistas se reuniram no sábado, 12, no segundo Fórum Afroreligoso.
Segundo José Aparecido Felix, presidente do Fórum, o momento é importante para a união. “É ímpar. É um momento em que nós nos unimos à dor de cada um dos familiares, para juntos recordarmos essa situação”, comentou. “Situação essa que é a morte. Ela nós não esquecemos, nós aceitamos em nossas vidas”, completou.
Para Felix é preciso conviver com a ausência de quem parte. “Para nós, adeptos de religiões de matrizes africanas, nós acreditamos que a vida é uma passagem. E para cada um de nós Deus nos concedeu um mérito, de valorizarmos nosso espaço que ocupamos aqui nessa terra, durante essa passagem”, disse.
Segundo Antônio Piasson, presidente da Fuca, a homenagem aos 51 passageiros é um compromisso. “Nós estarmos aqui relembrando esses irmãos, que nos deixaram em um momento em que deixaram as suas casas para prestar sua fé na beira das águas salgadas, é um dever, um compromisso com eles que se foram e com os familiares que ficaram.”
Wagner Cardoso Horn, do Lar Espírita União, também participou do culto e mostrou a visão kardecista da morte. “Todos nós seres humanos somos, na realidade, espíritos mortais, revestindo temporariamente um corpo físico e que esse corpo é perecível. Disso se pode concluir que com a morte não deixamos de existir, apenas nos libertamos desse invólucro material, que é o corpo, que fica, mas continuamos vivendo em espírito, que é a nossa essência, em outro plano da vida”, explicou.
Ainda para a doutrina espírita o luto demora nada além daquilo que Deus, em toda sua bondade e grandiosidade, já programou. “A saudade certamente fica e é salutar, mas aquele momento doloroso passa porque temos inúmeras vivências”, comentou. “Fomos criados por Deus, simples e ignorantes, mas que temos passado ao longo da história através de sucessivas vivências, encarnações. Passamos por várias experiências aqui na carne, progredindo, evoluindo, aprendendo coisas novas, adquirindo novas virtudes e espiando as falhas que cometemos no passado”, completou.
“O destino da vida muitas vezes vai nos levando por uma remansa, e muitas vezes nos esquecemos de pegar na mão daquele que nos colocou nessa vida. Olhando para vocês (familiares) vemos que tem um olhar em busca de uma resposta, mas muitas vezes o que buscamos está dentro de nós. A aceitação daquilo que nós não podemos mudar em nossas vidas, que é a morte, seja ela trágica ou não trágica”, comentou Félix, presidente do Fórum Afroreligioso.
Logo após as falas familiares das vítimas, amigos e grupos religiosos saíram em caminhada da Fundação de Cultura em União da Vitória em direção ao Cemitério Municipal. No trajeto cantos religiosos eram exaltados. Para os familiares das vítimas foram entregues rosas brancas. Todas foram depositadas no cruzeiro do Cemitério Municipal. Após orações também alguns pombos brancos foram soltos em ato de fé e paz. “Queremos fazer presente todas as vítimas que se foram, nós acreditamos na questão do resgate e esse resgate, agora, é importante. As rosas brancas representam cada uma das almas que ali se foram”, explicou Félix.
Em nome dos familiares das vítimas Djalma Lara, que perdeu a esposa Marcia Regiane Ramos no acidente, se disse emocionado e reconfortado com o gesto de quem participou da homenagem. “Eu sei que com a dor você se acostuma e eu estou conseguindo levar a minha vida. É claro que hoje (sábado) é um dia que eu não gostaria de estar aqui para lembrar, mas eu agradeço a todos que estão junto agora. Nós estamos aqui para lembrar dos que foram, um dia nós nos encontramos, quem sabe”, falou. Nenhum dos oito sobreviventes compareceu ao culto.
A Fuca ainda irá realizar uma celebração às vítimas no local do acidente, mas ainda não há data marcada. Conforme a direção da Federação esse será o segundo ritual para encaminhar cada um dos envolvidos no acidente. “Temos aqui um caso de reencarnação coletiva. Há aquela que é individual e algumas coisas que nós fizemos em conjunto que eu vou ter de responder em conjunto. Nós acreditamos que nas vidas passadas elas tiveram uma batalha juntas e tiveram de ir juntas também. A reencarnação coletiva é aquele momento em que eu ou mais quatro ou cinco já nos encontramos, ou lutamos pelo bem ou para o mal, e nós temos que partir juntos”, comentou.







