OPINIÃO: A violência incompreensível, mas real

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Atualizado há 10 anos

Vice-governadora do Estado do Paraná, Cida Borghetti. Foto: Jonas Oliveira/ANPr
Vice-governadora do Estado do Paraná, Cida Borghetti. (Foto: Jonas Oliveira/ANPr).

Uma mulher, com grandes chances de vitória, se prepara para ocupar a presidência da nação mais poderosa do mundo. O papa Francisco recomendou, recentemente, estudos no Vaticano para aumentar a participação da mulher na hierarquia da Igreja Católica. E centenas de mulheres comandam países, grandes empresas, entidades e instituições onde a questão do gênero é absolutamente irrelevante.

Nesse contexto e diante do avanço da participação feminina na sociedade, essa revolução extraordinária e de dimensões globais, comemorar no Brasil os 10 anos de uma Lei, a Maria da Penha, que tem o objetivo claro e exemplar de proteger a mulher contra a violência doméstica, parece contraditório, óbvio e superado. Entretanto, só quando sabemos, pelos dados da ONU, que 1 em cada 3 mulheres no mundo é vítima de violência física praticada por companheiro e no Brasil, a cada 2 horas, uma mulher é assassinada, conseguimos entender a complexidade da violência contra a mulher e sua abrangência.

É preciso comemorar, sim, com vigor os 10 anos da Lei Maria da Penha que levou a mudanças efetivas nas áreas de Justiça e Segurança. E, mais importante, estabeleceu paradigmas na forma e no contexto da sociedade brasileira encarar um problema trágico e doloroso que acontece no seio das nossas famílias.

Desde a minha adolescência participo de movimentos feministas por todo o País. A atividade na política levou a um salto de qualidade e de escala nessa atuação, onde foi possível liderar grandes campanhas, como a do Combate ao Câncer de Mama, que salvaram a vida de milhares de mulheres.

Continuo lutando por mais creches, por centros de diagnósticos de câncer, pelo aumento da atuação na mulher na política, contra o trabalho precoce e o abuso sexual infantil. E atuo, com determinação, no combate direto à violência doméstica, que hoje também se manifesta em formas muito mais sutis, como o abuso psicológico ou moral na Internet. Covardias que não deixam marcas ou cicatrizes, mas são profundas e letais como uma facada.

Aqui no Paraná, a resposta à Lei Maria da Penha foi imediata: são 20 delegacias de Proteção à Mulher e no mês passado o governo Beto Richa equipou essas delegacias com novas viaturas e mais policiais. Também estruturamos a Coordenadoria das Delegacias da Mulher para sistematizar as atividades de todas essas unidades de proteção à mulher e na Polícia Científica os esforços são para proporcionar atendimento mais humanizado às mulheres vítimas de violência sexual.

O Paraná aderiu ao pacto nacional para enfrentamento da violência contra as mulheres e já colhe resultados como a redução dos inquéritos policiais de violência contra as mulheres. Em Curitiba a redução foi de 23% em Londrina de 30% e em Maringá de 14,8%.

Curitiba conta agora com a Casa da Mulher Brasileira. Local que amplia ainda mais o atendimento às vítimas da violência doméstica, com assistência jurídica, proteção e abrigo. Como deputada federal acompanhei e ajudei na consolidação dessa importante estrutura.
Todas essas conquistas são fundamentais na luta pelos direitos da mulher, mas é preciso avançar, com mais atendimentos específicos e mais profissionais preparados para receber a vítimas com respeito, compreensão e humanidade.

E esse avanço deve envolver as próximas gerações, com a inclusão do tema nas escolas, debates em família, com as crianças e adolescentes. São eles, os meninos e as meninas, que darão o passo definitivo na derrubada dos preconceitos e do uso da violência dentro de casa. São eles que, afinal, se tornarão policiais, juízes, delegados, médicos, enfermeiros, pais e mães com uma nova visão sobre o verdadeiro papel que a mulher exerce na sociedade. Porque, como afirmou o presidente Barak Obama nessa semana, ao declarar-se feminista no aniversário de 55 anos, “quando todo mundo é igual, somos mais livres”.

Cida Borghetti é vice-governadora do Paraná

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