
Alunos do Colégio Estadual Túlio de França, em União da Vitória, impediram o que seria a tentativa de uma ocupação no prédio. Toda a movimentação teve início ontem pela manhã quando alunos contrários às ocupações reagiram, barrando a entrada de representantes da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES) de União da Vitória.
Os ocupantes, por outro lado, afirmaram que estavam no Colégio para uma conversa com a direção. Segundo eles, a UMES recebeu denúncias de alguns alunos do Túlio de que professores, inclusive direção, estavam pressionando os estudantes a não ocuparem o Colégio. Informação negada pelo diretor, Mario Dalgallo. “Com certeza ninguém está oprimindo alunos”, disparou.
Na segunda-feira, 17, o Grêmio Estudantil do Colégio realizou uma assembleia para definir se haveria ocupação e, por aclamação, a decisão foi contrária. Conforme Gabrielle Narciso, presidente do Grêmio, os alunos estavam preocupados com as ocupações, já que elas podem alterar o calendário escolar e prejudicar a aplicação das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). “A gente votou pela não ocupação. A gente quer expressar o nosso repúdio a PEC [241, de congelamento dos gastos públicos] e MP [do ensino médio] de outras formas”, disse.
Ainda durante a movimentação, alunos que estavam no Colégio levantaram faixas com os dizeres “temos direito de estudar” e “não vai ter invasão”. Outro grupo também gritou palavras de ordem como “não vai ter ocupação”.
O presidente da UMES, Paulo Cezar Pires do Prado, foi o único autorizado a entrar no Colégio para conversar com a direção. Na conversa, de portas fechadas, estiveram Prado, Dalgallo, a presidente do Grêmio e um representante do Núcleo Regional de Educação (NRE) de União da Vitória. Lá ficou decidido que haverá uma nova assembleia com a presença da UMES para definir outras ações que possam ser tomadas contra a PEC 241 e a medida provisória do ensino médio, que não seja a ocupação.
Enquanto isso outro representante da UMES, Guilherme Esteves, de 18 anos, estudante do Colégio São Cristóvão, ficou do lado de fora e tentou explicar o motivo da presença da União. “Estou aqui representando hoje a UMES, para defender os direitos dos alunos”, disse. Esteves ainda falou que entende o posicionamento contrário dos estudantes, mas que foi até o Colégio por conta das denúncias de “opressão”. “Os alunos do Colégio Túlio de França vieram falar com a gente [UMES], pedindo orientações para ajudarmos a organizar [ocupação], porque a gente estava sabendo que dali [colégio] estava contra. Então, desde o começo a gente só queria conversar com eles”, relatou.
Durante a conversa, outros alunos rebateram dizendo que o direito da maioria deveria ser respeitado. “Eles querem que a gente entenda o movimento, mas porquê eles não podem entender a nossa vontade de ter aula”, questionou um dos alunos. Outro falou que não respeitar a decisão tomada em assembleia seria “arbitrária” por parte da UMES. “A gente quer ter aula”, afirmou. Do lado da UMES, um outro representante, que estava em frente ao portão, numa cena de bate-boca com alunos e presidente do Grêmio Estudantil, rebateu e disse que a assembleia não tinha sido legítima, porque representantes da UMES não haviam sido convidados. “Nessa assembleia foi colocado os pontos que preocupavam sobre a invasão da escola. Esse momento foi feito por aclamação com mais de 90% dos alunos. Nós podemos assegurar que nossos alunos votaram pela não ocupação. Eles querem que as aulas continuem e não admitem que uma minoria venha e não aceite a decisão da maioria, e tenham direito de entrar na escola, inclusive com algumas ameaçadas de pichação e apedrejar a escola”, disparou Dalgallo.
O chefe do NRE, Ricardo Brugnago, definiu o episódio como “autoritário” e de “invasão forçada”. “Temos acompanhado e mais uma vez reafirmamos de que nós precisamos manter o diálogo, a conversa. Não é com uma maneira antidemocrática e autoritária que vamos conseguir resolver os problemas, vamos, na verdade, criar ainda mais problemas”, argumentou. Brugnago também pediu a reflexão sobre as movimentações estarem concentradas apenas no Estado do Paraná. Para ele as ocupações recebem orientações de sindicatos que já tomaram o viés político na discussão.
Ainda durante a tarde de ontem, a direção do Colégio Túlio de França conseguiu uma liminar que impede a ocupação do prédio. Conforme Dalgallo, o pedido foi feito na quarta-feira, 19, quando a mãe de um aluno, junto da presidente do Grêmio Estudantil, foi até a Procuradoria do Estado registrar a ata da assembleia realizada pelos alunos, na qual decidia pela não ocupação. Com a liminar, caso o prédio seja ocupado, a Polícia Militar poderá ser chamada para retirar os ocupantes.
Ocupações pelo Vale
Outras três escolas estão ocupadas em União da Vitória. Colégio Judith Simas Canellas e Adiles Bordin foram ocupadas no início desta semana. Já o Colégio São Cristóvão (Cesc) está ocupado desde a semana passada. Em reunião realizada com os pais nesta semana, um grupo de professores resolveu retomar as aulas normais na segunda-feira, 24. Os alunos, inclusive, já estão sendo alertados dessa decisão. Conforme a direção, os pais irão acompanhar os alunos até o Colégio para manter a segurança dos filhos. A Patrulha Escolar também estará presente. Ainda na reunião de terça-feira, 18, os pais questionaram a direção sobre a maioria que apoia o movimento. Segundo os pais uma escola com quase 1.400 alunos em que pouco mais de 30 estão em ocupação, qual o motivo da direção não os retirar do espaço. Desse número, apenas dez são alunos matriculados e os demais fazem parte de outras escolas ou compõem a UMES, que está à frente das ocupações em União da Vitória.
Os pais pediram por uma ata que mostrasse a maioria. Contudo, a direção informou que nenhum documento foi enviado com os resultados da assembleia de início da ocupação, nem ata ou abaixo-assinado. “Dez alunos fecharam o Colégio [Cesc] e os demais, que passam de mil, querem voltar às aulas”, rebateu uma das mães.
Dois pedidos de reintegração de posse foram feitos pela direção. Contudo, eles foram negados. Na última tentativa a justificativa foi que pela ocupação ser composta de crianças e adolescentes, eles não devem – por ora – serem submetidos “aos efeitos nocivos de uma violência estatal de reintegração forçada de posse.”
O campus da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) em União da Vitória também continua ocupado. Por lá as reivindicações fogem à pauta dos secundaristas. Os acadêmicos se dizem contrários a medida provisória do ensino médio, contudo, há problemas pontuais no próprio campus, como a falta de pagamento de terceirizados que podem abandonar o serviço caso não recebam o pagamento até a próxima semana.
A Unespar, no entanto, está servindo de ponto de coleta para as outras ocupações. O maior problema dos secundaristas é a falta de comida nas ocupações. Com isso alunos da Unespar irão distribuir as doações para as outras três escolas ocupadas na cidade.
Ainda na Regional de Educação há escolas ocupadas em Cruz Machado, Bituruna e São Mateus do Sul.
No Anchieta
O Colégio Estadual José de Anchieta também realizou assembleia nesta semana e optou pela não ocupação. Por lá, segundo o presidente do Grêmio Estudantil Helena Kolody, Lee Eros Galaad Dias de Moura, estudante do ensino médio, disse que os alunos do Colégio irão, sim, realizar outros tipos de manifestos contrários à PEC 241 e, também, à medida provisória. Contudo, são avessos à ocupação. “Entendemos que uma ocupação é medida extrema, quando não há mais nada a se fazer”, falou. “A nossa preocupação com a ocupação, como todos, é com relação ao calendário escolar e exames do ENEM. Tem muito aluno que já fez matrícula na faculdade e pagou a inscrição”, argumentou.








