Ataques em SC: muito medo, muitas perguntas, poucas respostas

·
Atualizado há 14 anos

Ataques em SC: muito medo, muitas perguntas, poucas respostas

Santa Catarina está vivendo algo jamais imaginado. Do dia 12 de novembro até o fechamento dessa matéria, foram incendiados 26 ônibus, além de ataques a instalações e viaturas da Polícia Militar, da Polícia

Civil e do Departamento de Administração Prisional (DEAP), e a carros de particulares. Em apenas cinco dias, o total de ocorrências chegou a 59, nas cidades de Florianópolis, Itajaí, Palhoça, Criciúma, Tijucas, Blumenau, Navegantes, São José, Itapema, Balneário Camboriú, Camboriú, Indaial, Gaspar e Tubarão.No mesmo período, 62 pessoas foram levadas às delegacias para averiguações e 46 permaneceram detidas ou, no caso de menores de idade, apreendidas. Três suspeitos de envolvimento na onda de ataques morreram em confronto com a polícia – quase um empate com o número de policiais mortos em serviço ao longo de todo o ano no estado, num total de quatro.

A onda de terror se espalhou por cidades até então pacatas e Santa Catarina ganhou um espaço indesejável na imprensa nacional e internacional. Os motivos podem ser vários. O governador Raimundo Colombo vem destacando, nas entrevistas que concede sobre o assunto, que se trata de uma reação do crime organizado ao aperto que a Segurança Pública vem dando, especialmente no tráfico de drogas.

Somente no primeiro semestre foram 2.154 casos registrados envolvendo tráfico de drogas, número quase 15% superior ao do primeiro semestre de 2011. As apreensões de grandes quantidades de drogas, de variados tipos e em diferentes regiões do estado, passaram a ocupar as manchetes dos jornais. Soma-se a isso a prisão do traficante de São Paulo conhecido como Piauí, no final do mês de agosto.

Ataques em SC: muito medo, muitas perguntas, poucas respostas
Foto: Mauricio Justino

Foragido desde maio e apontado como mandante em assassinatos de policiais naquele estado, Piauí foi preso em Itajaí, numa ação que envolveu o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público Estadual (Gaeco), serviço de inteligência da PM paulista e o Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da Polícia Federal.

O governo do Estado faz o que pode diante do inesperado. “Não há como prever onde e quando vão atacar”, afirma o secretário de Segurança Pública, César Grubba. Ônibus escoltados, reforço no número de policiais nas ruas, trabalhando em estado de alerta, e a constituição de um gabinete de crise permanente são algumas das reações do governo.

Se de um lado existe a rede de inteligência oficial, reforçada por câmeras de monitoramento, por outro há um número de soldados do tráfico prontos a obedecer a ordens que, ao que tudo indica, têm origem nos presídios. O próprio comandante geral da Polícia Militar, coronel Nazareno Marcineiro, admitiu essa possibilidade em coletiva à imprensa. “Não trabalho com certeza absoluta, mas há uma correlação perceptível entre a repressão ao tráfico de drogas e essa reação.”

Prejuízo
Apenas uma empresa de transporte urbano de passageiros que teve veículos queimados contabiliza prejuízos de mais de R$ 1 milhão. Mas não é só esse prejuízo direto que preocupa. O comércio das cidades afetadas já se ressente da queda na circulação de consumidores.

E tudo pode piorar. “Se não for tomada uma medida radical, na linha tolerância zero, essa situação pode se estender e acabará repercutindo na temporada de verão.” A preocupação é do presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH-SC), João Eduardo Moritz. Ele sugere, por exemplo, que se proíba a circulação de motocicletas das 22h às 6h. “Algumas pessoas de bem serão prejudicadas, mas ampliam-se as possibilidades de conter esses ataques”, aposta. Moritz receia que os turistas que já fizeram suas reservas para passar Natal, Ano Novo e férias de verão no litoral catarinense, até o Carnaval, possam iniciar um movimento de desistência das vagas. “Seria um desastre para o turismo catarinense.”

“As instituições estão ficando impotentes”
Doutor em Ciências Políticas, professor de pós-graduação em Sociologia Política e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Políticas Públicas da Universidade Federal de Santa Catarina (NIPP-UFSC), Erni Seibel tem acompanhado pela imprensa a situação dos ataques em Florianópolis e outras cidades do estado. Para ele, é certo que existe um comando criminoso por trás das ações, mas não afasta a hipótese de o grande número de casos estar relacionado com o que chamou de “ações oportunistas”, resultado da “espetacularização da notícia”.

Seibel considera que gangues com origem em outros estados estão atuando em território catarinense e acredita que as denúncias de maus tratos no Presídio de São Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, cujo diretor, Carlos Alves, pediu afastamento, foi um “fator motivador”. Ainda assim, afirma: “Nada mais é do que uma mostra da explosão do sistema penitenciário brasileiro. No caso específico de Santa Catarina, as próprias autoridades da Segurança Pública dizem que há uma década a população carcerária era de 10 mil presos e hoje já passa dos 17 mil presos”. Em ritmo inverso, a Polícia Militar de Santa Catarina já chegou a ter 13.120 policiais, hoje tem apenas 11.200.

Para o coordenador do NIPP-UFSC, “criou-se um clima de tática de guerra e parece que o afastamento do diretor do presídio de São Pedro de Alcântara não foi interpretado pelo comando desse movimento como uma bandeira de paz por parte do governo do Estado.” Ele lembra que são acontecimentos, de certa forma, inéditos para a própria Segurança Pública catarinense. “A situação explodiu e as instituições estão ficando impotentes diante dessas reações que, na verdade, começam a se espalhar por outros estados, para além de São Paulo. Muitas das gangues foragidas das Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro, as UPPs, foram para o Nordeste e vieram para cá. Os criminosos não foram presos nas ocupações dos morros do Rio, mas espalhados”, lamentou.

Fique sempre atualizado

Entre no nosso grupo do WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!