OPINIÃO: Miopia Social

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Atualizado há 10 anos

O individualismo é, sem dúvida, uma das características mais marcantes da sociedade contemporânea. Estamos hoje, como se diz, “cada um no seu quadrado”. Com exceção de alguns poucos abnegados que dedicam suas vidas à coletividade, a maioria de nós pensa e age em favor dos nossos próprios círculos. Só saímos da nossa zona de conforto quando algum dos nossos preciosos direitos é frontalmente questionado. Nessa hora, meus amigos, até os mais pacatos viram ativistas.

Essa miopia nos levou aos quadros críticos de saúde financeira e desequilíbrio social. Pensamos e agimos em torno dos nossos próprios umbigos. Estamos vivendo uma crise política e econômica que expôs até para quem não quer ver as mazelas que nos levaram a essa situação. Décadas de falta de planejamento, de excesso de benesses, de privilégios sem cabimento e de muita corrupção e mau uso do recurso público nos trouxeram até aqui. Estamos assistindo a quebradeira em série dos Estados e a falência generalizada de estruturas e serviços públicos.

Mesmo assim é grande a resistência às mudanças estruturantes. Não há mais como adiá-las. Por mais populista que soe, precisamos promover mudanças que favoreçam, majoritariamente, os mais pobres. São eles que dependem diretamente dos serviços públicos. São eles os primeiros a sofrer as consequências dos desmandos políticos e seus efeitos econômicos. São eles os menos vistos pelos míopes sociais, aqueles que se intitulam cidadãos de bem, mas não enxergam o mundo além de seu florido quintal.

Para mudar de verdade – e para melhor – a vida dessas pessoas é preciso mexer em questões abrangentes e vitais para a nossa virada social e econômica: reforma da previdência, regulamentação do direito de greve, benefícios para os servidores públicos e desvinculações de receitas. É o mínimo para que se consiga garantir direitos antes de não conseguir cumpri-los. O novo Brasil não comporta mais as velhas práticas. Governos que existem quase somente para dar conta da folha de pagamento não têm razão de existir. Não temos a dimensão do que está por vir. Mas é certo que a sociedade não vai tolerar por tanto tempo hospitais fechados enquanto órgãos públicos e poderes funcionam alheios à situação.

Se você está no grupo do “não pisem no meu calo”, prepare-se para se sentir incomodado. Nossas opções são mudar ou quebrar. A oportunidade de transformar para melhor talvez não nos seja dada mais adiante. A hora é agora. Se você é um míope social, providencie seus óculos de realidade.

Antonio Gavazzoni é secretário de Fazenda de Santa Catarina e doutor em Direito Público

contatogavazzoni@gmail.com

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