Artigo de Renan Machado: A vida como uma cristaleira

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Atualizado há 14 anos

Frágil. Muitos saberão a que me refiro: avós que tinham cristaleiras em suas casas. Um drama. Nos almoços dominicais era lei manter-se longe das peças. Bem longe. Correria, só no quintal. Parece divertido, alegre, recordar tempos de criança, quando tudo era mais fácil. Porém, o assunto do Cartas da Província, nessa sexta-feira, é de muita seriedade. Não raro, tragédias acontecem e a primeira reflexão sobe rápido no raciocínio: “como a vida é frágil”. Parece uma colocação vazia, de descaso até. Contudo, é inegável o teor de veracidade.

A madrugada de sábado para domingo, da semana passada, ficou marcada por uma tragédia. Nas ruas de Curitiba, um colega, guri, moleque, estudante de Publicidade e Propaganda da PUCPR, sofreu um acidente de motocicleta. Fatal.

O domingo amanheceu cinzento. O céu carregado não conteve as lágrimas. Chorou chovendo. Quão frágil é a vida. E injusta, errado não dizer. Um momento, um deslize, ou sabe-se lá a causa da fatalidade, que leva precocemente um garoto de 22 anos. Promissor e feliz. Bem quisto pelos amigos. Nos corredores do bloco vermelho da universidade todos o conheciam. Ele e a boa energia qual contagiava seus interlocutores.

No sábado mesmo aconteceu um evento em minha casa. Um churrasco de confraternização, no qual estiveram presentes, em maior parte, aspirantes a jornalistas. Fora criado uma página para o evento no ambiente online do Facebook. Isso semanas atrás. Muitos alunos da habilitação de jornalismo confirmados; eis que surge o Luke, meu colega acidentado. Confirmou presença. Ri comigo.

Ele sabia que haveria maioria de jornalistas, mas não se intimidou. Jogou as diferenças, a histórica rixa entre jornalistas e publicitários, no mato. Fiquei feliz. O Luke sempre seria bem-vindo e estaria entre amigos. No dia seguinte brincou comigo, na faculdade: “é só pra jornalista mesmo?”. Claro que não era. “Então não é certeza, mas acho que eu vou”, ele disse.

Mas o Luke não veio. Ninguém poderia prever. Domingo pela manhã recebi a notícia do acidente. Fiquei estupefato. É o tipo de notícia que nunca se espera receber. Uma sensação horrível me corroía as entranhas. Sensação de perda de uma pessoa querida, ainda que nunca tivéssemos sido amicíssimos. Saí para caminhar pelo Centro da cidade. Volteei pela Rua XV e imediações da Praça Rui Barbosa. Respirava a capital.

A fatalidade, porém, não me abandonava. Pensava nessa fragilidade; nessa efemeridade vital a qual estamos, todos nós enquanto seres vivos, à mercê. O bordão explica: “não se sabe o dia de amanhã”. Pois bem, uma verdade! Enfim. Poupa-lo-ei, leitor amigo. A vida é frágil por si só, ainda mais quando imaginamo-nos invencíveis e intocáveis. Tão frágil quanto uma cristaleira de avó. Ou mais.

Em memória de Luccas Luke, um guri do bem.

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