Ozéias Olkovicz é devoto da Sexta-feira da Paixão e dos ritos da Quaresma, desde a infância. Segundo ele, as tradições espirituais sempre foram mantidas, porém acredita que as ações feitas nessa data podem ter ganho um caráter mais cultural do que espiritual na atualidade.
Ele é um dos coordenadores do Grupo Teatral Paixão de Cristo. Há 20 anos, o grupo apresenta a encenação do Senhor Morto. Osséias afirma que o número de público para acompanhar o teatro também diminuiu. “O que eu percebo é que para algumas pessoas a Sexta-feira Santa deixou de ser reflexão e virou mais um feriado. Creio que até os ritos da Semana Santa estão mais flexíveis. A própria igreja vem mostrando mais flexibilidade quanto a ações dos fiéis para a data”, comenta.
O fiel de União da Vitória lembra que vários costumes e superstições da Semana Santa têm o seu auge na Sexta-Feira. “Lembro das orientações dos mais velhos que não podia fazer nada data, como tomar banho, pentear os cabelos, cortar as unhas, limpar a casa, pegar em dinheiro. Lembro dos jejuns. Também recordo que neste dia nem se ouvia música”, conta.
Mais um feriado
De acordo com o professor emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiz Osvaldo Leite, essas tradições atualmente ganharam um caráter mais cultural do que religioso. Os devotos mantêm os ritos movidos pela fé, mas parte da população segue por costume.
Ele comenta ainda que as pessoas aproveitam para viajar, fazer “feriadão”, preocupam-se mais em passear. Para ele, esta é uma data de deixar de fazer algumas coisas e pensar nos outros, ajudar o próximo. Ele avalia que é um momento de recolhimento.
Em uma recente entrevista à reportagem, Dom Agenor Girardi, bispo diocesano de União da Vitória, lembrou da importância da data. Para ele, a Páscoa é a data mais importante do ano. Falou também dos 40 dias de preparação para ela. Para o sacerdote, o período da Quaresma está para a Páscoa o que o Advento está para o Natal: ambos preparam o povo cristão para datas magnas do cristianismo. O tempo é de renovação, de saber que dias melhores virão. “É isso mesmo. Dias melhores virão”, confirma. Dom Agenor defende também que o tempo é de reviver o que realmente é importante que, entre um ano e outro, fica um pouco esquecido. “Toda liturgia da igreja gira em torno de grandes dois eixos, o Natal e a Páscoa. Para a Páscoa, então, temos a Quaresma, tempo marcado pela penitencia, que nos prepara para a Semana Santa”, completa.
Na quarta, 12, o Papa Francisco concedeu audiência geral aos fiéis na Praça São Pedro. Ele falou sobre a Páscoa, recordando o ingresso de Jesus em Jerusalém, celebrado no Domingo de Ramos. “Quem podia imaginar que aquele que entrou triunfante na cidade teria sido humilhado, condenado e morto na cruz?”, questionou Francisco aos fiéis. “As esperanças daquele povo se desmancharam diante da cruz; mas nós cremos que precisamente Nele, crucificado, a nossa esperança renasceu. Que esperança é essa?”, sorriu.
Quaresma
Ela é comemorada no domingo e praticada desde o século 4. A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos, anterior ao Domingo de Páscoa. Durante os 40 dias que precedem a Semana Santa e a Páscoa, os cristãos dedicam-se à reflexão, a conversão espiritual e se recolhem em oração e penitência.
Durante a Quaresma a Igreja veste seus ministros com vestimentas de cor roxa, que simboliza tristeza e dor. Cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias e foi assim que surgiu a Quaresma.