Artigo de Renan Machado: Amor por ácaros e crustáceos

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Atualizado há 14 anos

*Por Renan Machado*

Não sei nas paragens de Porto União da Vitória, mas em Curitiba fez calor pra burro nessa semana. Certo que um friozinho noturno, primaveril, ainda revela-se sob o céu estranhamente estrelado da Província. Foi numa dessas noites que – chegado das obrigações acadêmicas que tanto torturam-me – fui recebido com saltos por minha cadela Hydra, que aguardava à porta de casa. Admira-me essa alegria dos cães à chegada dos donos. Acariciei a cabeça peluda do meu eterno filhote, hoje com três anos, e senti, de súbito, um fedor de matar. Catinga pura. Não soube distinguir aquele aroma. Num ímpeto de asco, pulei para dentro de casa deixando recado à cachorrinha: “Brejeira! Amanhã verá água e sabão”.

No dia seguinte acordei mais cedo para banhar o canino fedido. Saí ao jardim e percebi que Hydra esfregava-se sobre uma sacola. Parecia enamorada: espreguiçava-se de costas, fuçava, cheirava. Coisa do arco da velha. Aproximei-me e afastei-a daquilo. Ao pegar a sacola nas mãos, surpresa: estava repleta de cascas de camarão. Dias atrás havíamos, eu e o povo aqui de casa, celebrando o verão próximo, preparado uma miscelânea de frutos do mar para a janta. No mínimo curioso, pensei, a paixonite qual acometera Hydra. “Deixemos para lá”, eu disse a ela: “hora do banho”.

Banhei-a docemente (o shampoo é de algodão-doce). Banhamo-nos, aliás, pois não sei dizer quem saiu mais encharcado. Terminada a sessão, minha cachorrinha foi espichar-se no sol alto, a fim de secar o pelo. Enquanto guardava os apetrechos, percebi que Hydra lambia ternamente uma das patas dianteiras.

Um hábito comum dos felinos, esquisito nos cães. Seria uma casca de camarão remanescente? Que nada. Cheguei perto e espantei-me ao descobrir que, na região lambida à exaustão, aconchegava-se um carrapato. Veja você, leitor amigo, que a cadelinha, ao invés de fincar garras freneticamente contra o ácaro intruso, acariciava-o com a língua. Obviamente livrei meu canino do parasita, afastando-a, pela segunda vez naquela manhã, de um amor pouco convencional.

Não hei de julgar Hydra por seu gosto incomum. Cada um tem o seu. Assim como nós, humanos, nos valemos de critérios tão distintos na escolha de um parceiro, por exemplo, alguns animais alternativos, grupo ao qual, diga-se de passagem, Hydra pertence com carteirinha de sócio, fazem o mesmo. Que ame ácaros e crustáceos! Caracteres miúdos são insuficientes para contar as façanhas da Hydra, uma cachorra arteira. Não ousarei dizer que “dá um livro”, como costumam dizer. Mas arrisco que talvez ela apareça mais vezes no Cartas da Província, revelando novos amores ou não.

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