Embora a informação esteja praticamente na palma da mão, disponível para a maioria, parece que muitos não sabem o que fazer com tanto conhecimento. É o caso do sexo sem proteção. A tecla, de tão batida, parece que perdeu o efeito. Talvez seja por isso que os números de sífilis, uma das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), subiu tanto no Brasil. Por isso, o termo “epidemia” é oficial.
De acordo com o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, entre junho de 2010 e 2016 foram notificados quase 230 mil casos novos da doença e a transmissão de gestantes para bebês é, atualmente, o principal problema. Apesar de o crescimento ser registrado continuamente há seis anos, somente agora o governo classificou o caso como epidêmico.
No Vale do Iguaçu, os números não sugerem epidemia, mas, sim, alerta. É que do ano passado para cá, os casos de pacientes infectados aumentaram. A Epidemiologia de União da Vitória não aponta os dados, porém revela que neste ano, entre janeiro e agosto, três casos congênitos, quatro em gestantes e outros seis sem causa de transmissão confirmada, foram registrados. Em Porto União, o aumento de 2015 para 2016 é de 50%. Hoje, a cidade trata 27 infectados.
Entender quem tem a doença ajuda a identificar onde há falhas. No País, por exemplo, em 2010, a incidência em homens era maior – cerca de 1,8 caso para cada caso entre mulheres. Essa média caiu para 1,5 em 2015. Ou seja, as mulheres são o grupo cuja vulnerabilidade vem aumentando. Os casos de sífilis congênita, quando a mãe grávida passa para o bebê, também cresceram expressivamente. No ano passado, a cada mil bebês nascidos, 6,5 eram portadores de sífilis. Somente cinco anos antes, também em 2010, esse número era de 2,4 bebês em cada mil nascimentos, o que mostra que a incidência da sífilis congênita praticamente triplicou em meia década.
No Vale do Iguaçu, as equipes de saúde têm trabalhado bastante com o assunto. Os agentes comunitários defendem a prevenção e para as mamães, incentivam – e muito – o pré-natal, o que pode garantir a detecção da doença bem mais cedo. Em todas as unidades, há o Teste Rápido, que revela a contaminação em até 20 minutos.
Em junho deste ano, como mostrou O Comércio, a realização dos testes para diagnosticar casos de hepatite, acabaram encontrando pacientes com sífilis. Em 270 exames, três deram positivo para a doença. Sobre o assunto, a responsável pelo setor de Epidemiologia de União, Marly Della Lata, comentou que os casos vinham crescendo consideravelmente desde 2014, quando a bactéria parecia estar “estagnada”.
Conhecer a doença, sem medo, ainda é um bom remédio. “Passamos de três décadas desde a primeira notificação de HIV/AIDS, que ocorreu em 1982, em São Paulo e insistentemente falamos neste assunto, que ainda suscita curiosidade, medo, preconceito e desconhecimento. Costumo dizer que o conhecimento é o alento de várias doenças, pois se as conhecemos bem, podemos não adoecer, podemos prevenir outras pessoas, podemos nos curar mais rápido e evitar sequelas desagradáveis”, defende a infectologista Suzanne Leite Pereira.
Gestantes: grupo de preocupação
Sem dúvida, de toda a contaminação, preocupa muito os casos que envolvem as grávidas. É que a bactéria que causa a sífilis pode causar má formação do feto. Além disso, a criança também pode ter desenvolvimento mais lento e o crescimento afetado. E alguns casos, o bebê não resiste e morre.
Em Porto União, conforme dados da Epidemiologia, o trabalho de “formiguinha” dos profissionais da saúde garante a estagnação dos casos: desde 2015, apenas quatro casos de sífilis congênita foram registrados. Em Santa Catarina, porém, no ano passado, 475 bebês nasceram com a doença no Estado – número 75% maior do que o registrado no ano anterior, quando as notificações de sífilis congênita totalizaram 272 casos.
Em Santa Catarina, Dive investe em prevenção
Outubro também e mês de combate à doença. Por isso, o Estado de Santa Catarina, por meio da Diretora de Vigilância Epidemiológica (Dive), está investindo na campanha de prevenção. “A iniciativa leva em consideração o crescimento de 58,4% nos casos adquiridos no Estado”, destaca o gerente regional de Saúde de Canoinhas, Antônio Gilberto de Carvalho. Para a campanha, além de material didático, a gerência recebeu também 3,5 mil testes rápidos, que serão distribuídos para os municípios de toda a regional (além de Porto União, Bela Vista do Toldo, Canoinhas, Irineópolis, Major Vieira, Monte Castelo e Três Barras).
No Estado, eliminar a transmissão da sífilis da mãe para o bebê até 2019 é o grande objetivo do Plano de Redução da Sífilis Congênita que está sendo construído pela Dive. “A sífilis tem cura, desde que o tratamento seja feito oportunamente. A partir do tratamento adequado da gestante e do seu parceiro sexual, o bebê nasce livre da doença, ou seja, a sífilis congênita é 100% evitável”, enfatiza Dulce Quevedo, gerente de Vigilância das DST, Aids e Hepatites Virais da Vigilância Epidemiológica.
Em Santa Catarina, os casos de sífilis adquirida vêm aumentando em torno de 50% ao ano.
Teste Rápido amplia visualização dos casos
Conhecer o perfil do paciente e a quantidade deles é uma das inovações da saúde. Especialmente desde 2012, os casos se tornaram mais conhecidos, a partir da popularização do Teste Rápido.
Em entrevista ao Paraná TV, Francisco Carlos dos Santos, que coordena as ações de epidemiologia no Estado, defendeu o exame. Para ele, o teste significa identificação precoce, logo, tratamento e cura mais rápida. “Por isso era esperado este número maior de casos. No Paraná, o governo liberou os testes, o que facilitou muito. Antes, eram 30 dias para se descobrir se a pessoa estava ou não com a doença. Agora, em 20 minutos já se sabe”, defende.
Conforme ele, a sífilis é tratável e diferente das guerras mundiais, época onde se morria por conta dela, hoje, ela é totalmente curada.