Ainda era presidente da Celesc quando, numa tarde ensolarada de 2011, eu e dois amigos da companhia decidimos subir o morro do Monte Serrat (Florianópolis) para conhecer a realidade dos adolescentes que trabalhavam conosco no programa Jovem Aprendiz. Coordenador de diversos programas sociais que ainda hoje acolhem esses jovens, o padre Vilson Groh foi nosso cicerone. Não havia como subir de carro e, à medida que avançávamos caminhando pelas estreitas vielas, comprovávamos o respeito que o padre desfruta entre os moradores.
Tivemos uma inesquecível aula de realidade e conversamos com muita gente naquele dia: adultos, jovens e crianças. Eram pessoas batalhadoras, com muito a ensinar, contempladas pelo trabalho do Instituto Vilson Groh. Seguimos para o Morro do Mocotó, onde conhecemos outros projetos e histórias de vida. Basicamente, o trabalho coordenado pelo Instituto trava uma constante luta do bem contra o mal, resgatando e evitando que muitos jovens rumem para o mundo do crime. Arrisco dizer que a obra social de Vilson Groh é mais significativa em volume e resultados que a de muitas gestões públicas.
Ao final da caminhada, paramos para um café na casa do padre. Apenas um quartinho, lotado de livros. Ali, sozinho, naquele espaço sem nenhuma sofisticação, estava um homem de luxo. O luxo da paz de espírito. O luxo de não precisar de muito para ser completo. O luxo da fé.
Religião não se discute. E sou da opinião que vale mais um ateu bom que um mau religioso – o que importa é o bem que se faz. Mas me sinto um privilegiado ao trazer comigo o sentimento da fé. Não há conforto maior do que acreditar que “alguém” olha por você – Deus, no meu caso, por ser cristão. A fé tem movido muitas de minhas montanhas pessoais e profissionais. É o que me faz acordar todos os dias disposto a enfrentar os problemas. É o que me faz acreditar num objetivo maior. Que vale a pena fazer a minha parte desde que seja algo em que verdadeiramente acredite. Que se algo de ruim me aconteceu, é porque eu preciso aprender uma lição e melhorar.
Esse sentimento de fé é sempre renovado e alimentado por exemplos de vida como a do padre, como de adolescentes que enfrentam as agruras de uma vida difícil com a cabeça no sonho de ser “doutor”. Como escreveu Clarice Lispector, “ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas.” E ainda bem que existe fé. Esse é um luxo do qual eu não abro mão.
Antonio Gavazzoni é secretário de Estado da Fazenda e doutor em Direito Público
(contatogavazzoni@gmail.com)