*Por Renan Machado*
Poderia eu fazer intermináveis rodeios, apaziguar o discurso, quiçá desconversar. Mas não. Prefiro ir direto ao ponto: a frieza do curitibano é mito. E dos grandes, ouso dizer. Um mito alimentado, historicamente, pela estranha sensação de se estar solitário mesmo espremido num ônibus biarticulado, transbordando de gente. Isso que há paulistanos, cariocas, nordestinos, brasileiros, enfim, de todos os cantos do país, aportados na capital paranaense. Seria contagiosa a frieza?
Qual o quê. Frio mesmo é o bichano. E não apenas os bichanos curitibocas. Está na natureza do gato ser calculista. Sem preconceito: gosto de gatos. Animais cheios de estilo e personalidade. Altivos. Porém, não embrenham-se em lama e mergulham em poças d’água para receber o dono que chega do trabalho num fim de tarde chuvoso. Este é o ofício dos cães.
O bichano aconchega-se no sofá e observa a chuvarada pela janela. Dá amor depois, com o dono sequinho, de banho tomado, metido num pijama macio.
Mas deixemos o debate acerca de bichos para outra hora.
De volta à marmita: os humanos curitibocas. Reservei ao terceiro parágrafo uma prova de que este papo de frieza é história da carochinha. No último final de semana, estive em Enseada, lugarejo próximo a São Francisco do Sul, em Santa Catarina, acompanhado de uma trupe de Curitiba. Povo da gema, criado nas paragens da Província. No sábado, jogávamos conversa fora à beira-mar. Repente, ouvimos ao longe uma batucada. Tantã, pandeiro dançarino e cavaco a chorar. Uma roda de samba formava-se num dos botecos localizados na avenida principal que desliza pela orla marítima. Samba de qualidade, tão bom quanto os organizados aos domingos no antigo Divas, em Porto União, às margens do Rio Iguaçu.
As mulheres que estavam conosco animaram-se. Queriam sambar. Eu me animei: gosto de samba tanto quanto da nega maluca que minha avó prepara num capricho de Tia Anastácia. Dois palitos, sacudida nas cangas e pés no chinelo de dedo: estávamos integrados à roda. Sorrisos e cantoria.
Esperei que os músicos, na conversa que rolava quando os instrumentos calavam, criticassem nossa Curitiba. Coisas como: “Já foram pra Curitiba? Arre, povo metido”. Mas nada.
Em Porto União da Vitória, inclusive, ouvi discurso semelhante de amigos que fiz por aí: “Antes de te conhecer, achava que você era metido, igual aos outros curitibanos”. Digo-lhes: bobagem. Não posso garantir que toda população de Curitiba é gentil. Contudo, isso não se pode garantir em lugar algum. Nem aqui, nem na China. Ainda que a acolhida curitibana não seja tão calorosa, existe viva embaixo desta crosta, diga-se com ênfase, falsa, de gelo.